Levantamento da ABES- SP compara os índices de saneamento entre todos os países que participam do torneio. O especialista da ABES-SP, Álvaro Diogo Teixeira, ressalta que o estudo é importante, em tempos de celebração do esporte, para evidenciar que ainda há bilhões de pessoas no planeta sem acesso à água e ao saneamento.
Se a Copa do Mundo fosse uma competição que levasse em consideração as condições de saneamento básico, o Brasil não passaria da segunda fase (16 avos de final). E o Japão seria o campeão.
Esta é a constatação do levantamento Copa do Mundo do Saneamento, realizado pela ABES-SP – Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental – Seção São Paulo. Comparando as condições sanitárias entre todos os 48 países que participarão do mundial. Que começou nesta na última quinta-feira, 11 de junho, tal qual estão dispostos na tabela do torneio mundial. O estudo foi feito com base em dados do Programa de Monitoramento Conjunto para o abastecimento de água e saneamento – UNICEF e Organização Mundial da Saúde (OMS).
O JMP considera satisfatórias as condições de saneamento a partir de um conjunto de itens, como:
Água: ligações domiciliares, Poços Artesianos, Captação, armazenamento e utilização de água da chuva, dentre outros;
E para o Saneamento: a existência de vaso sanitário, sistema de coleta de esgoto (coleta, bombeamento, tratamento e disposição final adequada) e fossa séptica, entre outros.
Se no futebol a imprevisibilidade é parte do espetáculo, na Copa do Mundo do Saneamento 2026 alguns padrões se confirmam — ainda que com surpresas marcantes. A competição, que utiliza indicadores de acesso à água potável e gestão segura dos serviços de saneamento como critério de desempenho, escancara um retrato do mundo real: onde infraestrutura, desenvolvimento e políticas públicas definem quem avança e quem fica pelo caminho.
“A Copa do Saneamento cumpre um papel fundamental nestes tempos de celebração do esporte: transforma indicadores técnicos em narrativa acessível e evidencia que ainda há bilhões de pessoas numa partida essencial à vida: a do acesso à água e ao saneamento”, ressalta Álvaro Diogo Teixeira, especialista da ABES-SP, tecnólogo em Hidráulica e Saneamento Ambiental e mestre em Gestão e Tecnologia em Sistemas Produtivos.
Veja a seguir os destaques do estudo:
Foto: Divulgação / Abes
Brasil: grupo “fácil”, alerta aceso e eliminação precoce
O Brasil iniciou sua trajetória em um grupo considerado “acessível” – o segundo mais fraco da competição, mas a campanha ficou longe da tranquilidade esperada. Com indicador médio de apenas 72,0%, o país avançou com dificuldades, flertando com uma eliminação ainda na fase de grupos — cenário que acende um sinal de alerta sobre o ritmo de evolução do saneamento no país.
O desafio estrutural é evidente: com mais de 211 milhões de habitantes, sendo o segundo país mais populoso da competição, e uma vasta extensão territorial, universalizar o acesso ao saneamento segue sendo uma tarefa monumental.
Na segunda fase do torneio, o Brasil encontrou o Japão — uma potência consolidada — e acabou eliminado sem grandes chances. Vale destacar que a eliminação precoce do Brasil em 2026 reforça um padrão recente na Copa do Saneamento: assim como nas edições de 2018 e 2022, o país volta a cair diante de um adversário asiático de altíssimo desempenho — desta vez o Japão, repetindo o roteiro das derrotas anteriores para a Coreia do Sul, que também se consagrou como uma das grandes potências do setor.
Japão: consistência, excelência e um título construído no detalhe
O Japão confirmou, mais uma vez, sua posição de referência global em saneamento, encerrando a competição com indicadores próximos de 99,0% — praticamente universalizados.
A campanha japonesa foi marcada por consistência e pequenos detalhes decisivos:
- Passou com autoridade pelo Grupo F, o “grupo da morte” da competição, que reunia seleções de altíssimo nível e indicadores muito elevados;
- Eliminou o Brasil com autoridade logo nas fases iniciais;
- Superou o Catar em um confronto mais disputado;
- Empatou com Curaçao nas quartas de final, avançando no critério de desempate por maior população;
- Venceu a Austrália em uma semifinal apertada;
- E, na final, empatou com a Inglaterra — novamente decidindo o título pelo critério populacional.
