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Água tem de estar no centro da governança climática

Água tem de estar no centro da governança climática

Apesar dos graves problemas provocados pelas grandes enchentes e pela escassez crescente de água em vários lugares do planeta, muitos ainda encaram a disponibilidade de recursos hídricos apenas como um reflexo das mudanças climáticas. Especialistas e gestores frequentemente interpretam secas, enchentes e eventos extremos como sintomas dessa pauta. Esse tipo de análise, no entanto, limita a compreensão do problema.

Ao enxergar a água apenas como consequência, deixamos de reconhecê-la como recurso estratégico e ponto de partida para a resiliência ambiental, social e econômica.

Essa distorção ficou evidente durante a COP30, em Belém, no Pará. Embora a conferência tenha ocorrido no território da maior bacia hidrográfica do planeta, a segurança hídrica não foi incorporada como eixo estratégico vinculante no documento final aprovado pelos países participantes. A falta de centralidade da água revela uma fragilidade persistente na forma como a governança climática ainda estrutura suas prioridades.

Essa lacuna ajuda a explicar por que a segurança hídrica segue ocupando espaço secundário em muitas agendas institucionais e corporativas, mesmo sendo fator decisivo para a continuidade dos negócios. O problema não é apenas conceitual. Representa um risco concreto para governos, populações e empresas.

Para o setor privado brasileiro, essa constatação exige ação imediata. A segurança operacional das empresas não pode depender apenas do ritmo da política ou de consensos internacionais. Num cenário de pressão crescente sobre os recursos naturais, a água precisa estar no centro das decisões estratégicas — não apenas como discurso ambiental, mas como parte essencial de uma gestão responsável e racional dos negócios.

A água é um ativo essencial para a sociedade e para qualquer atividade produtiva. Sua gestão eficiente vai além do cumprimento de normas ambientais. Ela se tornou elemento de inteligência competitiva. O Brasil tem arcabouço legal sólido, mas o diferencial está em ir além do obrigatório. Hoje, liderar significa antecipar riscos e estruturar soluções antes que a escassez se transforme em crise.

Água tem de estar no centro da governança climática

O compromisso real não se limita ao tratamento adequado de efluentes — isso é o mínimo. Ele se revela na capacidade de reduzir a dependência de fontes naturais de água potável. É nesse ponto que as dimensões ambiental e social da agenda ESG se encontram de forma prática.

O reúso de água ilustra bem essa convergência. Quando uma indústria investe em tecnologias que fecham o ciclo hídrico dentro de suas operações, os ganhos são imediatos. Internamente, a água deixa de ser um custo instável e passa a ser um ativo controlado, trazendo previsibilidade e segurança operacional. Externamente, a empresa reduz a pressão sobre os mananciais e sobre o sistema público de abastecimento.

Num país marcado por desigualdades profundas, onde até regiões com grande disponibilidade hídrica convivem com déficits históricos de saneamento básico, essa escolha ganha ainda mais relevância. A água potável precisa estar disponível, antes de tudo, para o consumo humano.

Ao optar pelo reúso, a empresa contribui para aliviar essa pressão. Ganha em estabilidade e reputação; a sociedade ganha em disponibilidade de recursos. É valor compartilhado aplicado à prática, sem depender de acordos distantes ou discursos abstratos.

A COP30 trouxe alguns avanços e despertou questionamentos importantes, que precisam ser endereçados pela comunidade internacional. Mas, no cotidiano das empresas, os desafios da gestão hídrica seguem presentes nas fábricas, nas cadeias produtivas e nas decisões executivas. Cabe ao setor privado assumir esse protagonismo, usando tecnologia e engenharia para transformar passivos ambientais em ativos de governança. Sem água, não há negócios sustentáveis nem futuro possível.

Escrito por Fernando Carvalho

Fonte: Oglobo


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