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Estudo da PUC-Rio defende integração entre redes de esgoto e drenagem

Estudo da PUC-Rio defende integração entre redes de esgoto e drenagem

Problemas como redes subdimensionadas, ligações clandestinas e infiltração de água da chuva nos coletores de esgoto são frequentes

Um estudo desenvolvido por pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) indica que a falta de gestão integrada entre os sistemas de drenagem urbana e de esgotamento sanitário aumenta os riscos ambientais e sanitários em cidades brasileiras, especialmente durante o período de chuvas intensas. A pesquisa mostra que, embora esses sistemas sejam planejados para operar de forma separada, na prática eles frequentemente se misturam, comprometendo sua eficiência e a saúde da população.

Com a chegada do verão, diversas regiões do país entram em estado de alerta para inundações e deslizamentos, fenômenos que tendem a se intensificar com as mudanças climáticas. Além dos danos imediatos, como alagamentos e prejuízos materiais, os pesquisadores chamam atenção para um problema menos visível, mas igualmente grave: a contaminação causada pelo contato indevido entre águas pluviais e esgoto sanitário.

Segundo o professor Antonio Krishnamurti Beléño de Oliveira, do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da PUC-Rio, esse tipo de ocorrência é comum em cidades onde os sistemas de saneamento são planejados, operados e administrados de forma independente. Em revisão recente da literatura científica, o pesquisador e colaboradores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) observaram que a ausência de uma abordagem integrada favorece falhas operacionais e extravasamentos de esgoto em áreas urbanas.

No Brasil, historicamente adotou-se o chamado “sistema separador”, no qual a água da chuva é direcionada para redes de drenagem, enquanto o esgoto sanitário segue por redes próprias até estações de tratamento. Apesar de coerente do ponto de vista técnico, o modelo enfrenta limitações na prática. Dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento mostram que apenas 63,2% da população urbana brasileira tem acesso à rede de esgoto, e somente 50,8% do volume coletado recebe tratamento.

Mesmo em cidades com maior cobertura de saneamento, problemas como redes subdimensionadas, ligações clandestinas e infiltração de água da chuva nos coletores de esgoto são frequentes. Essas falhas aumentam a sobrecarga hidráulica do sistema, provocando extravasamentos que contaminam ruas, rios e áreas costeiras. O caminho inverso também ocorre: o esgoto acaba alcançando as redes de drenagem, que geralmente despejam seus fluxos sem tratamento no meio ambiente.

De acordo com o estudo, a falta de integração faz com que sistemas projetados para funcionar separadamente operem, na prática, como sistemas mistos e ineficientes. Esse cenário é agravado por entraves técnicos e institucionais. Embora normas e legislações reconheçam a necessidade de gestão integrada, ainda há lacunas quanto à definição de responsabilidades, metas claras e instrumentos eficazes de monitoramento.

No Brasil, apesar dos avanços trazidos pelo marco legal do saneamento, persistem dificuldades para corrigir sistemas já disfuncionais e para coordenar a atuação de diferentes órgãos responsáveis pelas redes de drenagem e de esgoto. Isso pode gerar uma falsa percepção de eficiência, mascarando riscos sanitários e déficits reais de atendimento.

Como resposta a esse desafio, os pesquisadores desenvolveram um novo método de simulação capaz de representar, de forma integrada, três camadas do ambiente urbano: a superfície da cidade, a rede de drenagem das chuvas e a rede de esgotamento sanitário. A metodologia foi apresentada em artigo publicado na revista Water Science and Technology.

O modelo permite identificar interações entre os sistemas, inclusive em situações de falha, e introduz uma métrica denominada “transbordamento combinado não previsto”, que mede quando redes formalmente separadas passam a se comportar como sistemas mistos durante eventos críticos.

A ferramenta foi aplicada em um estudo de caso no bairro de Campo Grande, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, região com histórico de alagamentos. As simulações confirmaram relatos de moradores sobre transbordamentos de águas contaminadas durante chuvas intensas e identificaram conexões irregulares entre os sistemas. O modelo também estimou volumes de extravasamento e mapeou áreas com maior risco de contaminação.

Além disso, foi realizada uma análise da qualidade da água por meio da demanda bioquímica de oxigênio (DBO), indicador de poluição orgânica. Após episódios de chuva, os níveis de DBO aumentaram significativamente tanto na superfície urbana quanto no rio Prata do Cabuçu, que recebe as águas da drenagem local.

Os pesquisadores pretendem ampliar a aplicação do método para outras cidades, considerando diferentes padrões de urbanização e regimes de chuva, além de incorporar simulações de longo prazo associadas às mudanças climáticas. A equipe também planeja avaliar soluções baseadas na natureza, como bacias de retenção e wetlands construídos, voltadas à redução e ao tratamento de águas contaminadas.

Segundo o autor do estudo, os resultados reforçam a necessidade de uma abordagem sistêmica para o planejamento urbano e o saneamento. “A fragmentação entre setores já não acompanha a complexidade das cidades atuais”, afirma. A expectativa é que a ferramenta contribua para políticas públicas mais eficazes, capazes de tornar os centros urbanos mais resilientes, sustentáveis e seguros diante dos desafios ambientais do século XXI.

Fonte: Jornal GNN


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