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Água engarrafada concentra níveis alarmantes de nanoplásticos (1)

Água engarrafada concentra níveis alarmantes de nanoplásticos

Durante décadas, a água engarrafada foi associada à ideia de pureza e segurança. Para muitas pessoas, ela parece uma alternativa mais confiável à água de torneira, que frequentemente precisa ser filtrada ou fervida para se tornar potável. No entanto, pesquisas científicas recentes vêm colocando essa percepção em xeque.

Estudos conduzidos nos Estados Unidos indicam que a água engarrafada pode conter quantidades significativamente maiores de partículas plásticas — especialmente nanoplásticos — do que a água tratada distribuída pelas redes públicas.

Uma dessas pesquisas foi realizada por cientistas da Universidade Estadual de Ohio, que compararam a presença de partículas plásticas em amostras de água de quatro estações de tratamento e de seis marcas diferentes de água engarrafada. O resultado foi contundente: as águas engarrafadas apresentaram até três vezes mais nanoplásticos do que a água de torneira tratada. Segundo os pesquisadores, a maior parte desses resíduos tem origem na própria embalagem plástica.

“Podemos fazer escolhas conscientes para tentar reduzir nossa exposição diária a esses produtos químicos prejudiciais”, alerta Megan Jamison Hart, pesquisadora da área de Ciências Ambientais da universidade e principal autora do estudo.

“Para a pessoa comum que está com sede e quer uma bebida, a melhor maneira de fazer isso seria beber água diretamente da torneira, em vez de comprar água engarrafada.”

Até recentemente, a maioria dos estudos sobre contaminação plástica na água se concentrava nos microplásticos, partículas com menos de 5 milímetros. Os nanoplásticos, ainda menores — variando de 1 a 1.000 nanômetros —, permaneceram por muito tempo fora do radar científico, em grande parte devido às limitações tecnológicas para detectá-los. Hoje, porém, há um consenso crescente de que essas partículas ultrafinas representam um desafio ainda maior.

“Embora ainda não compreendamos completamente os riscos para a saúde humana associados à exposição a nanoplásticos, é melhor tentar mitigá-los, pois as evidências indicam que eles causam problemas, mesmo que ainda não tenhamos plena consciência de quais são esses problemas”, aconselha Megan. Um estudo publicado em 2025, por exemplo, apontou acúmulo de nanoplásticos no cérebro humano, reforçando as preocupações sobre sua capacidade de atravessar barreiras biológicas.

Segundo o professor John Lenhart, autor sênior do estudo da Universidade Estadual de Ohio, a inclusão dos nanoplásticos mudou completamente a dimensão do problema.

“As concentrações que observamos foram maiores do que o esperado, o que, ao contrário de estudos anteriores, conseguimos atribuir à inclusão dos nanoplásticos”, afirma.

“Ao compreendermos a composição básica dos materiais na água e as reações importantes para controlar essa composição, podemos tomar melhores decisões para o tratamento ou remediação futuros.”

Essas conclusões dialogam diretamente com um estudo ainda mais amplo e detalhado, conduzido por pesquisadores do Observatório da Terra Lamont-Doherty da Universidade Columbia, da própria Universidade Columbia e da Escola de Saúde Pública Mailman, e publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences. Utilizando uma técnica microscópica recentemente aprimorada, os cientistas conseguiram, pela primeira vez, contar e identificar nanoplásticos individuais presentes na água engarrafada.

O resultado surpreendeu: em média, um litro de água engarrafada continha cerca de 240.000 fragmentos de plástico detectáveis — de 10 a 100 vezes mais do que estimativas anteriores, baseadas principalmente em partículas maiores. Em análises de três marcas populares vendidas nos Estados Unidos, os pesquisadores encontraram de 110.000 a 370.000 partículas por litro, sendo cerca de 90% delas nanoplásticos.

“Antes, esta era apenas uma área obscura, inexplorada. Os estudos de toxicidade apenas tentavam adivinhar o que havia lá dentro”, disse o coautor do estudo, Beizhan Yan, químico ambiental do Observatório da Terra Lamont-Doherty da Universidade Columbia.

“Isso abre uma janela para que possamos observar um mundo ao qual não tínhamos acesso antes.”

Os nanoplásticos preocupam especialmente por seu comportamento no organismo. Diferentemente dos microplásticos, eles podem atravessar os intestinos e os pulmões diretamente para a corrente sanguínea e, a partir daí, alcançar órgãos como o coração e o cérebro. Também podem invadir células individuais e atravessar a placenta, atingindo o organismo de bebês em gestação. Por isso, cientistas da área médica vêm intensificando pesquisas sobre seus possíveis efeitos em uma ampla variedade de sistemas biológicos. A tecnologia utilizada no estudo foi a microscopia de espalhamento Raman estimulado, co-inventada pelo biofísico Wei Min, da Universidade Columbia. A técnica combina dois lasers ajustados para fazer moléculas específicas ressoarem, permitindo identificar tipos de plástico com alta precisão.

“Uma coisa é detectar, outra é saber o que você está detectando”, disse Min.

Fonte: Ciclo Vivo


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