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Sustentabilidade na Indústria

Quais setores industriais enfrentam maiores desafios para se tornarem mais sustentáveis?

Sustentabilidade na Indústria

Por: Jhully Costa

Diante dos impactos das mudanças climáticas, a população, o poder público e as indústrias enfrentam desafios para diminuírem os índices de poluição e se tornarem mais sustentáveis.

Enquanto consumidores são orientados a reciclar e reutilizar e governos a direcionar ações e obter recursos, os setores industriais alteram processos e investem em tecnologia para mitigar impactos ambientais.

Realizada anualmente com o objetivo de debater essas diferentes questões e avançar no combate à crise climática, a Conferência das Partes deste ano (COP28) destacou, em seu documento final, a necessidade de uma transição energética dos combustíveis fósseis para fontes de energia limpas. Segundo o colunista de GZH Rodrigo Lopes, que acompanhou o evento em Dubai, o texto pode ser considerado uma grande evolução, que é classificada por muitos como “o início do fim da era do petróleo”.

Conforme os professores ouvidos por GZH, isso se deve principalmente aos processos industriais adotados e aos efluentes gerados na produção. Representantes dos setores contestam essa relação e destacam medidas adotadas para reduzir o impacto ambiental.

— As atividades industriais produzem despejos que apresentam composições muito variáveis, dependendo dos produtos sendo fabricados. Por exemplo, indústrias de alimentos e bebidas produzem efluentes com altos teores de matéria orgânica. Mas também existem muitas subdivisões entre um mesmo ramo industrial, que influenciam na composição dos efluentes — afirma Antônio D. Benetti, professor de tratamento de água e efluentes do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Sustentabilidade na Indústria

Conforme o especialista, há três principais áreas de ação para que as indústrias se tornem mais sustentáveis. A primeira se refere à redução do volume de efluentes produzidos, o que pode ser feito por meio do reciclo e reuso da água e da introdução de métodos mais modernos de produção. A segunda trata de prevenir e reduzir a contaminação dos despejos. Já a terceira está relacionada ao manejo e ao reuso dos efluentes. Benetti comenta que muitas indústrias já procuram minimizar a presença e o volume de contaminantes:

— Existem iniciativas inclusive de zerar a emissão de poluentes e líquidos pelas indústrias, como sugerido pelo Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável. No Brasil, existe o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), com os mesmos objetivos. Entretanto, essa é uma realidade ainda muito distante, mas que vale a pena perseguir.

Indústria têxtil

Cláudio Frankenberg, professor do curso de Engenharia Química da Escola Politécnica da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), aponta que a indústria têxtil tem processos de fabricação muito antigos e utiliza uma tecnologia mais tradicional, com etapas artesanais. O grande problema está relacionado ao uso de corantes nos tecidos.

O diretor superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), Fernando Pimentel, enfatiza que a indústria vem aprimorando o uso da água e o despejo de efluentes líquidos. Além disso, lembra que o setor é submetido a uma série de fiscalizações dos órgãos ambientais e que o tratamento está estabelecido na resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama).

— Essa normativa estabelece que os efluentes de qualquer fonte potencialmente poluidora só poderão ser lançados na natureza com o devido tratamento. E, além do cumprimento da norma legal, as empresas têm investido na melhoria dos processos e na eficiência do uso dos insumos — afirma, ressaltando que o setor tem em sua agenda de governança e atuação pilares como menor uso de insumos, combate às mudanças climáticas, fortalecimento da indústria circular e uso de matérias-primas renováveis e não poluentes.

Pimentel cita também um programa que tem como objetivo zerar o descarte de substâncias químicas nocivas ou perigosas, criado há mais de uma década, e projetos de reutilização de tecidos.

Indústria petroquímica

Então já na indústria petroquímica, a principal questão é o processo, considerado muito grande e ramificado, da extração do petróleo até o produto final, segundo Frankenberg. Isso resulta na geração de muitos resíduos atmosféricos, orgânicos e gasosos em diferentes etapas.

