O problema que o concreto criou
Cada chuva forte que transforma ruas em rios não é apenas um fenômeno natural. É, antes de tudo, o resultado de décadas de escolhas urbanas que trataram a água como inimiga a ser expulsa o mais rapidamente possível.
O modelo tradicional de drenagem — tubulações, galerias, canais de concreto — foi concebido para uma lógica simples: afastar a água da cidade antes que ela cause dano. Mas essa lógica tem um custo crescente, e as cidades brasileiras pagam a conta a cada verão.
Conforme apontam vários artigos do Portal Saneamento Básico, a drenagem urbana abrange uma infraestrutura complexa. Ela engloba o transporte, a retenção e o tratamento das águas pluviais.
Além disso, a ausência ou a ineficiência desse sistema provoca enchentes, enxurradas, propagação de doenças e mortes.
O problema não é novo. No entanto, ele vem se agravando com a urbanização acelerada. Mais recentemente, as mudanças climáticas também passaram a intensificar os eventos extremos de precipitação.
O diagnóstico é severo: entre 1991 e 2023, o Brasil registou quase 26 mil eventos hidrológicos classificados como desastres. E 94,7% dos municípios brasileiros ainda não possuem sequer um Plano Diretor de Drenagem e Manejo de Águas Pluviais — instrumento essencial para dirigir ações e investimentos de forma preventiva, e não apenas reativa.
Quando a cidade aprende a absorver
A expressão “cidade esponja” (sponge city, em inglês) designa um modelo de planeamento urbano que inverte essa lógica. Em vez de expulsar a chuva, a cidade aprende a absorvê-la, retê-la, filtrá-la e liberá-la gradualmente no solo ou nos corpos de água.
A inspiração vem da natureza: uma floresta não alaga. O solo permeável, a vegetação e os ciclos naturais de infiltração garantem que a água cumpra o seu percurso sem provocar catástrofes.
No contexto técnico, esse paradigma aparece sob diferentes designações internacionais. Entre elas, destacam-se BMP (Best Management Practices), LID (Low Impact Development), SUDS (Sustainable Urban Drainage Systems), WSUD (Water Sensitive Urban Design) e GI (Green Infrastructure).
Todas essas abordagens compartilham o mesmo princípio. Ou seja, substituir ou complementar a infraestrutura cinzenta tradicional com soluções que trabalhem em conjunto com os processos naturais da água, e não contra eles.
Além disso, esses sistemas são descritos como alternativas econômicas e viáveis ao modelo convencional de macrodrenagem. Eles se baseiam em um tripé fundamental.
O primeiro pilar é a quantidade, com foco na redução do volume de escoamento. O segundo é a qualidade, voltado à filtragem dos poluentes arrastados pela chuva. Já o terceiro está relacionado à amenidade e à biodiversidade, valorizando o espaço urbano e os ecossistemas.
O arsenal da infraestrutura verde
A drenagem sustentável não é uma solução única, mas um conjunto de técnicas complementares que podem ser combinadas conforme as características de cada cidade ou bairro. Entre as principais, o Portal Saneamento Básico destaca:
Jardins de chuva — Estruturas de biorretenção plantadas em depressões do terreno que captam e infiltram a água da chuva no solo, com camadas drenantes e espécies vegetais adaptadas. Funcionam como esponjas localizadas que reduzem o volume que chega às galerias pluviais. O primeiro jardim de chuva em área pública de Campo Grande (MS), inaugurado em abril de 2026 junto à Central de Atendimento ao Cidadão, é um exemplo recente desta abordagem no Brasil.
Telhados verdes — Coberturas vegetadas que retêm parte da precipitação, reduzem o escoamento superficial e contribuem para o equilíbrio térmico dos edifícios. Estudos mostram que, ao comparar superfícies lisas e vegetadas em condições controladas, os telhados verdes reduzem significativamente o pico de vazão das águas pluviais e atrasam o seu escoamento.
Pavimentos permeáveis — Superfícies que permitem a infiltração da água no solo em vez de a encaminhar imediatamente para as redes de drenagem. São particularmente relevantes em estacionamentos, passeios e vias de baixo tráfego.
Microrreservatórios e bacias de detenção — Estruturas de acumulação temporária da água da chuva que amortecem os picos de vazão antes de a encaminhar para o sistema de drenagem. Os chamados “piscinões”, como o construído em Nova Andradina (MS) com uma área de 292 por 95 metros e 3,5 metros de profundidade, são versões de maior escala deste princípio.
