A pior das poluições

Por: José Eli da Veiga

Aterrorizante questão de saúde coletiva põe em xeque qualquer ambição de desenvolvimento sustentável : os impactos cerebrais dos “desreguladores endócrinos“. Também chamados de “disruptores”, “interferentes” ou “perturbadores”, são poluentes sintéticos que bagunçam o funcionamento das glândulas que controlam metabolismo, funções reprodutivas, crescimento, sistema nervoso e desenvolvimento cerebral. Órgãos que vão das suprarrenais e pâncreas aos testículos e ovário, passando pelo eixo estratégico tireoide/hipófise.

poluicao

Além de provocarem doenças como diabetes e obesidade, são eles os causadores das brutais explosões de casos de crianças com déficit de atenção, hiperatividade, baixíssimos QI, retardos mentais e autismo. Assim como em meados dos anos 1960 foi constatado que a carência de iodo era a causa do “cretinismo endêmico”, descobre-se nos anos 2000 que tamanha erosão de funções cognitivas está sendo provocada pelo uso trivializado de uma infinidade de substâncias compostas principalmente por bromo, cloro e flúor : bifenilos policlorados (PCBs), bisfenóis, ftalatos, parabenos, perfluorados e triclosanos.

Por exemplo : espumas que supostamente seriam controladoras da propagação de chamas continuam a ser lançadas por aqui como se fossem milagrosas, graças à ignorância do escândalo e da proibição que causaram há quase meio século nos EUA. São tóxicos extremamente comuns em alimentos industrializados, cosméticos, produtos de cuidados pessoais ( como sabonetes, loções, desodorantes e dentifrícios ), plásticos, tecidos sintéticos, colchões, materiais de construção, e, obviamente, produtos de limpeza e praguicidas domésticos. Tudo vendido pelo comércio varejista sem qualquer tipo de cuidado e informação, ao contrário do que ocorre com muitos remédios e alguns praguicidas agropecuários, pois estes estão, em princípio, sujeitos a receituário e instruções de uso, além de explícitos alertas sobre os riscos.

Em 2009, as 50 páginas do “Statement of the Endocrine Society on Endocrine-Disrupting Chemicals” já haviam enfatizado o quanto os desreguladores podem ser deletérios à inteligência. Em especial, a altíssima probabilidade de seriíssimo dano à formação do cérebro do feto sempre que a gestante tenha tido contato com tais poluentes nos primeiros meses da gravidez. A novidade é que esse alerta acaba de ser ratificado no periódico “Endocrine Connections” (2018, 7, R160-R186), mediante revisão de 433 trabalhos: “Thyroid-Disrupting Chemicals and Brain Development : An Update”.

Metanálise conduzida sob a liderança da endocrinologista britânica Barbara Demeneix, há muitos anos trabalhando na França ( CNRS ), que teve participação de destaque em recente documentário do canal franco-germânico Arte, disponível no YouTube : “Demain, Tous Cretins ?”. O filme contou com depoimentos de muitos pesquisadores de renome, entre os quais: Brenda Eskenazi ( Universidade da Califórnia/Berkeley ), Virginia Rauh ( Universidade de Columbia ), Irva Hertez-Picciotto ( Universidade da Califórnia/Davis ), Tom Zoeller ( Universidade de Massachusetts/Amherst ) e Arlene Blum ( Green Science Policy Institute ).

Dada a gravidade do problema, ele tem sido intensamente debatido no Primeiro Mundo, particularmente na União Europeia ( Parlamento e agências reguladoras ). Mas, infelizmente, ainda não sensibilizou a opinião pública brasileira. É para tentar remar contra essa maré que, com ajuda da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia ( SBEM ), em breve vão se realizar em São Paulo duas esclarecedoras conversas abertas. O Instituto de Estudos Avançados da USP ( www.iea.usp.br ) acolherá na tarde da segunda-feira, dia 12, duas especialistas da SBEM. E, no dia 13 de dezembro, haverá estreia de versão legendada do referido filme na Sala Crisantempo (www.salacrisantempo.com.br).

José Eli da Veiga, professor sênior do Instituto de Energia e Ambiente ( IEE/USP – www.iee.usp.br ), também mantém dois sites : www.zeeli.pro.br  e  www.sustentaculos.pro.br

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