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Transformação de resíduo do couro para aplicação como fertilizantes

Resumo

Brasil é o maior produtor de rebanho comercial do mundo, o que o torna um grande gerador de resíduo sólido proveniente do processamento do couro em curtumes. Com quase 120 mil toneladas por ano de resíduo do couro gerados e descartado em aterros, o presente estudo visa propor uma alternativa à destinação adequada para o rejeito em questão, já que são classificados como perigosos por apresentarem em sua composição o elemento cromo (Cr), que confere alta toxicidade ao ambiente e à saúde humana quando não descartado corretamente. Dentre as diversas formas de descartes dos resíduos, as principais são a compostagem, coprocessamento, incineração e aterros sanitários, dos quais o último recebe cerca de 60% de seus resíduos oriundos da industrialização do couro, contaminando lençóis freáticos e o solo. Para o reaproveitamento desses materiais sólidos descartados pela indústria, será necessário um tratamento prévio, o qual extrai o cromo presente através de técnicas e materiais simples, posteriormente o resíduo líquido será precipitado em forma de sulfato de cromo, facilmente empregado em diversas áreas industriais e até mesmo no próprio processo produtivo. O material remanescente livre de cromo estará repleto de nitrogênio em forma de colágeno, grande aliado no desenvolvimento de plantas e um dos principais componentes presente em fertilizantes, dessa forma o mesmo será enriquecido com fósforo aumentando ainda mais a sua empregabilidade.

Introdução

Dos diversos impactos ambientais que o processo de globalização trouxe para a modernidade, um deles consiste no grande desafio em encontrar soluções e um bom gerenciamento para a grande quantidade de resíduos sólidos gerados diariamente em todo o mundo.

No Brasil, por exemplo, produz-se em média cerca de 387 quilos de resíduos sólidos por habitante a cada ano, número que se aproxima de países economicamente desenvolvidos, como Croácia (387 quilos) e Hungria (385 quilos), porém só se faz o descarte adequado de pouco mais de 58% (GIRARDI, 2016). A escassa padronização da destinação dos resíduos ainda faz com que se tenha pouca reciclagem, e que sejam enviados para lixões a céu aberto, é o que mostra o estudo realizado pela Associação Brasileira das Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (ABRELPE).

A falta de gerenciamento e estrutura para destinação dos resíduos tem agravado os problemas ambientais, principalmente os classificados como perigosos, que devem ser tratados antes da disposição final, por serem altamente contaminantes e prejudiciais à saúde. Os classificados como perigosos, somando-se todas as regiões do Brasil obtém-se um valor de 3.786.391 toneladas por ano.

Atualmente o país possui o maior rebanho comercial do mundo, exportando US$ 6,28 bilhões em 2017 para cerca de 80 países. O setor coureiro, que representa quase US$ 2 bilhões, é um grande propulsor da economia nacional, que conta com mais de 2,8 mil indústrias gerando 42,1 mil empregos diretos (CENTRO DAS INDÚSTRIAS DE CURTUMES DO BRASIL- CICB, 2018).

Contrapondo esses excelentes números, encontra-se a problemática da poluição ambiental. Durante o processamento do couro produz-se uma enorme quantidade de resíduos sólidos e líquidos, entre eles: peles, serragens, aparas, efluentes e lama. O tratamento possui como principal agente curtente o sulfato de cromo (III), assim, os resíduos gerados após esse processo como aparas, pó de couro e serragem são classificados como Classe I – Perigosos (ABNT – NBR 10004) que exigem um tratamento e disposição especial. De acordo com a Resolução do CONAMA nº 313/2002, há uma lista de Resíduos Classe I, que os caracterizam e identificam através de códigos, os que serão avaliados neste estudo, são classificados como K193 – aparas de couro curtido ao cromo e K194- serragem e pó de couro contendo cromo. O problema encontra-se no não cumprimento das exigências, e quando descartados de forma incorreta podem se transformar em Cromo (IV), extremamente prejudicial à saúde, tóxico e cancerígeno (KOLOMAZNIK, 2008).

Uma alternativa à destinação dos resíduos do couro que contém em sua composição cerca de 4% de cromo (Cr) e 14% de nitrogênio (N), está na extração do cromo através da técnica patenteada pelo processo Br. PI 001538 (UNIVERSIDADE FEDERAL DE LAVRAS – UFLA, 2004). O procedimento é capaz de remover até 99,6% de cromo III, através do agente complexante sal dissódicoetilenodiaminotetraacético (EDTA), obtendo-se sulfato de cromo que pode ser reutilizado no processo de curtimento com um simples tratamento com ácido sulfúrico. Há também uma segunda alternativa ao tratamento, em que se realiza a hidrólise do couro utilizando hidróxido de sódio (NaOH), estudo patenteado pela Mestre Diana Quintão Lima Oliveira da Universidade Federal de Lavras – UFLA.

Há diversos estudos que comprovam o uso eficaz na aplicação dos resíduos proveniente de curtumes como fertilizantes e corretivos de acidez devido a sua grande quantidade de nitrogênio na sua forma orgânica. Para conferir um maior desempenho e aproveitamento do colágeno obtido, o presente estudo visa também enriquecê-lo com fósforo, formulando assim um agente com um maior valor agregado para agricultura.

Autores: Alloma S. Gosdag, Jeniffer K. Marques dos Santos e José Pedro Thompson Junior.

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