Enquanto redijo este texto, Minas Gerais conduz a etapa decisiva da desestatização da Copasa, operação que pode movimentar de R$ 8 a R$ 10 bilhões. O modelo segue o trilho aberto pelo Rio Grande do Sul com a Corsan e por São Paulo com a Sabesp: oferta a um investidor de referência, modernização de contratos com municípios titulares e ancoragem nas metas do Novo Marco do Saneamento.
É o 3º grande movimento estadual em 3 anos, e cada novo capítulo torna mais difícil tratar o tema como controvérsia ideológica. É política pública.
Os números do Rio Grande do Sul oferecem o melhor parâmetro disponível para o que se descortina em Minas. Quando ainda era pública, a Corsan investia cerca de R$ 500 milhões por ano e operava com cobertura de coleta e tratamento de esgoto pouco superior a 20% –patamar incompatível com a dignidade que se cobra de um serviço essencial.
Depois da desestatização, em 2022, a capacidade anual de investimento saltou para R$ 1,5 bilhão, dentro de um plano de R$ 15 bilhões em obras projetadas até a universalização. Município a município, o esgoto começa a chegar onde nunca chegou. Não é projeção: é resultado em curso.
Esse desempenho é exatamente o que incomoda os contrários. Diante da evidência, a crítica recua para o terreno simbólico. Repete-se o velho mantra de que privatizar saneamento é “entregar um direito”, quando o que se entrega, na verdade, é a concessão de um serviço público sob regulação independente, com metas vinculantes e penalidades pesadas para quem não cumprir.
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O saneamento e a hipocrisia ambiental
O argumento da privatização, agitado como espantalho, esconde o que a operação efetivamente faz: substitui contratos de programa frouxos, quando havia contrato, por concessões com obrigações claras de universalização, obrigações que o Estado-operador, por suas limitações fiscais e operacionais, não conseguiu entregar em décadas.
Há, porém, um argumento de fundo que merece ser dito com todas as letras. Os mesmos que se erguem contra a privatização do saneamento costumam se apresentar como defensores do meio ambiente. A contradição é flagrante.
Esgoto sem coleta é esgoto despejado in natura em rios, lagos e mananciais. Não há causa ambiental mais elementar do que tratar o esgoto que produzimos. Quem prefere manter um modelo público que, na prática, proporcionou décadas de despejo direto na natureza não está defendendo o meio ambiente. Está sustentando um arranjo perverso, com retórica verde por cima.
Esse ambientalismo de fachada cobra um preço alto. Além disso, ele paralisa decisões, atrasa investimentos e protege estruturas que falharam. O ambientalismo sério faz o oposto: aceita que proteger a natureza exige capacidade de execução, e que capacidade de execução, no saneamento brasileiro, hoje passa pela atração de capital privado sob regulação pública firme. Desenvolver para proteger, proteger para desenvolver: a fórmula resiste ao teste do tempo justamente porque recusa o falso dilema entre economia e natureza.
Por fim, Copasa entra agora nessa rota. Como na Corsan e na Sabesp, o sucesso não dependerá da ideologia dos críticos, mas da disciplina contratual, da regulação independente e do ritmo de obra que chega aos municípios. Universalizar até 2033, como manda a lei, exige escolher entre repetir o discurso e entregar o esgoto tratado. O Rio Grande do Sul escolheu. Minas escolheu. Cabe ao restante do país decidir o que defende: o meio ambiente ou a paralisia que o degrada.
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Fonte: Poder360
Escrito por Artur Lemos Júnior
Artur Lemos Júnior, 46 anos, é advogado, conselheiro de empresas com atuação consolidada em governança corporativa e associado ao IBGC. Foi secretário de Meio Ambiente e Infraestrutura do Rio Grande do Sul (2019–2021) e secretário-chefe da Casa Civil (2021–2026), período em que liderou o maior ciclo de desestatizações e concessões da história do estado —incluindo CEEE, Sulgás, Corsan e parques. Atua em conselhos de administração e fiscais desde 2015. Atualmente é secretário-geral de Governo do RS.
