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Rios poluídos expõem o atraso do saneamento ambiental no Brasil

Rios poluídos expõem o atraso do saneamento ambiental no Brasil

Florestas, uso do solo e água integram o mesmo sistema. A maneira pela qual nos relacionamos com as matas, ocupamos os territórios e tratamos nossos resíduos define diretamente a qualidade da água dos rios.

Nesse sistema, porém, existe um elo negligenciado no debate ambiental brasileiro: o saneamento ambiental. Sem coleta e tratamento adequados de esgoto, os rios continuam funcionando como destino de efluentes domésticos e industriais e de poluentes, além de sofrerem com assoreamento.

Em 2025, voluntários do programa Observando os Rios, da Fundação SOS Mata Atlântica, realizaram análises em 128 rios e corpos d’água de 14 estados do bioma. Dos pontos monitorados, 78,4% foram considerados regulares, 15,4% ruins e 3,1% péssimos. Apenas 3,1% apresentaram água boa – e, mais uma vez, nenhum registrou qualidade ótima.

Em retrospecto, o que vemos é uma estagnação preocupante. Se reabilitar um rio exige décadas de investimento, planejamento e mobilização social, poluir é rápido. Afinal, menos da metade da população conta com coleta e tratamento de esgoto adequados: uma parcela significativa dos resíduos urbanos continua, portanto, a ter como destino os cursos d’água.

Esse quadro se soma ao desmatamento nas bacias hidrográficas, à contaminação por atividades industriais e agrícolas e ao crescimento urbano desordenado. Segundo o MapBiomas, as áreas urbanizadas no Brasil aumentaram duas vezes e meia em 40 anos.

O resultado é a degradação contínua da qualidade da água. Rios contaminados e com entornos degradados perdem a capacidade de diluir poluentes, evitar inundações – pois ficam assoreados – e sustentar ecossistemas aquáticos. Num contexto de eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, com secas severas de um lado e chuvas intensas de outro, essa fragilidade hídrica se torna ainda mais preocupante e exige gestão integrada e investimento em políticas públicas de proteção e de restauração ambiental para adaptação.

Rios poluídos expõem o atraso do saneamento ambiental no Brasil

A Mata Atlântica, que concentra mais de 70% da população brasileira, tem papel estratégico nesse cenário. Mesmo reduzido a cerca de um quarto de sua cobertura florestal original, o bioma abriga bacias hidrográficas responsáveis pelo abastecimento de grandes regiões metropolitanas. A degradação de nascentes, zonas de recarga de aquíferos e matas ciliares afeta diretamente a quantidade e, sobretudo, a qualidade da água disponível.

Portanto, falar sobre rios é discutir política pública. O Código Florestal é essencial para a segurança hídrica do país, mas ainda avança de forma lenta e desigual, assim como a Lei da Mata Atlântica, atacada por projetos de lei que tramitam na contramão do que precisamos.

A universalização do saneamento, prevista no marco legal do setor até 2033, precisa deixar de ser promessa e se tornar prioridade real de investimentos e planejamento. Nos últimos anos, o debate público se concentrou na privatização dos serviços de saneamento. O ponto central, porém, deveria ser outro: fazer com que os investimentos cheguem na ponta, para que os serviços avancem e diminuam as desigualdades. Mas os rios nos mostram que isso não vem acontecendo.

Experiências locais apontam que podemos fazer diferente. Melhorias registradas em alguns pontos monitorados estão diretamente associadas à ampliação da rede de coleta e tratamento de esgoto, programas municipais de regularização de ligações clandestinas, restauração de florestas e recuperação de bacias hidrográficas.

Quando políticas públicas estruturantes são implementadas de forma integrada e consistente, os rios respondem. Protegê-los é prioridade estratégica de desenvolvimento.

Escrito por Gustavo Veronesi (Coordenador da causa Água Limpa da Fundação SOS Mata Atlântica) e Malu Ribeiro (Diretora de políticas públicas da Fundação SOS Mata Atlântica).

Fonte: JOTA.info


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