A cada três litros de água tratada que saem de uma estação de saneamento no Brasil, um desaparece antes de chegar à torneira de alguém. Além disso, o indice médio de perdas em 2024 (39,5% segundo estudo do Instituto Trata Brasil e da consultoria Ex Ante). É o dobro do considerado aceitável e bem acima da média de 15% dos países desenvolvidos e poderia ser suficiente para resolver boa parte do déficit que ainda deixa 33 milhões de brasileiros sem acesso à água potável.
A boa notícia é que, com tecnologias, as empresas começam a atacar esse problema com a escala necessária e suprir demanda futura.
Pelo Novo Marco Legal do Saneamento e portarias governamentais. Além de chegar a 99% de acesso à água potável e 90% de coleta e tratamento de esgoto, o Brasil tem também a meta de reduzir as perdas de água na distribuição para, no máximo, 25% até 2033.
Guilherme Amorim Campos da Silva, sócio-titular do escritório Rubens Naves, Santos Jr. Amorim Advogados. Afirma que, diferentemente de legislações anteriores, a lei de 2020 fixou a universalização como obrigação jurídica, e não apenas como princípio programático. Dessa forma, transferiu o risco de descumprimento da meta para o próprio vínculo concessório.
“Esse desenho criou um mecanismo de pressão direto sobre as prestadoras, públicas e privadas: todos os contratos de concessão, tanto os vigentes como os novos provenientes de licitação, estão condicionados à comprovação da capacidade econômico-financeira para alcançar a meta até 2033”, comenta. Outra inovação foi condicionar a liberação de recursos públicos e financiamentos da União ao cumprimento de índices de perda de água na distribuição pelas prestadoras.
Trazer o percentual de fugas d’água de 40% para a faixa de 25% de toda a água potável produzida é um desafio e tanto. Por isso, toda e qualquer tecnologia que aumente a efetividade e diminua o tempo de encontrar a perda é bem-vinda, segundo os executivos das concessionárias.
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Empresas de saneamento públicas e privadas têm se valido de novas tecnologias para apoiar o cumprimento do Marco Legal do Saneamento. Especialmente mirando ganhos de eficiência operacional e combate às perdas.
Dentre as tecnologias já popularizadas, estão sistemas de telemetria, sensoriamento remoto e setorização de redes, que permitem identificar vazamentos de água com granularidade impensável há uma década. Contudo, com o avanço da inteligência artificial e o maior acesso a dados, outras tecnologias de fronteira já vêm sendo utilizadas.
O símbolo mais visível dessa virada tecnológica é o satélite. Desde 2022, a Águas do Rio, concessionária do grupo Aegea que atende 27 municípios fluminenses, por exemplo, incorporou ao seu Programa de Redução de Perdas uma tecnologia desenvolvida originalmente para localizar sinais de água no subsolo de Marte.
Adaptada para uso terrestre por uma empresa israelense, ela escaneia o subsolo urbano em busca da assinatura espectral do cloro, substância presente na água tratada. Mas não na água de chuva, de esgoto ou de lençol freático. Em uma única passagem orbital, o “raio-X” espacial permite mapear áreas de até 350 km2, o equivalente a cerca de 49 mil campos de futebol, identificando problemas em tubulações a até três metros de profundidade. Com os pontos críticos já mapeados, as equipes não precisam mais realizar buscas aleatórias nas ruas.
“Quando a gente foi para a rua com esses dados de vazamento, a precisão passou a ser de cerca de 50 metros”, afirma o Anselmo Leal, CEO da Águas do Rio. Antes da tecnologia, o trabalho de campo dependia apenas do geofone e da interpretação humana, gerando custos elevados com falsos positivos. Só na área de operação da Águas do Rio são mais de 17 mil quilômetros de redes de água. Em 2024, o satélite detectou 2.726 possíveis vazamentos, sendo que 2.144 foram confirmados em campo, uma taxa de assertividade de cerca de 80%.
Ademais, com o apoio dessa tecnologia e de outras ações do programa, cerca de 18 bilhões de litros de água tratada deixaram de ser desperdiçados em 2024, volume suficiente para abastecer mais de 300 mil de pessoas por ano. Em 2025, a identificação de 1.160 vazamentos permitiu recuperar 21,8 bilhões de litros. “Isso mostra que tecnologia, quando bem aplicada, pode ser uma grande aliada da sustentabilidade e da justiça social”, reforça Leal.
“No Brasil, falamos muito de resiliência hídrica nos últimos anos; no mundo, já lidamos com escassez hídrica há 30 anos” — Gustavo Lara
A Sabesp, maior companhia de saneamento do país, com 28 milhões de habitantes atendidos em 375 municípios paulistas. Adotou tecnologia semelhante de detecção de cloro, também em parceria com a empresa israelense Asterra. E estima recuperar 6,7 bilhões de litros de água nos primeiros 12 meses de operação, volume suficiente para abastecer uma cidade de 95 mil habitantes.
