Resolver o saneamento básico no Brasil lembra muito a montagem de um cubo mágico: não basta alinhar apenas uma das faces para resolver o problema.
É preciso integrar com precisão diferentes dimensões — ambiental, econômica e social — aliando engenharia, gestão eficiente e capacitação técnica local. Apenas dessa forma é possível conectar os múltiplos interesses e promover as transformações técnicas e comportamentais necessárias para garantir serviços universais e sustentáveis para toda a população.
Os dados recentes divulgados pela Abdib expõem a urgência dessa integração: até 2033, apenas sete estados brasileiros deverão universalizar a coleta e o tratamento de esgoto. No abastecimento de água, a meta será atingida por 15 unidades federativas.
Embora a projeção indique que 80% da população brasileira terá acesso ao esgoto e 95% à água potável — já que os estados populosos impulsionam a média nacional —, a fotografia revela uma profunda e preocupante desigualdade regional.
A realidade enfrentada em cada canto do país mostra que soluções padronizadas (“fórmulas de prateleira”) não funcionam. O avanço esbarra diariamente nas barreiras dos microterritórios. Áreas informais e comunidades vulneráveis nas periferias urbanas exigem abordagens de urbanização adaptadas e estratégias financeiras heterogêneas.
LEIA TAMBÉM: Artigo | Tema 304 do STF: fim de isenção e recomeço tributário na reciclagem
Leilões e licitações em estados com menor viabilidade econômica vem enfrentando falta de propostas, evidenciando que os modelos rígidos de concessão não conseguem dialogar com as especificidades de cada localidade.
Além disso, a fragilidade de planejamento nos municípios, somada à escassez de equipes técnicas qualificadas e aos gargalos da cadeia de fornecedores, trava a execução das obras. Investimentos pontuais e focados na eficiência de serviços já existentes costumam gerar impactos massivos e imediatos na redução de internações por Doenças de Veiculação Hídrica (DVH).
No entanto, para erradicar essas enfermidades e aproximar os índices brasileiros aos dos países desenvolvidos, é indispensável cobrir 100% da população.
Para que o novo marco legal do saneamento cumpra o seu papel, o Brasil precisa olhar para o território com lente de aumento.
É urgente formular estratégias heterogêneas, diversificar as fontes de financiamento com subsídios onde forem necessários e fortalecer a governança local. Somente dando aderência real às demandas de cada comunidade será possível girar todas as peças desse cubo mágico e garantir dignidade e saúde para todos os brasileiros.
LEIA TAMBÉM: Decisões que Pesam no Bolso: Por que transformar as Agências Reguladoras no Novo Blockbuster do Debate Público?
Escrito por
Ingrid Graziele – Executiva e Especialista Sênior em Regulação e Governança de Saneamento, com atuação em formulação de políticas públicas, estruturação de modelos regulatórios, regionalização de serviços e estratégia institucional. Experiência em cargos de liderança no setor público, empresas de economia mista e cooperação internacional.
