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Lodo de esgoto vira biofertilizante no Brasil

Lodo de esgoto vira biofertilizante no Brasil

Com foco em economia circular. Tera Ambiental é uma das empresas que cresce ao transformar resíduos orgânicos em oportunidades de negócio – para ela e para os clientes

O que para muitas cidades ainda é um passivo ambiental caro e problemático começa a ganhar status de insumo valioso para o agronegócio. O lodo de esgoto, resíduo sólido não perigoso gerado no tratamento biológico de esgotos sanitários. É a matéria-prima usada por algumas empresas para produção de biofertilizantes, comprovadamente benéficos para o solo na produção de diversas culturas.

Composto predominantemente por matéria orgânica, entre 60% e 75% na base seca, além de nutrientes como nitrogênio e fósforo. O lodo de esgoto é tradicionalmente destinado a aterros sanitários por empresas de saneamento básico.

A lógica é verdadeiramente circular: o esgoto é tratado, a água retorna aos corpos hídricos dentro dos padrões legais e o lodo resultante passa por processos de higienização e estabilização.

Além disso, reduz a massa, volume e eliminando patógenos. O que antes representava custo para as estações de tratamento e risco ambiental. Passa a ser reinserido na cadeia produtiva como condicionador de solo e fonte de nutrientes.

É neste mercado que a Tera Ambiental quer crescer. A empresa nasceu a partir de uma demanda da empresa de saneamento básico responsável pelo serviço em Jundiaí (SP), há cerca de duas décadas, com foco na valorização de resíduos dentro da lógica da economia circular e se tornou a primeira licenciada no Brasil para o recebimento e tratamento de lodo sanitário.

“No uso agrícola, a empresa teve papel de pioneirismo”, comenta Lívia Baldo, diretora da Tera Ambiental.

Hoje, o grupo está dividido em duas empresas – a Tera Ambiental que é responsável pelo serviço de tratamento de efluentes industriais e sanitários, e a Tera Nutrição Vegetal, que é quem produz , a partir do lodo, e comercializa os biofertilizantes.

Em Jundiaí, na planta operada pela Tera Ambiental, são processadas cerca de 70 mil toneladas de resíduos orgânicos por ano— sendo, em média, 65% de lodo de esgoto. O resultado é a produção de aproximadamente 36 mil toneladas por ano de fertilizante orgânico composto Classe B, peneirado e com 70% de sólidos.

Benefícios agronômicos e desafios

Do ponto de vista do produtor rural, o biofertilizante derivado do lodo pode substituir parcialmente a adubação mineral, reduzindo custos com fertilizantes nitrogenados sintéticos — cuja produção é intensiva em emissões. O composto atua como condicionador de solo, melhora a estrutura, aumenta a capacidade de retenção de água e contribui para o sequestro de carbono.

A utilização agrícola do lodo representa ainda a reciclagem de energia contida na matéria orgânica e o aproveitamento econômico do nitrogênio. No entanto, o uso exige controle rigoroso de qualidade. A composição pode variar conforme a bacia de esgotamento, especialmente em relação a metais pesados e outros contaminantes. A legislação estabelece limites máximos e critérios técnicos para assegurar a segurança do produto.

A compostagem é reconhecida por sua eficiência na eliminação de microrganismos patogênicos, e dados de monitoramento da Tera indicam atendimento com folga aos limites legais. Ainda assim, especialistas apontam que a confiança do agricultor e a disseminação de informação técnica são fatores decisivos para ampliar a adoção.

“Estamos testando outros resíduos orgânicos, da indústria alimentícia, como restos de frutas, verduras, legumes e bagaços de polpas de sucos, além de resíduos da indústria de biscoitos”, comenta Lívia. Os estudos, contudo, ainda estão na fase inicial, de determinação de critérios para garantir a qualidade do produto final.

Rastreabilidade e crédito de reciclagem

Em 2025, a Tera avançou em outra frente: a da rastreabilidade da produção, como diferencial de mercado e para apoiar na aprovação de todas as certificações. Para isso, firmou uma parceria com a greentech Carrot.eco para desenvolver um sistema de certificação baseado em blockchain.

