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PPP federal do Pisf prevê R$ 13,6 bilhões em 30 anos

PPP federal do Pisf prevê R$ 13,6 bilhões em 30 anos

 Estruturado para ser a primeira PPP (Parceria Público-Privada) de infraestrutura federal do país, o projeto para operação privada da Integração do Rio São Francisco, o Pisf, prevê que o futuro parceiro receba R$ 13,6 bilhões ao longo de uma concessão de 30 anos. O governo pagará as contraprestações mensalmente, totalizando cerca de R$ 400 milhões por ano do orçamento federal..

O plano do governo Lula é fazer o leilão ainda neste ano – o último do mandato –, mas ainda falta a liberação do TCU (Tribunal de Contas da União). A AudUrbana (Unidade de Auditoria Especializada em Infraestrutura Urbana e Hídrica) da corte concluiu seu parecer em setembro do ano passado, sugerindo uma determinação e algumas recomendações. Desde então, o processo ficou sem movimentação. No último dia 9, o relator, ministro Jhonatan de Jesus, restituiu o processo à área técnica pedindo informações complementares sobre a modelagem.

O projeto exigiu a construção de uma estrutura inédita de PPP. O modelo nunca foi usado em âmbito nacional porque a União tem dificuldade de garantir o repasse de contraprestações ao privado. Diferentemente dos estados, que possuem fundos abastecidos com repasses federais e garantias do Tesouro, a União corre risco de contingenciamento.

O orçamento federal pode ser bloqueado ou contingenciado, impedindo o pagamento da contraprestação. Esse risco fez o mercado rejeitar tentativas de PPPs federais nos últimos 20 anos.

Para o Pisf, o Executivo planeja estrear um dispositivo previsto na LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) desde a edição de 2024 que dá tratamento prioritário a esse gasto em relação às demais despesas livres do orçamento – além da preferência primária desse pagamento pelo fato de o projeto integrar o Novo PAC.

Embora isso não blinde a despesa da PPP de ser contingenciada numa situação fiscal mais extrema, a avaliação feita pelo governo é de que a priorização é segura para o parceiro privado porque amarra o orçamento federal a esse repasse. O projeto também prevê uma estrutura de garantias. Uma delas é uma ‘conta reserva’, de natureza privada, que deverá manter saldo mínimo equivalente a seis contraprestações mensais devidas ao futuro operador.

Prioridade

O MIDR (Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional) liderou a montagem do projeto. O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e a Secretaria Especial do PPI (Programa de Parcerias de Investimentos) da Casa Civil deram apoio à iniciativa.

Diferente de outros empreendimentos de infraestrutura, o Pisf já tem obras avançadas. A construção do sistema começou em 2007. Desde então, o projeto passou por diversas fases e governos. Nesse período, surgiram problemas de gestão e governança, aumentando a complexidade da intervenção.

O governo Bolsonaro começou a discutir com mais força os estudos para uma concessão. No entanto, o plano não avançou naquela época.

A principal função da empresa que entrar no empreendimento será a de operar e manter os serviços de adução de água bruta aos estados do Ceará, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte – com investimentos iniciais projetados em menos de R$ 600 milhões. Já o Opex gira em torno de R$ 6,7 bilhões ao longo do contrato.

Para o secretário nacional de Fundos e Instrumentos Financeiros do MIDR, Eduardo Corrêa Tavares, essa característica menos intensiva nas obras faz com que a estreia do modelo de PPP federal ocorra de forma mais “leve”.

“E ainda editamos uma portaria no ministério que, dentro da nossa execução orçamentária, esse cumprimento dos contratos de PPPs é priorizado, com destaque para o Pisf de forma expressa”, disse Tavares à Agência iNFRA. Segundo ele, o desenho garantidor foi conversado com o mercado.