Segundo André Passos Cordeiro, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), defende que a indústria química instalada no Brasil é a mais sustentável do mundo. Esse desenvolvimento sustentável, afirma, é amparado por dois fatores principais: o primeiro refere-se ao fato de que o país possui uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, enquanto o segundo envolve os “esforços históricos” empreendidos em prol da descarbonização.

Em suma o representante da Abiquim cita dados do Programa Atuação Responsável que demonstram uma redução de 47% na emissão de gases do efeito estufa da indústria química brasileira, entre 2000 e 2016.

— Esse resultado só foi possível graças a uma série de inovações e melhorias que foram introduzidas pela química ao longo dos anos, como a eletrificação de equipamentos e produção in situ de energia renovável, bem como a migração de fontes fósseis para insumos alternativos, como o etanol — detalha Cordeiro.

Cordeiro ressalta ainda que o setor investe em energia renovável na rota oleoquímica, que usa óleos naturais para desenvolvimento de químicos, e no hidrogênio sustentável, além de ser pioneiro na rota alcoolquímica, que utiliza o etanol para a produção de químicos como o polietileno verde.

Indústria alimentícia

A indústria de alimentos, por sua vez, gera um resíduo orgânico, que é mais difícil de ser tratado — fator que encarece os processos —, explica o professor da PUCRS. O especialista pondera, entretanto, que há medidas de reaproveitamento de resíduos para elaborar subprodutos.

— Tem que tratar o efluente antes de liberar para o ambiente. Quanto mais poluído, mais caro vai ser o tratamento. Então, não é só pensar na questão ambiental, mas também na questão econômica da empresa — comenta Frankenberg.

Segundo a nota, a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia) destacou que o setor não figura entre os principais emissores de gases do efeito estufa e que, por meio de seu Comitê de Sustentabilidade, “trabalha para identificar e disseminar melhores ações e projetos relativos à agenda ESG desenvolvidos pela indústria brasileira de alimentos”.

Mas diante dos desafios enfrentados pela cadeia produtiva de alimentos, a associação enfatiza que tem investido em práticas de agricultura regenerativa, como as preconizadas pelo Programa ABC do Ministério da Agricultura, e na Integração Lavoura-Pecuária-Floresta, desenvolvida pela Embrapa. “Ambos contribuem para reduzir emissões climáticas, ao fixar carbono no solo, assim como garantem a rastreabilidade e geolocalização da produção, assegurando o compromisso das empresas aderentes com a erradicação do desmatamento”, diz o texto.

O que dizem a Fiergs e a Sema

Contudo o diretor da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs) e coordenador do Conselho de Meio Ambiente (Codema) da entidade, Newton Battastini, defende que a sociedade polui muito mais do que qualquer indústria química e que a petroquímica gaúcha é um exemplo de sustentabilidade “em todos os sentidos”. Também destaca que a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) é muito eficiente e rígida em suas fiscalizações.

— A petroquímica do Brasil não tem nenhum polo poluente, é tudo altamente equilibrado. Indústria têxtil temos poucas no RS, mas as que eu conheço têm uma área de tratamento altamente qualificada. Empresas de médio e grande porte trabalham com muita segurança, todo volume de água é tratado, nada vai para a natureza. Nossas indústrias têm essa filosofia há muitos anos — diz Battastini.

De acordo com a secretária estadual do Meio Ambiente e Infraestrutura, Marjorie Kauffmann, as indústrias estão estabelecendo pactos e metas individuais e há atuação de grupos, como o Pacto Global da ONU, onde mais de 2 mil grandes empresas brasileiras remetem dados e executam ações dentro das diretrizes dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

— Isso já demonstra o quanto o setor está alinhado. Adicional a isso, podemos citar no Estado a proatividade da Fiergs em participar, com a Sema, tanto do Fórum de Mudanças Climáticas, como dos estudos e elaboração das cadeias de descarbonização por setores específicos, que estão sendo elaborados junto à nossa assessoria — comenta Marjorie.

Fonte: GZH.

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