Essa trajetória evidencia um ponto central: quando os indicadores são próximos do limite máximo, diferenças marginais e critérios secundários passam a decidir resultados. Para o exercício aqui proposto, foi adotado o critério de desempate pela maior população, uma escolha metodológica que reforça o peso da escala dos serviços: países com populações mais numerosas enfrentam desafios muito mais complexos para universalizar o saneamento, o que torna seus resultados proporcionalmente mais difíceis de alcançar e, portanto, um fator relevante na comparação entre desempenhos equivalentes.
O destaque japonês não é casual. Trata-se de um país que historicamente investe em infraestrutura, gestão eficiente e tecnologia, combinando alta urbanização com políticas públicas estáveis — uma equação que se traduz diretamente em desempenho na competição.
Inglaterra: regularidade de elite e um vice consistente
A Inglaterra chegou à final com uma campanha sólida durante toda a competição, mantendo indicadores próximos de 99,0%.
A trajetória foi marcada por confrontos duros:
- Avanço consistente desde uma fase de grupos exigente no Grupo L, onde enfrentou Croácia, Gana e Panamá, garantindo classificação em um cenário de diferentes níveis de desempenho;
- Vitória na segunda fase sobre a Argentina, reforçando a regularidade da equipe;
- Triunfo em um duelo equilibradíssimo contra a Coreia do Sul nas oitavas de final, definido apenas pelo critério de desempate;
- Nas quartas, protagonizou o chamado “embate da coroa” contra a Escócia, outro país do Reino Unido, também decidido pelo critério de desempate — cabe destacar que a base de dados utilizada considera indicadores agregados do Reino Unido, e não individualizados por país, o que reforça o equilíbrio desse confronto;
- Na semifinal, superou a surpresa Áustria, que não disputava uma Copa do Mundo de futebol desde 1998, mas chamou atenção ao alcançar o terceiro lugar na Copa do Saneamento de 2026;
- E chegou à final contra o Japão, coroando uma campanha extremamente consistente entre as seleções de elite.
O vice-campeonato reforça a posição do Reino Unido entre os líderes globais em saneamento, ainda que sem conseguir superar o refinamento técnico japonês nos momentos decisivos.
Disputa pelo 3º lugar: Áustria x Austrália
A briga pela terceira colocação trouxe dois modelos interessantes:
- Áustria (99,0%), com indicadores praticamente universalizados e forte tradição europeia;
- Austrália (98,0%), que vem evoluindo ao longo das edições.
A vitória austríaca confirma a força do continente europeu, mas a presença da Austrália no pódio mostra uma competição cada vez mais diversificada entre países com alto nível de desenvolvimento.
Grupo F: o verdadeiro “grupo da morte”
O Grupo F fez jus ao apelido de “grupo da morte” ao reunir algumas das seleções mais qualificadas da Copa do Saneamento 2026, combinando indicadores muito elevados e alto equilíbrio técnico entre os participantes. Com a presença de Japão (99,0%), Holanda (98,5%), Suécia (97,5%) e Tunísia (72,5%), o grupo apresentou um dos maiores níveis médios da competição (média de 91,9%), além de uma disputa acirrada pelas vagas na fase eliminatória.
Nesse cenário, cada detalhe fez diferença: Japão, Holanda e Suécia chegaram à fase decisiva com condições reais de classificação, exigindo desempenho consistente ao longo de todos os confrontos. A Tunísia, apesar de apresentar um indicador inferior, também contribuiu para elevar o nível competitivo ao impor desafios adicionais.
A classificação japonesa nesse grupo não apenas reforça sua qualidade técnica, mas também mostra sua capacidade de se destacar em ambientes altamente competitivos — um indicativo claro do que viria a seguir ao longo da campanha campeã.
América Latina: entre avanços, resistência e eliminações precoces
O bloco latino-americano teve participação discreta, ainda que com presença relevante na fase de grupos. Brasil, México, Argentina e Panamá conseguiram avançar para a segunda fase, mas todos acabaram eliminados logo na sequência, sempre diante de adversários de peso: o Brasil caiu para o Japão, a Argentina foi superada pela Inglaterra, o México parou diante da Bélgica e o Panamá foi eliminado por Portugal — evidenciando a dificuldade de competir com países mais desenvolvidos.
Por outro lado, Colômbia, Equador, Haiti e Paraguai não conseguiram avançar da fase de grupos. O caso do Uruguai chama atenção: mesmo apresentando um dos melhores indicadores da região (82,0%), acabou eliminado ainda na fase de grupos ao cair em um grupo extremamente competitivo (Grupo H, considerado o terceiro mais difícil da competição com média de 88,6%), ao lado de seleções com desempenho elevado, o que inviabilizou sua classificação.