“A proposta é garantir rastreabilidade total dos resíduos encaminhados à compostagem”, comenta Lívia. O trabalho também ajuda a proteger contra possíveis acusações de greenwashing.

Segundo a executiva, a tecnologia monitora o processo de ponta a ponta, do recebimento do lodo à transformação em fertilizante, permitindo histórico verificável de cada lote. A Tera recicla atualmente cerca de 30 mil toneladas de resíduos orgânicos por ano dentro dessa iniciativa e busca expandir o projeto.

O sistema também deu origem a créditos de reciclagem, modelo semelhante ao mercado de carbono, que pode ser adquirido por empresas que não conseguem reciclar integralmente seus resíduos.

“Os primeiros créditos já foram gerados e comercializados”, conta a executiva ao Um Só Planeta.

A inovação ocorre em um contexto de baixa circularidade: estima-se que apenas 0,1% dos resíduos orgânicos no Brasil sejam reciclados. O potencial de expansão é significativo, especialmente diante da tendência de aumento da geração de lodo, à medida que os índices de saneamento básico avançam no país.

Economia circular do lodo

O engenheiro agrônomo Fernando Carvalho Oliveira, doutor em Agronomia – Solos e Nutrição Mineral de Plantas pela Esalq/USP, desenvolveu a técnica de transformação do lodo em biofertilizantes no início dos anos 2000.

Desde então, Oliveira segue na empresa. Atualmente, ele atua como responsável técnico da Tera Nutrição Vegetal.

O reaproveitamento do lodo para a produção de biofertilizantes ocorre por meio da chamada compostagem termofílica, tecnologia que acelera a decomposição da matéria orgânica em ambiente controlado, com altas temperaturas.

O processo reduz a umidade, elimina patógenos e transforma o resíduo em um produto estável e seguro para uso agrícola. O fertilizante obtido pode ser registrado no Ministério da Agricultura (MAPA) e aplicado em culturas como citrus, eucalipto e cana-de-açúcar.

Além do lodo, a empresa de saneamento básico também processa outros resíduos orgânicos previamente segregados, como restos de alimentos provenientes de redes varejistas e indústrias. Para garantir padrão agronômico e qualidade final, pequenas quantidades de insumos como calcário e rochas fosfáticas podem ser incorporadas à mistura.

Contudo, toda a operação deve ser licenciada pelo órgão ambiental competente, e cada resíduo destinado à planta precisa de autorização prévia para ingresso no processo.

Mercado em formação

A reciclagem agrícola do lodo já é prática consolidada em países da Europa, além de Canadá, Estados Unidos e Austrália. No Brasil, o setor começa a ganhar escala, impulsionado por avanços regulatórios, pressão por soluções climáticas e pelo encarecimento de insumos importados.

Contudo, a utilização para o fim agrícola só deslanchou mesmo no Brasil após a publicação pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), do Ministério do Meio Ambiente, que publicou as resoluções nºs 375 e 380 em 2006, estabelecendo critérios e procedimentos para o uso, em áreas agrícolas, de lodo de esgoto gerado em estação de tratamento.

Em 2020, o Ministério da Agricultura (MAPA) também publicou regras específicas para uso desta matéria-prima para fertilizantes (Instrução Normativa SDA nº 61/2020). O MAPA também estabelece limites máximos de contaminantes, incluindo metais pesados, garantindo padrões de segurança para o uso agrícola.

Além da Tera, outras iniciativas públicas e privadas vêm investindo na produção de biofertilizantes a partir de resíduos orgânicos – a maioria, concessionárias de saneamento.

O Sabesfértil é um exemplo. O programa da Sabesp transforma lodo de estações de tratamento de esgoto (ETE) em adubo orgânico de alta qualidade. Produzido em parceria com a Unesp (Universidade Estadual Paulista) e a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), o composto é rico em nutrientes (N, P, K), ideal especialmente para culturas como café, cana-de-açúcar e reflorestamento.

A estrutura que reaproveita o lodo tratado funciona no complexo da ETE Lageado, no campus da Faculdade de Ciências Agronômicas da Unesp, em Botucatu (SP). Em 2025, a estação gerava cerca de 15 metros cúbicos de resíduo por dia. Assim, a cada ciclo de 45 a 60 dias, o sistema produz aproximadamente 700 toneladas de composto.

