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Agrotóxicos afetam sobrevivência de moluscos de água doce

Agrotóxicos afetam sobrevivência de moluscos de água doce

Pesquisa aponta necessidade de incluir os gastrópodes – grupo ao qual pertence o molusco – como bioindicadores nos protocolos oficiais de avaliação da qualidade da água

Pesquisa indica que agrotóxicos amplamente usados na agricultura brasileira impactam ciclos de vida de pequenos moluscos que vivem em rios, lagos e represas, como o Physa acuta, podendo causar efeito cascata sobre toda a cadeia alimentar aquática.

O inseticida Imidacloprido reduziu em até 50% a produção e a eclosão de ovos do molusco, enquanto o fungicida Tebuconazol afetou o desenvolvimento dos filhotes, havendo perdas de até 90% no crescimento, além de inviabilizar completamente a eclosão dos ovos.

O fungicida também afetou a atividade locomotora (movimento e velocidade do movimento) dos animais, comportamento essencial para buscar alimento, fugir de predadores e encontrar parceiros reprodutivos O estudo apresenta evidências que podem subsidiar a revisão dos protocolos oficiais de avaliação de risco ambiental, ao propor a inclusão de gastrópodes — grupo ao qual pertence a espécie Physa acuta — como bioindicadores complementares da qualidade da água. “Esses organismos são sensíveis a contaminantes como agrotóxicos, metais pesados e poluentes orgânicos”, afirma o engenheiro ambiental Thandy Júnior da Silva Pinto, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), um dos autores da pesquisa.

De acordo com o engenheiro, “os métodos atuais se baseiam, em sua maioria, em testes de toxicidade aguda, que medem apenas os efeitos letais imediatos. Os efeitos subletais, como os observados na pesquisa, também têm grande relevância ecológica”, ressalta o pesquisador e primeiro autor do estudo.

Thandy Júnior explica que a exposição prolongada dos moluscos aos agrotóxicos pode não causar morte imediata, mas compromete a sobrevivência e a manutenção da espécie nos ambientes aquáticos. O trabalho integra o projeto temático da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) Destino e impactos de microplásticos e pesticidas em matrizes aquáticas e terrestres em contextos agrícolas, que também conta com a participação da professora Raquel Aparecida Moreira, da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, em Pirassununga. Os resultados foram publicados na revista Aquatic Toxicology.

Em laboratório, em concentrações semelhantes às encontradas em ecossistemas de água doce, os pesquisadores avaliaram os efeitos dos dois agrotóxicos em diferentes estágios do ciclo de vida dos caramujos: eclosão dos ovos, para medir a taxa de nascimento; crescimento dos filhotes, para verificar se a exposição reduziria as chances de atingirem a fase adulta, e reprodução de indivíduos adultos, para observar se a contaminação afetaria a quantidade e a viabilidade dos ovos. Em se confirmando, impactaria diretamente a capacidade da espécie de gerar novos moluscos suficientes para manter o tamanho da população ao longo do tempo.

Os experimentos acompanharam tanto a eclosão dos filhotes, quando eles tinham de 1 a 24 horas de vida, quanto a fase adulta reprodutiva, entre 30 e 32 dias de vida, em dois grupos: um controle, que não estava exposto aos agrotóxicos, e outro grupo experimental, dos que estavam expostos às substâncias.

