O saneamento entrou definitivamente na agenda climática.
Durante décadas, as concessionárias de abastecimento de água e esgotamento sanitário. Além disso, concentraram seus esforços na expansão da cobertura, na melhoria operacional e no atendimento às exigências regulatórias tradicionais.
Entretanto, a crescente preocupação mundial com as mudanças climáticas e a consolidação do mercado regulado de carbono no Brasil inauguram uma nova realidade para o setor.
As concessionárias de saneamento ocupam uma posição singular nesse contexto. Diferentemente de outros segmentos econômicos, sua matéria-prima fundamental — a água — depende diretamente das condições climáticas.
Secas prolongadas, alterações no regime de chuvas, eventos extremos, enchentes e escassez hídrica afetam diretamente a disponibilidade dos recursos hídricos, os custos operacionais e a segurança do abastecimento.
Nesse cenário, as empresas de saneamento deixam de ser apenas vítimas das mudanças climáticas para assumir um papel estratégico na mitigação das emissões de gases de efeito estufa (GEE), transformando desafios ambientais em oportunidades de geração de valor econômico.
O Brasil avançou significativamente na estruturação de políticas voltadas à redução das emissões de gases de efeito estufa, alinhando-se aos compromissos assumidos no âmbito do Acordo de Paris.
A regulamentação do mercado de carbono estabelece mecanismos que incentivam a redução de emissões e criam oportunidades para que organizações que reduzam ou removam carbono da atmosfera possam comercializar créditos de carbono.
Essa mudança representa uma oportunidade inédita para as concessionárias de saneamento, que possuem diversas atividades com elevado potencial de mitigação de emissões.
Mais do que uma obrigação ambiental, a gestão de carbono passa a integrar a estratégia de negócios das concessionárias.
Poucos setores possuem capacidade tão ampla de contribuir para a redução de emissões quanto o saneamento.
A universalização dos serviços de água e esgoto gera benefícios climáticos diretos e indiretos:
- Redução das perdas de água;
- Menor consumo de energia elétrica;
- Otimização do bombeamento;
- Uso de energias renováveis;
- Eficiência operacional dos sistemas;
- Redução da carga orgânica lançada nos corpos d’água
- Captura e aproveitamento energético do biogás, etc.
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Cada uma dessas ações reduz emissões e aumenta a resiliência climática dos sistemas.
As emissões das concessionárias estão associadas principalmente a: veículos e equipamentos, frotas operacionais, máquinas de manutenção, equipamentos movidos a combustíveis fósseis e gestão de resíduos, especialmente, lodos de ETA e ETE.
Tradicionalmente, as concessionárias possuem duas fontes principais de receita: receita tarifária e receitas acessórias. Além disso, a comercialização de créditos de carbono surge como uma nova fonte de receita acessória com enorme potencial de crescimento.
Projetos elegíveis podem incluir: Captura de biogás em ETEs, Geração de energia renovável, redução de perdas de água, reúso de água, projetos de: reflorestamento, proteção de mananciais e recuperação de áreas degradadas, podem gerar remoções de carbono passíveis de certificação.
Em alguns casos, a combinação dessas receitas pode melhorar significativamente a viabilidade financeira dos empreendimentos.
Um dos maiores erros observados atualmente é que a variável climática raramente é incorporada de forma estruturada nas modelagens técnicas e econômico-financeiras das concessões.
Os estudos costumam avaliar demanda, investimentos, custos operacionais e receitas tarifárias e de serviços, mas ainda dedicam pouca atenção aos riscos climáticos e às oportunidades associadas à descarbonização.
As futuras modelagens deverão considerar: inventários de emissões, metas de redução de carbono, potencial de geração de créditos, aproveitamento energético dos resíduos, estratégias de neutralização de emissões, indicadores ESG e resiliência climática dos sistemas.
A geração de créditos de carbono poderá se tornar um componente relevante das receitas acessórias dos contratos de concessão.
Os ganhos associados à agenda climática vão muito além dos créditos de carbono.
As concessionárias que investirem em descarbonização poderão obter benefícios financeiros, regulatórios, institucionais e ambientais.
A nova realidade regulatória brasileira não deve ser vista apenas como uma obrigação ambiental, mas como uma oportunidade estratégica de geração de valor. Ao incorporar práticas de descarbonização, capturar biogás, utilizar energias renováveis, reduzir perdas e estruturar projetos de créditos de carbono. As concessionárias podem simultaneamente fortalecer sua sustentabilidade financeira, aumentar sua resiliência operacional e contribuir para os compromissos climáticos do país.
Por fim, o saneamento do futuro não será avaliado apenas pelos quilômetros de rede implantados ou pelo número de ligações atendidas. Será também medido pela sua capacidade de proteger os recursos hídricos, reduzir emissões e transformar a sustentabilidade ambiental em um novo vetor de desenvolvimento econômico e social.
Fonte: MB School