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Microplásticos nos oceanos – um problema sem fim à vista

Resumo

Os microplásticos (plásticos <5 mm) resultam na sua maioria de partículas de maiores dimensões, que sofrem degradação foto-química e abrasão, são persistentes e encontram-se quer a flutuar à superfície quer em suspensão na coluna de água quer depositados nos fundos e também nas praias. Facilmente confundidos com alimento devido ao seu tamanho, os microplásticos são vectores potenciais na transferência e exposição dos organismos marinhos a poluentes persistentes orgânicos (POP) de elevada toxicidade, compostos hidrofóbicos que adsorvem facilmente às partículas de plástico. A ingestão de microplásticos constitui uma ameaça de longo-termo para os organismos marinhos, não só pela possível obstrução mecânica do aparelho digestivo mas também pelos efeitos tóxicos dos POP.

O interesse por este tema tem vindo a aumentar especialmente após a descoberta de uma mancha muito extensa de plásticos acumulados no Giro do Oceano Pacífico Norte e de trabalhos que chamaram a atenção da comunidade científica para o facto da quantidade de plástico ser superior à quantidade de plâncton em várias zonas dos oceanos.

Recentemente, investigadores japoneses e americanos relataram níveis elevados de POP em grânulos de plástico (pellets) recolhidos em praias e águas costeiras um pouco por todo o Mundo. A ingestão de micropartículas de plástico por vários grupos de invertebrados foi confirmada por investigadores do Reino Unido, que relataram a sua translocação para o sistema circulatório no mexilhão, aumentando as preocupações pelo facto das micropartículas uma vez ingeridas poderem vir a afectar órgãos vitais.

Em Portugal a investigação sobre este tema foi iniciada em 2008 com as primeiras recolhas de microplásticos em praias e a análise de hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, PAH, bifenis policlorados, PCB e o insecticida DDT, adsorvidos aos pellets verificando-se que todos apresentam contaminação. Os microplásticos que ocorrem nas praias da costa ocidental perfazem 71% to total de plásticos e os mais abundantes situam-se entre os 3 e os 5 mm de diâmetro (59%). Foi ainda realizada uma pesquisa desse tipo de partículas em amostras de plâncton recolhidas ao largo da costa portuguesa em 2002 e de 2005 a 2008 tendo-se observado a presença de plástico em 63 % das amostras de plâncton.

Introdução

O impacto dos resíduos de plástico nos organismos marinhos tem sido amplamente documentado especialmente quando se trata de resíduos de uma dimensão apreciável, como é o caso das redes derivantes e outros materiais relacionados com a actividade da pesca, sacos de plástico e resíduos de embalagens. Relativamente aos fragmentos de pequenas dimensões, que são em grande parte resultantes da degradação do plástico no mar, a informação escasseia.

A poluição dos oceanos por estes fragmentos designados microplásticos, uma categoria ampla que inclui todos as partículas menores que 5 mm, é extremamente preocupante devido à sua ubiquidade, persistência, e por serem um potencial vector de exposição e transferência de compostos orgânicos persistentes de elevada toxicidade (Thompson et al. 2004). A dispersão e acumulação de plásticos é um problema crescente à escala global, afectando todos os ambientes marinhos (Gregory, 2009; Moore, 2008) encontrando-se plástico a flutuar à superfície, em suspensão na coluna de automóvel e na construção, e ainda em inovação para criação de novos polímeros que satisfaçam o uso com menor impacto ambiental.

Se é verdade que nos últimos anos muitos países têm investido numa mais eficaz gestão de resíduos e na redução dos impactos do plástico, encaminhando quantidades cada vez maiores de resíduos para o aterro ou recuperando o seu valor através do aumento das taxas de reciclagem e da valorização energética, também não deixa de ser verdade que existe uma quantidade indeterminada de resíduos plásticos que escapam a este ciclo, para não falar das quantidades que foram descartadas durante décadas, quando a gestão de resíduos dava os seus primeiros passos.

A presença de grânulos ou pastilhas de resina virgem (pellets) depositados nas praias é igualmente comum. Fugas acidentais mas por ventura frequentes da matéria-prima aquando da sua transferência dos navios para os camiões de transporte, e destes para as unidades de conversão e moldagem, poderão estar na origem destas ocorrências. Estas partículas são facilmente arrastadas pelas chuvas para os cursos de água e para o mar. Quando as resinas são transportadas a granel em navios, a lavagem de tanques é também uma fonte potencial de introdução de pellets no meio marinho.

Do plástico produzido 40% é descartado no prazo de um ano, sobretudo o plástico utilizado no sector das embalagens, e não existam estimativas fiáveis sobre as quantidades que atingem os oceanos, estima-se que a maior parte (60 a 80%) dos detritos marinhos sejam compostos por plástico (Derraik, 2002).

A descoberta de uma área extensa de acumulação de resíduos plásticos no Giro do Pacífico Norte e a constatação de que nesse local a concentração de plástico era 6 vezes superior à de plâncton colhido à superfície por uma rede com 0,333 Sm de malha (Moore et al., 2001) trouxe para a comunidade científica e para os meios de comunicação a evidência de que o problema do plástico nos oceanos tinha uma dimensão nunca antes admitida.

No Atlântico os registos de detritos plásticos datam da década de 70 (Carpenter, et al. 1972 e Colton, et al. 1974) e segundo Barnes (2002) no Reino Unido a sua quantidade duplicou entre 1994 e 1998. A maior percentagem de resíduos era então proveniente das actividades marítimas como a pesca.

Actualmente, 70 a 80% dos detritos plásticos têm origem terrestre (Bowmer e Kershaw, 2010), facto ao qual não será estranho o padrão mundial de concentração da população na orla costeira. No litoral de Portugal Continental habitam entre 52 e 60% da população total do país, sendo também a zona onde existem todo o tipo de actividades do sector primário, secundário e terciário (INE, 2011).

Autores: Paula Sobral; João Frias e Joana Martins.

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