O secretário também acredita que os órgãos de controle terão um papel importante para garantir a sustentabilidade do empreendimento. Embora ninguém possa garantir que a regra de priorização dos pagamentos permanecerá nas LDOs futuras — já que a lei precisa ser aprovada anualmente —, Tavares avalia que a essencialidade social e econômica do empreendimento assegurará sua governança e continuidade. Ele reforça que a União já está contratualmente obrigada a fornecer água para os quatro estados atendidos.

“Descumprir isso seria um ato que pode até gerar uma série de responsabilizações para o administrador federal que não garantir essa execução”, argumentou. Embora a futura concessão seja independente dos contratos de adução firmados entre a União e os estados, o Executivo federal pode buscar o ressarcimento caso não receba integralmente a tarifa cobrada pelo serviço. A tarifa é regulada pela ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico). O governo poderá recuperar os valores por meio da cota-parte do ente no FPE (Fundo de Participação dos Estados e do Distrito Federal).

O governo pagará a contraprestação mensalmente, composta por três elementos principais. Primeiro, a remuneração dos investimentos obrigatórios. Segundo, os custos fixos de operação e manutenção do sistema, que são constantes e sujeitos à aplicação do IDG (Índice de Desempenho Global). Terceiro, os ressarcimentos que cobrem os custos variáveis com energia elétrica e encargos do bombeamento de água.

O certame definirá o vencedor pelo critério do maior desconto na contraprestação que o governo precisa pagar.

Perfil da operação

O Pisf é um sistema de engenharia que capta água no Rio São Francisco e a transporta por canais, estações de bombeamento, aquedutos, túneis e reservatórios para as bacias hidrográficas do Nordeste Setentrional. O objetivo é garantir a disponibilidade hídrica para doze milhões de pessoas.

Atualmente ele é operado pelo MIDR e pela Codevasf. Dois eixos principais compõem o projeto (Norte e Leste), além de cinco ramais associados. Hoje, o eixo Norte opera com 25% de capacidade e o Leste, com 50%. Mas já há uma licitação pública em andamento para o futuro operador receber o eixo Norte com metade da capacidade. A União vai continuar executando os investimentos de expansão, mas há possibilidade de o futuro concessionário ampliar a capacidade do sistema via reequilíbrio contratual.

Embora a PPP tenha sido estudada por operadoras de saneamento, a avaliação feita no mercado é que o projeto deve despertar maior interesse das grandes construtoras. Enquanto empresas de água e esgoto têm operações mais focadas na prestação de serviços ao cidadão – apesar de também executarem obras –, no caso do Pisf essa interface tarifária com o cliente final não existe.

Além disso, os agentes privados ainda estão avaliando questões de governança do projeto, como o próprio instrumento garantidor da PPP, o mecanismo de fiscalização e o sistema de arbitragem de conflitos.

Receitas acessórias

O projeto ainda permite que a concessionária explore receitas por atividades acessórias. Desde que o governo começou a estudar a PPP do Pisf, empresas demonstram interesse econômico em explorar energia solar por meio de placas flutuantes.

Mas há também mais alternativas, como o fornecimento de água bruta a usuários independentes, especialmente para o setor industrial. Em todas as opções, a receita operacional gerada deverá ser compartilhada com a União em porcentagem que parte de 1,5%.

Conta garantia

O Pisf poderá usar o compartilhamento das receitas acessórias para abastecer uma conta reserva da PPP. Essa conta terá natureza privada. Ela armazenará recursos equivalentes a, no mínimo, seis prestações mensais como garantia, caso a União não pague a contraprestação.

A conta também receberá aportes do orçamento federal. Além disso, a conta poderá receber recursos da liquidação do excedente de energia elétrica do contrato de compra e venda firmado entre a Chesf e a Codevasf. Nesse caso, o governo usará apenas os valores que excederem o saldo operacional mínimo estabelecido pela CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica).

O contrato garante o fornecimento de 85 MW médios anuais a preços subsidiados até 2042.

