No dia 17 de maio de 2026, foi celebrado o Dia Mundial da Reciclagem. A data deveria servir não apenas para campanhas institucionais e discursos protocolares, mas principalmente para uma profunda reflexão sobre a realidade brasileira na gestão de resíduos sólidos e no reaproveitamento de materiais recicláveis.
Infelizmente, o Brasil ainda convive com uma realidade vergonhosa: reciclamos muito menos do que poderíamos, desperdiçamos bilhões de reais em materiais reaproveitáveis e seguimos tratando resíduos sólidos como problema secundário nas políticas públicas.
No estado do Rio de Janeiro, o cenário ainda é extremamente preocupante. Estudos e diagnósticos apontam que a coleta seletiva permanece incipiente em grande parte dos municípios fluminenses, com índices historicamente baixos e cobertura mínima em diversas cidades da região metropolitana. Em levantamentos técnicos anteriores, municípios como Itaguaí apresentavam índices reduzidos de coleta seletiva porta a porta, enquanto São João de Meriti praticamente não possuía cobertura significativa.
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Sem vontade política, o lixo continuará enterrando oportunidades
A verdade é dura: o poder público brasileiro ainda investe pouco em reciclagem, pouco valoriza cooperativas de catadores e quase nunca transforma a gestão de resíduos em prioridade estratégica de governo. Falta planejamento,investimento e estrutura. Mas, principalmente, falta decisão política.
Enquanto toneladas de resíduos recicláveis seguem sendo enterradas diariamente em aterros sanitários, perdemos empregos, renda, inclusão social, matéria-prima e oportunidade de reduzir impactos ambientais e emissões de gases de efeito estufa.
Ao longo da minha trajetória à frente de secretarias municipais de meio ambiente, sempre tratei a pauta dos resíduos sólidos e da reciclagem como prioridade absoluta. Não apenas pelo aspecto ambiental, mas também pelo impacto social e econômico que ela representa.
Em Mangaratiba, trabalhamos fortemente na organização ambiental do município, ampliando o debate sobre destinação adequada de resíduos e fortalecendo ações ligadas à gestão ambiental integrada. Já em Itaguaí, avançamos em políticas ambientais estruturantes e no fortalecimento de instrumentos ligados ao gerenciamento de resíduos sólidos e educação ambiental.
Agora, em São João de Meriti, seguimos com esse compromisso de maneira ainda mais firme. A atual gestão municipal vem implantando normas, regulamentando atividades e promovendo avanços concretos na política pública de resíduos sólidos. Um dos marcos mais importantes foi a criação do Programa Municipal de Coleta Seletiva e Inclusão Social, além da regularização ambiental de cooperativas de reciclagem com apoio direto da prefeitura.
Recentemente, a Prefeitura de São João de Meriti entregou a primeira licença ambiental unificada para uma cooperativa de reciclagem da cidade, beneficiando dezenas de famílias e promovendo segurança jurídica para trabalhadores historicamente invisibilizados pelo poder público.
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Reciclagem
Mais do que uma ação administrativa, isso representa respeito aos catadores, fortalecimento da economia circular e reconhecimento de que reciclagem também é política social.
Não existe cidade sustentável sem política séria de resíduos sólidos. Não existe combate efetivo às mudanças climáticas ignorando reciclagem, reaproveitamento e economia circular. E não existe avanço ambiental sem equipes técnicas qualificadas e comprometidas.
Mas é importante deixar uma verdade muito clara: nenhum secretário municipal consegue avançar sozinho nessa pauta. Para que políticas públicas ambientais saiam do papel, é indispensável que exista vontade política do chefe do Poder Executivo.
Quando há um prefeito comprometido com sustentabilidade, aliado a uma equipe técnica experiente e preparada, os resultados aparecem. Cooperativas são fortalecidas, programas são implantados, a população é conscientizada e a cidade avança.
Reciclagem não pode ser tratada apenas como discurso de campanha ou pauta de datas comemorativas. Ela precisa ser entendida como investimento em saúde pública, desenvolvimento econômico, inclusão social e qualidade de vida.
O lixo que hoje enterramos poderia estar gerando emprego, renda e sustentabilidade. O problema nunca foi falta de solução. O problema sempre foi falta de prioridade.
Escrito por Antonio Marcos Barreto, Gestor ambiental.
Fonte: Diário do Rio