Além disso, em agosto do ano passado, a ETE passou a receber lodo residual de outras três estações da Sabesp, provenientes dos municípios de Águas de São Pedro, Conchas e Dourado. Dessa forma, a unidade ampliou em 17% a capacidade de produção de adubo orgânico.

É na prestação de serviços para outras concessionárias de saneamento básico que a Tera Ambiental quer crescer. O aumento da geração de lodo, decorrente da expansão do saneamento, tende a ampliar a matéria-prima disponível, ao mesmo tempo em que a agricultura busca alternativas mais sustentáveis e resilientes.

“A própria universalização do saneamento básico avança no Brasil, mostra que é um mercado com grande potencial”, diz. O Novo Marco Legal (Lei 14.026/2020) estabeleceu a meta de atender 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto até 31 de dezembro de 2033.

Contudo, além do próprio atraso no atingimento das metas, um dos grandes obstáculos e principal “concorrente” do biofertilizante produzido pelo lodo é o custo de enviar o resíduo para aterros.

“Diferentemente do que na Europa, que o valor de enviar resíduos para o aterro é muito alto, aqui no Brasil ainda paga-se pouco”, diz a executiva. Ela cita que o custo para envio de lixo está na faixa de R$ 200-250 a tonelada no Brasil.

A crítica é que, dado o menor custo e complexidade, muitas empresas preferem levar o lodo ao aterro ao invés de investir tempo e dinheiro na criação de projetos de reaproveitamento do material.

Para diminuir a dependência das empresas de saneamento, a Tera também está apostando na produção de energia, outro uso que começa a ganhar escala no Brasil. Em 2024, a Tera Ambiental formou um consórcio com a Orizon Valorização de Resíduos para a compostagem de lodo orgânico e produção de fertilizantes orgânicos no Ecoparque Paulínia, no interior de São Paulo.

“O objetivo é aumentar a valorização de resíduos e a produção sustentável de insumos”, comenta Lívia.

Com outra linha de produto e receita, a empresa consegue diminuir o risco de dependência apenas da demanda por bioinsumos no campo e passa também a entrar na rota do potencial de produção de biocombustível no Brasil.

Com potencial para se tornar o quinto maior produtor de biometano do mundo, o Brasil pode ter 60% da sua produção do biocombustível derivada de aterros sanitários até 2027, segundo novo relatório da Agência Internacional de Energia Elétrica (IEA) – parte dele produzido a partir do lodo de esgoto depositado. A energia do lodo de esgoto é gerada por digestão anaeróbia, que transforma a matéria orgânica em biogás rico em metano. Esse gás é usado para produzir eletricidade e calor nas Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs), reduzindo emissões e fortalecendo a economia circular.

Há projetos em outros países que estuda ainda outros fins para o lodo. Pesquisadores da Universidade Tecnológica de Nanyang (NTU), em Singapura.Por exemplo, desenvolveram uma tecnologia que transforma lodo de esgoto em hidrogênio verde e proteína unicelular para ração animal, utilizando energia solar no processo.

O método combina separação mecânica para remoção de metais pesados, tratamento eletroquímico solar — que converte a matéria orgânica em hidrogênio e ácido acético — e fermentação biológica, na qual bactérias transformam os nutrientes remanescentes em proteína. Em testes de laboratório, a técnica recuperou mais de 90% do carbono orgânico do lodo, reduziu quase totalmente as emissões e o consumo de energia em comparação aos modelos tradicionais e eliminou metais pesados.

Embora ainda enfrente desafios de custo e escalabilidade, a inovação aponta para um modelo de economia circular no saneamento, no qual resíduos urbanos podem se tornar fonte de energia limpa e insumo para a produção de alimentos.

Crescimento passa pela conscientização

Em artigo publicado em dezembro de 2025, a diretora da Tera defendeu o papel da economia circular na agenda climática.

“Quando bem aplicada, ela não apenas evita passivos ambientais, mas também cria valor”, pontuou Livia.