Biovaletas e valas de infiltração — Canais lineares com vegetação e camadas filtrantes que recolhem a água superficial e a conduzem para o solo. Podem ser conectadas a jardins de chuva, potenciando os resultados de ambas as estruturas.
Poços de infiltração e faixas gramadas — Soluções pontuais que devolvem a água ao lençol freático, reduzindo o escoamento e contribuindo para a recarga dos aquíferos urbanos.
Por que as grandes obras não chegam para resolver
Uma das conclusões mais recorrentes no debate técnico sobre drenagem urbana — e que o Portal Saneamento Básico documenta de forma consistente — é que investir apenas em obras de grande escala não resolve o problema.
Em Belo Horizonte, pesquisas apresentadas por engenheiros da UFMG demonstraram que as inundações em certas bacias hidrográficas poderiam ser praticamente eliminadas se técnicas compensatórias fossem aplicadas em pelo menos 50% da área das bacias — sem depender de grandes infraestruturas.
O problema estrutural é mais profundo. Foz do Iguaçu, por exemplo, investe há anos dezenas de milhões de reais em obras de drenagem para reparar os danos de um planeamento urbano que, no passado, aprovou loteamentos sem qualquer amparo técnico, alterou o traçado natural de rios e empurrou populações para áreas de risco. A lição que emerge é sempre a mesma: o custo de remediar é sempre muito superior ao de prevenir.
A urbanização acelerada e desordenada é, na verdade, a causa-raiz do problema. A remoção da cobertura vegetal, a impermeabilização massiva do solo para acomodar edifícios, estacionamentos e vias, além da ocupação de várzeas e zonas ribeirinhas, quebraram os ciclos naturais da água.
Como consequência, a chuva que, em um ambiente natural, seria absorvida lentamente pelo solo, passa a escoar em grande volume e velocidade.
Além disso, esse volume é direcionado para um sistema de drenagem que nunca foi dimensionado para suportar eventos extremos.
O que falta: planeamento, não apenas tecnologia
A tecnologia das cidades esponja existe. As técnicas são conhecidas, testadas e relativamente acessíveis. O que escasseia, em muitos municípios brasileiros, não é o conhecimento técnico — é o planeamento integrado e a vontade política de o implementar de forma sistemática.
O Marco Legal do Saneamento Básico (Lei 11.445/2007 e suas atualizações) já estabelece que os serviços de drenagem e manejo de águas pluviais devem ser prestados com continuidade. Isso ocorre de forma semelhante aos serviços de abastecimento de água e saneamento.
Além disso, a Nova Resolução (NR 12) reorienta a lógica das intervenções de drenagem. A proposta passa a priorizar uma prestação contínua de serviços, e não apenas a justificativa pontual de obras.
No entanto, a implementação prática dessa mudança de paradigma ainda está em curso.
Enquanto isso, o país continua a acumular passivos. Sem Planos Diretores de Drenagem, sem integração entre políticas de uso do solo e de gestão das águas pluviais, e sem o reconhecimento de que a infraestrutura verde é tão essencial quanto o asfalto ou a galeria de betão, cada chuva intensa será uma tragédia anunciada.
Sinais de mudança: do piscinão ao jardim de chuva
A boa notícia é que o paradigma está mudando. Ainda que de forma desigual e lenta, iniciativas como o jardim de chuva do CAC, em Campo Grande, mostram que é possível unir conhecimento acadêmico, gestão pública e participação cidadã.
O projeto é resultado de uma parceria entre a Universidade Anhanguera-Uniderp e a Secretaria Municipal de Meio Ambiente. Além disso, demonstra uma nova forma de construir a relação entre a cidade e a água.
São intervenções modestas em escala. No entanto, carregam um forte simbolismo no que representam: a transição de uma lógica de combate à chuva para uma lógica de convivência com ela.
Além disso, a ideia de que a água da chuva é um recurso a ser aproveitado — e não apenas um problema a ser escoado — começa, finalmente, a ganhar espaço no urbanismo brasileiro.
Por fim, a cidade esponja não é uma utopia. É uma necessidade. E os seus componentes — jardins, telhados verdes, pavimentos permeáveis, valas vegetadas — já estão disponíveis. O que falta é integrá-los num planeamento urbano que trate a água como aliada, e não como adversária.
Fonte: Portal Saneamento Básico