Essa conta terá movimentação controlada e administrada pela instituição financeira que for contratada pelas partes. Na análise feita pela AudUrbana, os auditores chegaram a mencionar que o modelo de uso de contas vinculadas em concessões está atualmente sob escrutínio do TCU, que tem adotado uma “postura cautelosa” sobre o instrumento. O ministro Benjamin Zymler tratará o assunto em um processo específico. Apesar disso, a corte continua a aprovar projetos de desestatização que usam o mecanismo. Por esse motivo, os técnicos não analisaram a regularidade do caso do Pisf.

Parecer técnico

O parecer da AudUrbana do TCU sobre a PPP para operação do Pisf foi bem recebido dentro do governo. A única determinação sugerida no parecer é para que o MIDR, antes de publicar o edital do leilão, faça ajustes para incorporar mecanismo ao contrato que condicione a remuneração da concessionária à efetiva incorporação e disponibilidade operacional das infraestruturas sob responsabilidade do governo.

Isso porque o cálculo da contraprestação contemplou, desde o início, os serviços de operação e manutenção do Ramal do Apodi, ainda pendente de conclusão, e com riscos de atrasos até o recebimento pela concessionária, na avaliação da equipe técnica da corte. A palavra final cabe ao plenário do TCU, que pode ou não seguir a instrução dos auditores, podendo, inclusive, acrescentar novas determinações a depender da análise dos ministros.

As demais sugestões da AudUrbana são recomendações. Por exemplo, que a SNSH (Secretaria Nacional de Segurança Hídrica) do MIDR seja fortalecida com estrutura e capacitação para gerenciar o futuro contrato de concessão. No geral, os auditores não detectaram irregularidades ou impropriedades que desaconselhem o aval ao leilão, sem prejuízo das recomendações e determinações.

Foi o próprio TCU que recomendou, em 2024, que o governo fizesse esforços para acelerar a conclusão dos estudos para demonstrar a viabilidade ou não da desestatização do Pisf. O direcionamento da corte se deu num processo que identificou uma série de falhas na gestão da infraestrutura.

Para o Executivo, embora haja uma economia de recursos públicos repassando a operação à iniciativa privada, esse aspecto não é mais relevante que a eficiência buscada com a nova administração. No modelo atual, há múltiplos contratos para serem gerenciados e uma grande burocracia nas contratações. Além disso, a falta de planejamento de longo prazo para as manutenções faz com que contratos emergenciais sejam feitos às pressas, elevando os custos da operação e gerando insegurança para o sistema. Estudo mostrou que a vantagem da PPP em relação ao formato em vigor é a possível economia de R$ 161,2 milhões.

No último dia 11, de olho no projeto, o governo publicou uma resolução para normatizar a atuação do Executivo na estruturação de PPPs federais. O texto organiza as diretrizes para essas modelagens e coloca o CPPI (Conselho do Programa de Parcerias de Investimentos) como órgão gestor do assunto.

Prazos

Para conseguir viabilizar o leilão do Pisf neste ano, a gestão Lula está na expectativa de quando o caso irá ao plenário do TCU. Como o projeto é uma PPP, o tribunal considera o processo de alto risco e relevância. O relator deveria submeter o caso ao colegiado em até 60 dias após receber a instrução da área técnica.

A relatoria está com Jhonatan de Jesus. O parecer da AudUrbana chegou ao gabinete do ministro no final de setembro do ano passado. No início de fevereiro, o ministro deu o despacho. Ele pediu que a área técnica realizasse diligências junto ao governo. O objetivo era obter informações, como a cópia integral de pareceres, notas e estudos que embasaram a escolha por uma PPP administrativa para o Pisf.

O ministro também solicitou a demonstração de razoabilidade econômica nos porcentuais de compartilhamento de receitas acessórias com a União. Além disso, pediu outros esclarecimentos relacionados ao projeto.

Fonte: Agência INFRA


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