Segundo a companhia, um teste feito no centro da capital paulista em 2025 identificou cinco vezes mais vazamentos do que os métodos tradicionais de busca.
Para infraestruturas já consolidadas, a companhia mobiliza uma força-tarefa robótica. Robôs sobre rodas e modelos quadrúpedes, que se assemelham a cães, equipados com câmeras térmicas, monitoram subestações e painéis elétricos para antecipar falhas. Já em tubulações de grande porte, o uso de sonar e câmeras de mastro com 40 metros de alcance permitem inspecionar coletores sem que os equipamentos atolem.
Essa tecnologia também chegou à frota. A companhia equipou 37 veículos de sua frota com câmeras e sensores que identificam vazamentos, infiltrações e buracos no asfalto durante o trajeto normal de trabalho.
A Sabesp afirma que o atual índice de perdas por vazamentos é de 19%. Desde a desestatização, em 2024, a empresa diz ter investido R$ 1 bilhão na renovação de tubulações e modernização de equipamentos. Com ações como troca de tubulações, inovação tecnológica, combate a fraudes, ligações clandestinas e regularização de áreas informais.
Para Gustavo Lara, gerente-executivo de Desenvolvimento de Negócios de Águas e Saneamento da Veolia no Brasil. Multinacional francesa que fornece tecnologia e know-how ao setor público e privado no país, a urgência em torno da eficiência hídrica não é uma particularidade brasileira e, portanto, tecnologias já testadas no mundo podem ser aplicadas também aqui.
“No Brasil, falamos muito de resiliência hídrica nos últimos anos. No mundo, já lidamos com escassez hídrica há cerca de 30 anos”, afirma o executivo, citando os casos de Barcelona, Paris, e de Santiago. No caso chileno, os dois rios que cortam a capital (Maipo e Mapocho) reduziram sua vazão em cerca de 20% e o país depende de água das geleiras e da dessalinização do mar.
O executivo descreve a busca por novas tecnologias de eficiência operacional, combate a fugas e reúso de água como uma prioridade para a Veolia no Brasil, especialmente em parcerias com operadores locais.
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Luta contra desperdício de água inclui ‘robô de Marte’ e cães farejadores
A Veolia testa, por exemplo, ainda em estágio inicial, uma tecnologia batizada He-Tracer, que usa gás hélio como rastreador. O equipamento já opera nas operações da Veolia em Águas Andinas, no Chile, e em Paris, e o exemplar recém-chegado ao Brasil é, segundo o executivo, o primeiro do tipo no país.
A empresa injeta na rede um volume calculado de hélio, gás inerte e não nocivo à saúde humana, naturalmente presente na atmosfera. Cerca de 24 horas depois, o gás se expande pela tubulação e escapa pelo solo nos pontos onde há vazamento. Um laboratório móvel percorre a rua abrindo pequenos furos de até 15 centímetros no solo para medir a concentração de hélio em cada ponto e identificar fugas.
“Essa tecnologia traz um nível de efetividade muito alto, de cerca de 98% no encontro de vazamentos”, afirma Lara.
Outra ferramenta, batizada internamente de geofísica, usa uma combinação de tecnologias de leitura do solo e de detecção de anomalias. Entre elas georradar (GPR), perfilômetro eletromagnético, magnetômetro, drones com câmeras termossensíveis e detecção de metano por TDLAS (laser).
A proposta é sinalizar regiões com possível vazamento em uma área de quilômetros para, então, confirmar e localizar o ponto exato dentro dessas manchas com o He-Trace. Reduzindo a necessidade de escavações em áreas urbanas, especialmente de alta concentração de pessoas.
Ao lado das tecnologias, até os cães – de carne e osso – entram para ajudar. A Veolia emprega cães farejadores treinados com a mesma lógica usada na detecção de drogas em aeroportos. Mas adaptados para identificar a presença de cloro e flúor no solo, substâncias da água tratada. A empresa diz alcançar até 99% de efetividade no encontro de vazamentos com esse método. Hoje usado em operações no Chile, em Paris e em Barcelona.
Por fim, Leal, da Águas do Rio, lembra, contudo, que nem toda perda de água é vazamento físico e isso também precisa ser levado em consideração. Quando assumiu a concessão no Rio, em novembro de 2021. Cerca de 70% da água comprada da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae) não chegava a ser faturada. Desse total, 40% se perdiam em vazamentos na rede, e os outros 60% correspondiam a ligações clandestinas.
“Como o serviço não tinha sido prestado de maneira adequada, as pessoas que viviam sem água encontraram uma forma de obtê-la. Na maioria dos casos, não é porque elas não queriam o ponto formal, é porque o ponto formal não estava disponível”, afirma o executivo. No mapeamento, inclusive, a companhia distingue esse tipo de ligação irregular do furto de água com fins comerciais, tratado como caso de polícia.
Fonte: Valor