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Irrigação e competição pelo uso da água

Por Camila Souza Ramos

A cultura da cana, que vem penando nos últimos anos para assegurar seus níveis de produtividade, ainda usa a irrigação muito mais para garantir sua sobrevivência e dar um destino para a vinhaça ( subproduto da fabricação de etanol ) do que para ampliar seu rendimento. Nas áreas mais antigas de canaviais, concentradas no Estado de São Paulo, a irrigação é basicamente para “salvar” a cultura. Mas nas fronteiras mais recentes, abertas na última década em regiões que chovem menos, como Goiás, a irrigação é mais intensiva, ainda que também considerada indispensável.

O cenário da irrigação da cana no Centro-Sul foi traçado por um estudo feito em conjunto entre a Agência Nacional de Águas (ANA) e a consultoria Agrosatélite, a partir de imagens de satélite e pesquisas de campo com usinas na safra 2015/16. O trabalho considerou apenas áreas produtivas que responderam à irrigação. De acordo com o levantamento, a irrigação foi utilizada em 1,72 milhão de hectares de cana naquela temporada. Essa extensão é equivalente a 80 % da área do Estado de Sergipe, e representou 17 % da área total de cana no CentroSul ( que somou 9,3 milhões de hectares ). Do total da área irrigada, em 98,4 % a técnica foi considerada de “salvamento” – termo usado para classificar a irrigação indispensável para a cultura. Nesses casos, a irrigação é feita com quantidades consideradas “mínimas” de água e vinhaça, com 20 milímetros a 80 milímetros por ano – alturas muito baixas em comparação com a quantidade de chuvas em algumas regiões. Dessa quantidade, nem tudo é água, já que muitas vezes a irrigação é mais utilizada como forma de dar uma destinação para a vinhaça, rica em potássio e utilizada como espécie de fertilizante, segundo Wagner Vilela, coordenador de planos de recursos hídricos da ANA. Como muitas vezes a vinhaça é aplicada isoladamente, ou a água que é aplicada vem de reúso, é difícil apurar o volume do recurso hídrico despendido na irrigação, explica. Como o estudo é inédito, não há como comparar a evolução da irrigação nos canaviais, mas Vilela acredita que a expansão da técnica está diretamente ligada ao próprio crescimento do setor. Conforme a fronteira da cana foi se expandindo na última década, a produção de etanol foi crescendo, gerando consequentemente mais vinhaça. Conforme o levantamento, a cada litro de etanol que sai da usina são produzidos 10 litros de vinhaça. São Paulo, por ser o principal Estado produtor de cana, abrigando metade da área cultivada com a cultura no Centro-Sul em 2015/16, foi responsável pela maior extensão com canaviais irrigados na região, com 774,5 mil hectares. Em relação ao total, porém, a irrigação atingiu 13 % da extensão cultivada. Toda essa área foi considerada como irrigação de “salvamento”. Já em Goiás e Minas, que além de serem fronteiras mais recentes da cultura da cana têm déficits hídricos mais significativos, a irrigação abrange parcelas maiores.

irrigacao

Nas lavouras goianas, 383,9 mil hectares foram irrigados naquela temporada, ou 35,3 % do total. Dessa extensão, 7,5 mil hectares receberam entre 200 milímetros a 300 milímetros no ano – considerada uma irrigação “com déficit”. Nas lavouras mineiras, a irrigação abrangeu 342,2 mil hectares, ou 33,6% da cana cultivada. Dessa área, 12,8 mil hectares tiveram irrigação “plena”, em que a altura da água com vinhaça fica entre 300 a mil milímetros por ano. É na confluência entre as fronteiras desses dois Estados que a irrigação é mais intensiva. Nos municípios mineiros de Unaí e Paracatu, bem próximos a Goiás, toda a área de cana foi irrigada na safra 2015/16. Nessas regiões, é mais frequente o uso de pivôs, que permitem uma irrigação mais volumosa. “Nessas regiões é onde de fato é usada a irrigação para a produtividade de cana. Mas o setor, aparentemente, ainda não se ateve à capacidade que a irrigação tem para elevar a produtividade. E tem uma capacidade muito alta”, diz o coordenador da ANA, que cita exemplos de produtividade acima de 100 toneladas de cana por hectare irrigado. Segundo Vilela, apesar do consumo de água na irrigação de cana ser considerado baixo, há regiões em que há mais disputa por água, como na região de Ribeirão Preto. “A irrigação não é esse vilão que se prega, mas temos que ter cuidado para onde o uso vai se intensificando.” Por enquanto, porém, não há perspectiva de expansão da irrigação na cana, já que o setor também está estagnado, disse Bernardo Rudorff, presidente da Agrosatélite. Além disso, em um momento em que as usinas ainda evitam fazer aportes elevados como no passado, a irrigação é vista como uma técnica cara. “O investimento é muito alto, então é preciso ter um retorno bem significativo”, afirmou Rudorff.

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