Perdas antes de chegar à torneira da população no Brasil foram de quase 40% em 2024.
Você já imaginou uma indústria perder 40% do que produz? Ficar apenas com os 60% restantes? Se uma padaria jogasse fora quatro em cada dez pães que assa, antes mesmo de abrir, todo mundo acharia um absurdo. No saneamento brasileiro, é exatamente o que acontece com a água tratada. O país perdeu quase 40% da água produzida em 2024 antes de chegar à torneira da população.
Dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento (Sinisa) revelam que, entre 2020 e 2024, o índice de perdas na distribuição recuou de 40,14% para 39,53%, um discreto avanço em cinco anos. Ele mostra que vamos na direção certa, mas com velocidade incompatível com qualquer uma das metas estabelecidas.
Para ter uma referência, a média de perdas dos países desenvolvidos fica em torno de 15%, segundo dados do Banco Mundial. Esses dados têm duas décadas de defasagem, complicando ainda mais a comparação (muitos desses países não pararam de melhorar). A diferença real entre o Brasil e o mundo desenvolvido é, provavelmente, maior do que os números sugerem.
As consequências de operar serviços de saneamento básico com perdas nesse patamar aparecem em várias frentes ao mesmo tempo: pressão maior sobre mananciais, que muitas vezes já sofrem com estresse hídrico; mais energia gasta no bombeamento; mais produtos químicos no tratamento.
O custo operacional mais alto para o prestador recai, em última instância, sobre o custo pago pela população, inclusive pelos quase 33 milhões de brasileiros que ainda não têm acesso ao sistema e já convivem com piores condições de abastecimento. No Nordeste, a equação é ainda mais dura: a região combina altos níveis de perda com secas recorrentes e ondas de calor.
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Dos 99 maiores municípios brasileiros em população, de acordo com o IBGE, apenas 20 operam com perdas de água abaixo de 25%, patamar que a literatura especializada considera razoável e meta estabelecida pela Portaria 788 de agosto de 2024. Em contrapartida, 15 municípios têm perdas acima de 50%.
Chega de tanta água jogada fora
Essa dispersão reflete históricos de investimento muito diferentes e processos operacionais que nunca foram padronizados de forma consistente. Significa também que há ganhos reais e concretos a alcançar em boa parte do país e que as escolhas feitas nas próximas eleições determinarão se esses ganhos se concretizam ou ficam no papel.
Segundo estudo do Instituto Trata Brasil, num cenário realista de redução de perdas para 25% até 2033, o potencial de ganhos brutos chega a R$ 47,3 bilhões até o fim do período. Descontados os investimentos necessários para alcançar esse patamar, o benefício líquido é de R$ 23,6 bilhões em dez anos, um retorno concreto que reforça não apenas a viabilidade, mas a urgência de enfrentar o problema das perdas de água no país.
A regulação federal avançou com a Portaria 788/2024. A principal mudança em relação à norma anterior é que ela passou a estabelecer metas fixas para diferentes períodos. Municípios que queiram acessar recursos federais precisam apresentar perdas abaixo de 35% em 2025, abaixo de 30% entre 2026 e 2032 e abaixo de 25% a partir de 2033.
Este ano é de eleição estadual e federal. Governadores e assembleias legislativas têm papel direto na estrutura do saneamento. É nessa esfera que se regulam as companhias estaduais, se definem políticas de concessão e se decide quanto o tema entra, de fato, na agenda de infraestrutura dos estados. Um candidato que nunca tocou no assunto durante a campanha dificilmente priorizará o tema no mandato. Vale perguntar antes de votar. A resposta, ou a falta dela, já é uma informação valiosa para o eleitor.
Escrito por Luana Pretto, presidente executiva do Instituto Trata Brasil, foi engenheira na Companhia Catarinense de Águas e Saneamento e presidente da Companhia Águas de Joinville
Fonte: OGlobo
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