Por que a segurança hídrica depende mais de decisões estruturais do que da chuva
Uma declaração recente do diretor regional da Sabesp, Marco Barros, reacendeu um debate essencial sobre segurança hídrica: “Nós não fabricamos a água, a gente trata a água”. A afirmação é tecnicamente correta, mas incompleta. No campo da gestão pública e ambiental, ela revela uma visão restrita sobre o papel de uma concessionária responsável pelo abastecimento de milhões de pessoas.
De fato, não se “fabricam” moléculas de H₂O em escala industrial. Ainda assim, empresas de saneamento modernas têm a obrigação de produzir disponibilidade hídrica, o que vai muito além do tratamento químico da água captada. Essa produção ocorre por meio de políticas contínuas de preservação ambiental, recuperação de nascentes e proteção de áreas de recarga dos aquíferos.
Florestas e matas ciliares desempenham papel central nesse processo. Elas aumentam a infiltração da água no solo, alimentam os lençóis freáticos e ajudam a regular a vazão dos rios, especialmente em períodos de estiagem. Sem essa cobertura vegetal, a chuva escorre rapidamente pela superfície, carrega sedimentos, acelera o assoreamento dos reservatórios e eleva os custos de tratamento.
Depender exclusivamente das chuvas, sem investir na capacidade do território de reter e armazenar água, é uma estratégia frágil — e conhecida.
Eficiência que escorre pelo ralo
O debate se torna ainda mais sensível quando se analisam os dados da operação. A eficiência da rede é hoje uma das formas mais rápidas e econômicas de ampliar a oferta de água. No entanto, indicadores recentes apontam para um cenário preocupante.
No primeiro ano após a desestatização, a retirada de água dos reservatórios aumentou cerca de 10%, passando de 66 m³/s para 72 m³/s — um crescimento que não encontra explicação direta nem no aumento populacional nem na expansão da rede.
Ao mesmo tempo, aproximadamente 29,4% de toda a água tratada continua sendo perdida em vazamentos antes de chegar ao consumidor. Esse desempenho contrasta com os resultados financeiros: apenas no segundo trimestre de 2025, a companhia registrou lucro líquido de R$1,96 bilhão.
Especialistas do setor apontam que a elevação das perdas está associada à redução de equipes técnicas próprias, à terceirização de serviços essenciais e ao enfraquecimento da manutenção preventiva — decisões que tendem a maximizar resultados de curto prazo, mas comprometem a sustentabilidade do sistema.
Responsabilidade pública, não apenas financeira
Uma concessionária de saneamento não pode atuar apenas como intermediária comercial de um recurso finito. Seu papel é estrutural: proteger o ciclo hidrológico e garantir abastecimento contínuo e seguro. Isso envolve, no mínimo, três compromissos fundamentais.
O primeiro é o investimento em infraestrutura verde. Recuperar nascentes e matas ciliares não é um custo ambiental acessório, mas uma estratégia direta de produção de água.
O segundo é a proteção sanitária dos mananciais, evitando a contaminação que transforma o tratamento em um esforço químico extremo.
O terceiro é o zelo operacional: pedir economia à população enquanto bilhões de litros se perdem por falhas de manutenção é uma contradição difícil de justificar.
A água que chega às torneiras não depende apenas da chuva. Ela resulta de solo bem cuidado, florestas preservadas e redes eficientes. Enquanto a gestão se limitar a administrar volumes e balanços financeiros, crises hídricas continuarão sendo tratadas como fatalidades — quando, na verdade, muitas delas poderiam ser evitadas.
A Sabesp pode não fabricar água, mas é responsável por garantir que ela não desapareça no caminho.
Escrito por Hugo de Oliveira
Fonte: Jornal GGN