Letalidade, crescimento e reprodução

A sobrevivência dos caramujos adultos aos dois agrotóxicos foi superior a 95%, o que significa que nenhuma das duas substâncias teve efeito letal para os animais. Quando foi avaliado o impacto das substâncias na biomassa (peso corporal) dos caramujos filhotes, o Tebuconazol provocou efeitos negativos intensos. Em concentrações mais altas, os filhotes reduziram o peso entre 26% e 90%, “o que significa que os caramujos cresceram menos ou chegaram até a perder massa corporal, o que indica um comprometimento na saúde e no desenvolvimento da espécie quando exposta a esse agrotóxico”, relata Raquel. Em relação ao Imidacloprido, não houve alteração no peso. Tanto o Imidacloprido quanto o Tebuconazol prejudicaram a reprodução dos caramujos. Com o Imidacloprido os animais botaram menos ninhadas e menos ovos por ninhada, mesmo em baixas concentrações. Esse efeito se repetiu nas três semanas de experimento com Imidacloprido e, no total, os caramujos expostos produziram de 25% a 50% menos ovos que os não expostos. O Tebuconazol teve impacto ainda mais severo: em todas as concentrações testadas a reprodução foi comprometida, com queda de 40% a 70% no número total de ovos. A análise da atividade locomotora dos caramujos — comportamento essencial para buscar alimento, fugir de predadores e encontrar parceiros reprodutivos — mostrou que o fungicida Tebuconazol reduziu significativamente a movimentação dos animais. Os indivíduos expostos se deslocaram até 80% menos e até 60% mais lentamente, mesmo em concentrações baixas. Já o inseticida Imidacloprido não apresentou impacto sobre o deslocamento dos caramujos.

Segundo Thandy Júnior, os resultados da pesquisa reforçam a urgência de revisar os critérios de aprovação e monitoramento de agrotóxicos no País, incorporando testes com espécies bioindicadoras como o caramujo Physa acuta. “Alterações em populações desses caramujos podem sinalizar desequilíbrios silenciosos nos ecossistemas aquáticos, com reflexos sobre a biodiversidade e a qualidade da água” – Thandy Júnior da Silva Pinto O artigo Responses of different life stages of Physa acuta (Draparnaud, 1805) to the pesticides imidacloprid and tebuconazole: effects on growth, reproduction, and behavior foi publicado na Aquatic Toxicology e pode ser lido neste link.

Pequeno molusco de água doce Originário da América do Norte, o Physa acuta se espalhou e se adaptou a rios, lagos e reservatórios em quase todos os continentes. Na cadeia alimentar aquática, serve de alimento para peixes e outros invertebrados, além de exercer um papel essencial na manutenção dos ecossistemas ao consumir detritos, algas e matéria orgânica em decomposição, ajudando a manter a água limpa e equilibrada. A professora Raquel Aparecida Moreira alerta que a redução das populações naturais desse caramujo pode provocar desequilíbrios na cadeia alimentar e, de forma indireta, impactar o cotidiano humano. “Esses efeitos não ocorrem de maneira imediata, mas resultam de alterações graduais que comprometem o equilíbrio dos ecossistemas e, consequentemente, também afetam as pessoas”, explica.

Agrotóxicos

O Imidacloprido é um inseticida amplamente usado para controlar pragas sugadoras em culturas como soja, algodão, cana-de-açúcar e hortaliças. Ele age de forma sistêmica: aplicado em folhas, sementes ou solo é absorvido pela planta e distribuído por seus tecidos, protegendo-a de insetos que se alimentam dela. Já o Tebuconazol é um fungicida usado para prevenir ou tratar doenças fúngicas em plantas, protegendo folhas, caules e frutos, especialmente em trigo, arroz, frutas e hortaliças.

Ambos os agrotóxicos podem chegar a ecossistemas aquáticos de diferentes formas: pelo escoamento da chuva ou irrigação, que leva resíduos do solo e das plantas para rios, lagos e córregos; pela lixiviação, quando os químicos penetram no solo e atingem o lençol freático; e por deriva no momento da pulverização, no caso específico do Tebuconazol, quando gotículas carregadas pelo vento alcançam ambientes aquáticos, principalmente aqueles próximos às áreas de aplicação. No Brasil, o uso de Imidacloprido e Tebuconazol é permitido, mas sujeito a restrições e revisões. O Imidacloprido já passou por reavaliação ambiental pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) devido aos efeitos sobre polinizadores, sendo proibido em aplicações específicas, como pulverização aérea, e limitado em certos cultivos e períodos de floração. O Tebuconazol também é autorizado, mas sua presença em água potável no Brasil foi regulamentada pelo Ministério da Saúde e em alguns casos os valores são menores que os adotados na União Europeia, relata Thandy Júnior.

Fonte: Jornal da USP


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