Estruturas de saneamento são fontes extraordinárias de informação histórica e científica, capazes de nos esclarecer sobre o estado de saúde e os modos de vida da maior parte da população.
O Império Romano é famoso por sua construção de estradas, aquedutos, templos e anfiteatros. Mas me impressiono mais por algo que parece menos glamouroso, embora, do ponto de vista social, seja extremamente importante: os esgotos.
Mesmo sem conhecer a existência de microrganismos causadores de doenças, os romanos sabiam, por observação, que milhares de pessoas convivendo com seus próprios dejetos produziam uma população menos saudável. Assim, levavam urina e fezes muito a sério — e até mesmo em acampamentos militares em marcha cavavam latrinas locais, tomando cuidado para que a fonte de água para beber nos rios fosse a montante da água que entrasse em contato com os dejetos do exército.
Nas cidades, construíam enormes latrinas públicas e drenagens, como a Cloaca Máxima em Roma, sistema que começou por volta de 600 a.C., evoluiu ao longo dos anos e ainda tem algumas partes em uso hoje, mais de 2.000 anos depois.
Esses esgotos da Antiguidade se tornaram uma fonte extraordinária de informação histórica e científica. Por exemplo: em cidades romanas soterradas pelo Vesúvio, como Pompeia e Herculano, arqueólogos estudaram material preservado das latrinas para descobrir o que as pessoas comiam, identificando restos de cereais, sementes de frutas, espinhas de peixes e conchas de moluscos. As amostras mostram muita variedade de alimentação: quase 100 tipos diferentes de vegetais e 40 tipos de peixes e moluscos.
Com isso, os cientistas perceberam que, fazendo a “ciência suja” da escavação de esgotos, podiam aprender sobre a maior parte da população e como viviam — pois, com o esgoto, todo mundo contribui, enquanto textos e objetos luxuosos encontrados em escavações de construções antigas geralmente nos contam apenas sobre a vida das elites. Fazer essa “ciência suja”, portanto, é uma forma de tornar a arqueologia mais democraticamente representativa.
E não aparecem apenas restos de comida. Fezes antigas também revelaram ovos de parasitas intestinais, como lombrigas e outros vermes — a sofisticada infraestrutura sanitária do Império Romano não foi suficiente para eliminá-los completamente, provavelmente porque banhos coletivos, latrinas compartilhadas, uso de fezes como fertilizante e a intensa circulação de pessoas e alimentos mantinham sua transmissão. Há evidência, porém, de que havia menos tipos de parasitas em instalações romanas com esgotos que nas grandes cidades sem infraestrutura sanitária da época.
Fonte: Nexo Jornal
Escrito por:
Alicia Kowaltowskié médica formada pela Unicamp, com doutorado em ciências médicas. Atua como cientista na área de Metabolismo Energético.
É professora titular do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo.
Alice é autora de mais de 150 artigos científicos especializados, além do livro de divulgação Científica “O que é Metabolismo: como nossos corpos transformam o que comemos no que somos”.
