saneamento basico
Decisão do TJ-RJ reacende debate sobre poços artesianos e direito à água

Decisão do TJ-RJ reacende debate sobre poços artesianos e direito à água | Engeper Ambiental

A recente decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro que restringe o uso de poços artesianos em imóveis atendidos por rede pública reacende um debate urgente e necessário para o Brasil: como conciliar a segurança hídrica com o direito constitucional de acesso à água.

Ao tratar o uso de poços como prática irregular por princípio, a medida ignora o arcabouço legal existente, desconsidera evidências técnicas consolidadas e cria um precedente preocupante para a gestão de recursos hídricos no país.

Não se trata de uma questão abstrata ou teórica. O Rio de Janeiro enfrenta historicamente perdas significativas na rede de distribuição, abastecimento intermitente e vulnerabilidade a eventos climáticos extremos, como secas prolongadas e enchentes. Nessas condições, a proibição ampla do uso de poços regularmente outorgados não fortalece a segurança hídrica; pelo contrário, fragiliza-a. A água subterrânea, quando captada de forma legal e monitorada, não concorre com a rede pública. Ela atua como elemento complementar, estratégico e resiliente dentro do sistema, podendo suprir demandas críticas sem comprometer os recursos coletivos.

O marco legal brasileiro é claro. A Lei nº 9.433, de 1997, estabelece que a água é um bem de domínio público, cujo uso depende de outorga do poder público. Em nenhum trecho a legislação condiciona esse direito à existência de rede de abastecimento. O que se exige é gestão, controle e responsabilidade técnica. A própria Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) reconhece a outorga como pilar da governança hídrica. Transformar uma ferramenta legal em prática proibida por presunção constitui desvio do espírito da política nacional de recursos hídricos e ameaça a segurança jurídica do setor.

Nesse contexto, entidades técnicas como a ANEPP (Associação Nacional das Empresas de Perfuração de Poços) e a ABAS (Associação Brasileira de Águas Subterrâneas) desempenham papel essencial. Elas promovem o uso responsável e regulamentado da água subterrânea, defendendo fiscalização adequada, critérios técnicos rigorosos e proteção dos aquíferos. Decisões genéricas que desconsideram esse conhecimento técnico não protegem os recursos hídricos; apenas empurram os usuários para a informalidade, dificultando o controle ambiental e aumentando os riscos de sobre exploração.

O acesso à água é um direito constitucional, protegido pelo artigo 225 da Constituição Federal, que assegura a todos o direito a um meio ambiente ecologicamente equilibrado e impõe ao poder público a obrigação de garantir a gestão sustentável dos recursos hídricos. Esse direito não pode ser restringido por interpretações simplistas, presunções ideológicas ou decisões dissociadas da realidade técnica. Garantir o acesso à água não significa autorizar seu uso indiscriminado; significa integrar a água subterrânea de maneira regulamentada, transparente e sustentável às políticas públicas de abastecimento, com monitoramento constante e respeito aos limites de exploração dos aquíferos.

Os números reforçam a importância dessa integração. Segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), cerca de 52% dos municípios brasileiros utilizam água subterrânea de forma total ou parcial no abastecimento, o que evidencia o papel estratégico dos aquíferos e dos poços no sistema hídrico nacional. Em muitas regiões, esses recursos garantem o fornecimento de água para hospitais, escolas, indústrias e serviços públicos essenciais, funcionando como uma infraestrutura invisível, porém decisiva.

No Rio de Janeiro, áreas periféricas e comunidades rurais frequentemente dependem de poços para suprir necessidades básicas, especialmente em períodos de escassez ou de interrupções no abastecimento público. Ignorar essa realidade é perder a oportunidade de fortalecer a segurança hídrica do estado com soluções já existentes, que podem ser ampliadas por meio de gestão adequada e planejamento integrado.

O debate precisa avançar do campo punitivo para o da governança. A simples proibição de poços não resolve problemas estruturais da gestão da água; pelo contrário, cria riscos de informalidade, sobreexploração e degradação ambiental. Estratégias eficazes incluem a regularização, cadastramento e monitoramento de poços, proteção das áreas de recarga, educação ambiental para usuários, integração entre concessionárias e órgãos reguladores e aplicação de critérios técnicos para captação. Esse modelo não apenas assegura o direito de acesso à água, como também fortalece a capacidade de resposta a eventos extremos, como secas e enchentes, tornando o sistema hídrico mais resiliente e sustentável.

Experiências internacionais reforçam a importância dessa abordagem. Países que enfrentam escassez hídrica severa, como Israel, Austrália e Cingapura, não tratam aquíferos como ameaça ou recurso secundário. Pelo contrário, eles integram águas subterrâneas a planos estratégicos de abastecimento, combinando tecnologia, monitoramento e políticas públicas que incentivam o uso racional e a proteção dos recursos naturais. Esses exemplos demonstram que a gestão inteligente da água subterrânea é fundamental para o desenvolvimento sustentável, a segurança hídrica e a preservação ambiental.

A decisão do Tribunal de Justiça fluminense poderia ser uma oportunidade de modernizar a política de águas no estado, promovendo governança, inovação e transparência. Água subterrânea não é plano B, tampouco privilégio: é um ativo estratégico, capaz de complementar a rede pública, garantir resiliência frente às mudanças climáticas e assegurar o direito constitucional de acesso à água. Integrar poços artesianos regularmente outorgados ao sistema de abastecimento não apenas fortalece a segurança hídrica do Rio de Janeiro, como também serve de referência para todo o Brasil, mostrando que soluções técnicas, responsáveis e reguladas são a melhor alternativa frente aos desafios atuais.

*Walter de Oliveira é fundador e CEO da Engeper, empresa especializada em soluções de engenharia para captação e gestão de água subterrânea e presidente da ANEPP (Associação Nacional dos Perfuradores de Poços Profundos).

Fonte: Engeper


Últimas Notícias:
Como estruturas de drenagem evitam enchentes nos centros urbanos

Como estruturas de drenagem evitam enchentes nos centros urbanos?

Os projetos de Engenharia desempenham um papel essencial na preparação das grandes cidades para períodos de chuvas intensas. Na Grande São Paulo, obras de drenagem e intervenções em infraestrutura urbana contribuem para reduzir os impactos causados pelos temporais e ampliar a proteção de comércios, moradias e vias públicas.

Leia mais »