O cenário reforça o caráter heterogêneo da América Latina no saneamento: ainda que alguns países avancem, o continente segue distante do nível das principais potências globais, com poucos casos de excelência e muitos desafios estruturais a enfrentar.
Os destaques da edição: brilho inesperado de Curaçao
Entre os grandes protagonistas, Curaçao merece um capítulo à parte.
Com indicador elevado (99,0%), o país caribenho protagonizou uma campanha histórica:
- Eliminou adversários tradicionais, como Turquia e a forte seleção da Suécia;
- Chegou até as quartas de final, onde foi eliminado pelo Japão em um empate decidido pelo critério populacional.
O desempenho chama atenção não apenas pelos números, mas pelo contraste entre a pequena escala populacional (apenas 186 mil habitantes) e a alta eficiência em saneamento. A menor população e o território reduzido (444 km², pouco maior que Ilhabela em SP) naturalmente, contribuem para a obtenção de indicadores mais elevados, ao facilitar a universalização dos serviços — ainda assim, isso não diminui o mérito de Curaçao, que se destacou como o único representante das Américas a alcançar as quartas de final, superando nações maiores, mais ricas e com maior tradição.
Quem poderia ter ido mais longe
Alguns confrontos evidenciaram o alto nível técnico e o equilíbrio entre as principais seleções da competição:
Áustria x Suíça, quartas de final decidida no critério de desempate e por uma margem extremamente pequena entre os indicadores (9,12 x 8,92 milhões de habitantes), em um duelo entre duas seleções de elite. A eliminação suíça chama ainda mais atenção pelo histórico recente: a Suíça vinha de dois vice-campeonatos consecutivos (2018 e 2022), reforçando sua condição de potência e mostrando como pequenas variações podem ser decisivas nesse nível;
Coreia do Sul x Inglaterra, oitavas de final também definida no critério de desempate e por uma diferença pequena entre os indicadores (51,71 x 56,50 milhões de habitantes), refletindo o equilíbrio máximo entre equipes de altíssimo desempenho. A eliminação sul-coreana ganha relevância ao lembrar que a Coreia do Sul era a atual campeã da edição de 2022.
10 primeiros e 10 últimos: onde estão os extremos do saneamento mundial
A competição também permite mapear os polos globais:
10 Melhores indicadores (98% e 99,0%)
Concentrados majoritariamente na:
- Europa (Alemanha, Áustria, Escócia, Holanda, Inglaterra e Suíça);
- Ásia (Japão, Coreia do Sul);
- Oceania (Austrália);
- América Central e Caribe (Curaçao).
Esse recorte evidencia um padrão já consolidado no cenário global. Os melhores indicadores de saneamento estão fortemente concentrados em países desenvolvidos, com alta capacidade de investimento, planejamento de longo prazo e gestão eficiente dos serviços. Ainda assim, a presença de Curaçao entre as elites reforça que, embora fatores como escala populacional e territorial influenciem os resultados, boas políticas públicas e organização institucional podem permitir que países menores alcancem níveis de excelência comparáveis aos das grandes potências. Mostrando que universalizar o saneamento é, acima de tudo, uma questão de prioridade e governança.
10 Piores indicadores (<60,0%)
Predominantemente em:
- África (Congo, Costa do Marfim, Gana, Senegal, Marrocos);
- América Latina e Caribe (Colômbia, Haiti, México e Equador);
- Ásia (Iraque).
Os dados evidenciam um recorte geográfico claro. Desenvolvimento econômico e investimento estrutural seguem sendo determinantes diretos do acesso ao saneamento. Nos países que aparecem entre os piores indicadores, observa-se um conjunto de desafios recorrentes. Como crescimento populacional acelerado, urbanização desordenada, limitações fiscais e, em muitos casos, instabilidade política ou institucional. Fatores que dificultam a expansão e a manutenção de redes de abastecimento de água e coleta e tratamento de esgoto.
Na África, por exemplo, países como Congo, Costa do Marfim, Gana e Senegal refletem déficits históricos de infraestrutura básica. Já na América Latina e Caribe, casos como Haiti, Colômbia e Equador evidenciam desigualdades internas profundas e dificuldades de universalização. Mesmo em contextos com maior disponibilidade de recursos.
O Iraque, por sua vez, ilustra como conflitos e fragilidades institucionais impactam diretamente a prestação dos serviços. Em comum, esses países mostram que o avanço no saneamento depende não apenas de investimento. Mas também de continuidade de políticas públicas, planejamento de longo prazo e capacidade de gestão. Elementos que ainda representam desafios em grande parte dessas regiões.