Para ela, a transformação de lodo e efluentes industriais em fertilizantes orgânicos demonstra que desenvolvimento econômico e responsabilidade ambiental podem caminhar juntos.

O desafio agora é escalar. O raciocínio é que, se a fração reciclada dos resíduos orgânicos sair do patamar residual para níveis mais expressivos, o lodo de esgoto poderá deixar de ser visto como problema urbano e se consolidar como elo estratégico entre cidades e campo — fechando ciclos produtivos e abrindo uma nova fronteira para a economia circular no país.

Há também uma frente importante que é a conscientização no campo. Não são todos os agricultores que confiam no produto e apostam em seus benefícios sem que o custo pese na decisão de compra – em muitos casos, o quilo do fertilizante orgânico é bem mais caro do que o 100% mineral.

“O que mais funciona é quando um produtor fala e mostra pra o vizinho ou amigo o efeito na produção e na saúde do solo”, comenta Lívia.

Reportagem do G1 mostrou que produtores rurais de nove cidades das regiões de Campinas e Piracicaba utilizam um fertilizante orgânico produzido a partir do lodo de esgoto do aterro de Paulínia (SP). Além disso, segundo a matéria, 113 agricultores de 40 municípios paulistas já adotam o produto em larga escala.

Por exemplo, a produtora Mariangêla Storani, que cultiva café orgânico em Vinhedo e Jundiaí. Afirmou ao G1 que não usa adubo químico há oito anos e obtém resultados positivos.

Segundo ela, uma análise de solo realizada há um mês no Instituto Agronômico de Campinas confirmou que a terra permanece saudável e produtiva, mesmo sem fertilizantes químicos.

Os benefícios também vêm sendo medidos em estudos acadêmicos. Pesquisa conduzida pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), no campus de Ilha Solteira (SP), avaliou o uso de lodo de esgoto compostado (LEC) em solos tropicais cultivados com cana-de-açúcar, em área experimental em Suzanápolis (SP).

O estudo apontou um aumento significativo da matéria orgânica do solo. Além disso, os pesquisadores observaram melhora na disponibilidade de nutrientes, como fósforo, cálcio e magnésio. Também identificaram redução da acidez. Por fim, verificaram elevação de micronutrientes, como zinco e cobre.

O tratamento que combinou 5 toneladas por hectare de LEC com 50% da adubação mineral recomendada apresentou os melhores resultados. Dessa forma, o modelo indica potencial de economia de fertilizantes convencionais. Além disso, aponta ganhos de produtividade.

Para Fernando Carvalho Oliveira, responsável técnico por fertilizantes orgânicos compostos da Tera Nutrição Vegetal e apoiador técnico do estudo da Unesp, o uso do composto representa uma alternativa estratégica para o setor agrícola.

Além disso, segundo ele, a solução marca um avanço para a agricultura sustentável no Brasil.

Isso ocorre porque os fertilizantes orgânicos compostos podem reduzir a dependência de fertilizantes minerais importados. Ao mesmo tempo, diminuem os custos de produção. Por fim, também fortalecem a economia circular no setor agrícola.

Potencial

O movimento ocorre em um contexto de transformação no setor. Levantamento da Associação Brasileira das Indústrias de Tecnologia em Nutrição Vegetal (Abisolo) identificou 872 empresas ativas na produção e importação de fertilizantes no país em 2024.

Sendo 476 voltadas à orgânicos e 11 a biofertilizantes. Entre 2020 e 2024, 129 novas empresas passaram a operar no segmento, muitas delas focadas em soluções alinhadas à sustentabilidade.

Embora os fertilizantes minerais ainda dominem o mercado, o avanço regulatório, a busca por redução de custos e a necessidade de maior eficiência no uso de recursos naturais indicam que alternativas como o reaproveitamento do lodo de esgoto tendem a ganhar espaço como parte da estratégia produtiva no campo.

Por fim, dados da Mordor Intelligence estimam que o mercado global de fertilizantes orgânicos compostos pode alcançar até US$ 15,74 bilhões até 2029. Com uma taxa de crescimento anual composta de 9,09%; em 2024, esse mercado movimentou cerca de US$ 10,19 bilhões no mundo.

Fonte: Um Só Planeta


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