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Os gigantes populacionais e o desafio do saneamento
Entre os 10 países mais populosos da competição, temos de um lado, países como Japão (99,0% / 123,75 MM de hab.), Alemanha (98,5% / 84,55 MM de hab.), Estados Unidos (97,5% / 345,42 MM de hab.) e França (95,0% / 66,54 MM de hab.). Que demonstram que é possível combinar grande população com excelência em saneamento, resultado de planejamento de longo prazo, alto nível de investimento e gestão eficiente. De outro, realidades como Congo (12,5% / 109,27 MM de hab.) e México (53,0% / 130,86 MM de hab.) que evidenciam enormes déficits estruturais, onde crescimento populacional e limitações institucionais dificultam a universalização dos serviços.
Mesmo entre os países intermediários há contrastes importantes: o Brasil (72,0% / 211,99 MM de hab.), apesar de avanços, segue distante das lideranças globais; o Egito (68,0% / 116,53 MM de hab.) enfrenta desafios semelhantes; enquanto o Irã (92,0% / 91,56 MM de hab.) e a Turquia (87,5% / 87,47 MM de hab.) já se aproximam de patamares mais elevados.
O conjunto evidencia uma leitura central da Copa do Saneamento: quanto maior a população, maior a complexidade — mas são as escolhas políticas, a capacidade de investimento e a eficiência na gestão que determinam o resultado final.
Outro fator estrutural que influencia diretamente esses resultados é a extensão territorial. Países de grande dimensão, como Brasil, Estados Unidos e China (fora da copa, mas comparável em escala), enfrentam desafios adicionais relacionados à dispersão populacional, à diversidade geográfica e à necessidade de expandir redes de infraestrutura por longas distâncias, muitas vezes em áreas remotas ou de difícil acesso. Essa complexidade aumenta significativamente os custos de implantação, operação e manutenção dos sistemas de água e esgoto. Por outro lado, países menores territorialmente — como Japão e Alemanha — conseguem, em geral, integrar suas redes de forma mais eficiente e homogênea, o que contribui para alcançar níveis mais elevados de universalização. Assim, além da população, a dimensão territorial se consolida como um elemento-chave para entender as desigualdades observadas nos indicadores de saneamento.
O “multiverso do futebol” no saneamento
A comparação entre futebol e saneamento segue rendendo contrastes curiosos:
- Argentina, atual campeã do mundo no futebol, teve desempenho apenas mediano no saneamento, caindo na segunda fase sem protagonismo;
- Croácia, algoz do Brasil em 2022, também teve campanha discreta, vencendo o Uzbequistão na segunda fase e caindo para a Espanha nas oitavas de final.
Mais uma vez, fica evidente que o sucesso esportivo não reflete necessariamente as condições estruturais de um país.
Leituras e tendências da Copa 2026
A edição de 2026 reforça algumas lições importantes:
- A liderança global permanece concentrada em países altamente desenvolvidos, que combinam investimento contínuo, planejamento de longo prazo e forte capacidade de gestão, mantendo indicadores próximos da universalização e presença constante entre os finalistas;
- Diferenças entre os melhores são mínimas — e critérios indiretos passam a decidir, como evidenciado em diversos confrontos resolvidos pelo critério de desempate por maior população;
- Países intermediários, como o Brasil, avançam lentamente, mas ainda enfrentam grandes desafios, especialmente diante de fatores estruturais como população elevada, extensão territorial e desigualdades internas que dificultam a universalização plena dos serviços;
- Pequenas nações eficientes, como Curaçao e Cabo Verde, confirmam que escala não é barreira para bons resultados, e se consolidam como grandes destaques positivos da edição ao demonstrar que governança, foco em políticas públicas e organização dos serviços podem superar limitações estruturais e gerar resultados comparáveis aos das principais potências.
Metodologia
A classificação dos países foi realizada com base na média dos indicadores de serviços “geridos com segurança” (safely managed) relativos ao acesso à água potável e ao saneamento, conforme a metodologia do JMP (WHO/UNICEF). Em caso de empate, adotou-se como critério de desempate a maior população do país, que avança para a fase seguinte.
Os dados utilizados referem-se, em geral, ao ano de 2024, com exceção da Croácia (2021) e de Curaçao (2017, apenas para o indicador de saneamento seguro). Para Escócia e Inglaterra, foram considerados os indicadores agregados do Reino Unido.
Os vencedores das edições anteriores da Copa do Saneamento foram:
- 2022 – Coreia do Sul;
- 2018 – Japão;
- 2014 – Alemanha.
Fonte: ABES