saneamento basico
Maior lago da América do Sul enfrenta uma mistura de esgoto, nutrientes e vazamentos de óleo que alimenta uma floração de cianobactérias vista até por satélite

Maior lago da América do Sul enfrenta uma mistura de esgoto, nutrientes e vazamentos de óleo que alimenta uma floração de cianobactérias vista até por satélite

Lago Maracaibo virou tapete verde e lama tóxica e o preço da era do petróleo na Venezuela agora ameaça pessoas, peixes e toda a região. Moradores relatam doenças de pele, pesca em queda e água imprópria.

O Lago Maracaibo, no estado de Zulia, no noroeste da Venezuela, atravessa uma deterioração ambiental que deixou de ser apenas local e virou alerta regional. O que se vê da margem, muitas vezes, é uma superfície verde intensa que parece vegetação comum, mas que pode indicar proliferação de microrganismos associada à poluição.

Na prática, o lago virou um retrato concentrado de décadas de exploração e de falhas de saneamento. Óleo em manchas, resíduos urbanos e descargas de efluentes ajudam a explicar por que a água perdeu transparência e por que a fauna se afastou de áreas onde antes era abundante.

O impacto não fica no ecossistema. Pescadores e famílias que vivem em palafitas e comunidades ribeirinhas relatam queda nas capturas, redes inutilizadas por óleo e problemas de saúde após contato frequente com a água.

O drama ganha peso porque se trata de um dos maiores corpos d’água do continente. O Maracaibo é um grande corpo conectado ao mar, com área na casa de 13 mil quilômetros quadrados, frequentemente citado como o maior da América do Sul.

O que está acontecendo no Lago Maracaibo agora

A cobertura verde conhecida localmente como verdín já foi registrada em grandes manchas, formando um “tapete” que se espalha com ventos e correntes. Esse tipo de floração é compatível com eutrofização, quando nutrientes em excesso aceleram o crescimento de organismos na água.

Imagens de satélite ajudam a dimensionar o problema e a acompanhar sua evolução. Esse monitoramento indica que o fenômeno não é pontual e pode se intensificar conforme a combinação de calor, nutrientes e pouca circulação em certas áreas.

Por que o verdín se espalha e quais riscos ele traz

O verdín é associado a cianobactérias que podem se multiplicar rapidamente quando há muito nitrogênio e fósforo na água. Em linguagem simples, é como se o lago recebesse “fertilizante” demais, criando condições para um crescimento descontrolado.

Quando a floração se intensifica, a água tende a perder oxigênio em certas áreas e horários, afetando peixes e outros organismos. Relatos locais e explicações de especialistas descrevem justamente esse efeito, com a vida aquática evitando as margens e episódios de mortandade.

Há também uma preocupação sanitária. A proliferação de cianobactérias pode gerar toxinas e causar danos a animais e pessoas, especialmente em comunidades que dependem do lago para tarefas diárias.

O verdín também funciona como um bloqueio físico e biológico. Ele reduz a passagem de luz, altera o equilíbrio do ecossistema e pode piorar a qualidade da água mesmo quando a camada verde parece “só” uma sujeira superficial.

O risco aumenta quando o contato com a água é inevitável, algo comum em regiões com acesso irregular a serviços básicos. Mesmo quando há ações pontuais de limpeza, elas tendem a atacar só a superfície do problema e não suas causas.

Petróleo, dutos envelhecidos e a crise da infraestrutura

O Maracaibo é historicamente um polo do petróleo venezuelano, e isso virou parte do problema ambiental. Há descrições técnicas e científicas apontando que milhares de estruturas e quilômetros de dutos na região se degradaram com falta de capital e manutenção, elevando o risco de vazamentos e contaminação recorrente.

A própria dimensão da malha petrolífera no lago ajuda a entender a dificuldade de controle. Uma rede extensa de oleodutos e instalações antigas cruzando o fundo do lago amplia os pontos potenciais de falha, e cada vazamento vira mais um combustível para a degradação.

Esse cenário aparece em análises recentes sobre a indústria do país. O setor vive queda de produção em relação ao pico histórico e carrega sinais de subinvestimento e problemas operacionais, o que limita respostas rápidas e amplas quando ocorrem acidentes.

Esgoto e fertilizantes também empurram o lago para o colapso

O petróleo é central, mas não explica sozinho. A cobertura verde é alimentada por poluição, com descargas que chegam ao lago e mudam sua coloração e qualidade da água.

O componente urbano e agrícola entra no mesmo ciclo. Nutrientes ligados a esgoto sem tratamento e a fluxos que chegam de áreas vizinhas elevam nitrogênio e fósforo, criando o ambiente ideal para a floração. O resultado é um círculo vicioso em que a poluição alimenta o verdín e o verdín piora a água.

Comunidades ribeirinhas pagam primeiro com pesca menor e mais doenças

Na economia local, a pesca é um termômetro rápido. Pescadores dizem que a captura caiu e que redes e motores sofrem com óleo e sujeira, tornando a atividade mais cara e menos previsível.

O problema também aparece no corpo. Há relatos de erupções e irritações na pele atribuídas ao contato com a água contaminada, algo compatível com exposição frequente a poluentes e a florações biológicas.

Quando a renda some, cresce a pressão para permanecer no mesmo ambiente degradado, porque mudar custa caro. Essa armadilha social torna o desastre ambiental também um problema de sobrevivência e de saúde pública.

E há um efeito invisível, mas constante, na alimentação. Menos peixe e marisco significam menos proteína disponível e mais dependência de cadeias de abastecimento que já são frágeis em períodos de crise econômica.

O que precisaria mudar para o Maracaibo respirar de novo

Especialistas e organizações que acompanham o tema convergem em uma ideia simples. Sem saneamento, sem gestão de resíduos e sem controle efetivo de vazamentos, o lago tende a alternar surtos de floração e episódios de contaminação mais visíveis.

A recuperação também esbarra na realidade do setor petrolífero venezuelano. A produção segue abaixo do pico histórico e o debate político sobre controle e receitas do petróleo continua determinando prioridades, o que mantém o meio ambiente em segundo plano.

No Maracaibo, o desafio é juntar dois mundos que raramente conversam. Um plano crível exigiria manutenção pesada de infraestrutura, regras de fiscalização que funcionem e investimentos contínuos em tratamento de esgoto, não apenas ações emergenciais.

No fim, fica a pergunta incômoda para a Venezuela e para a região. O desastre do lago é mais consequência de má gestão e abandono interno, ou das condições externas que secaram investimento e capacidade técnica no país? Deixe seu comentário dizendo qual fator pesa mais e por quê, porque essa disputa de narrativa também decide quem vai pagar a conta da recuperação.

Fonte: CPG


Últimas Notícias:

CAGEPA abre consulta pública sobre PPP do saneamento

A Companhia de Água e Esgotos da Paraíba (CAGEPA) abriu a Consulta Pública nº 01/2025, etapa decisiva para a consolidação da Parceria Público-Privada (PPP) voltada à universalização e modernização dos serviços de esgotamento sanitário em 85 municípios das Microrregiões de Água e Esgoto do Alto Piranhas e do Litoral.

Leia mais »
Segue até fevereiro consulta pública da NR de diretrizes para reúso não potável de água de efluentes da prestação do serviço de esgotamento sanitário

Segue até fevereiro consulta pública da NR de diretrizes para reúso não potável de água de efluentes da prestação do serviço de esgotamento sanitário

O intuito dessa iniciativa da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) é receber contribuições da sociedade para o aprimoramento da proposta da norma de referência (NR) sobre diretrizes para o reúso não potável de água proveniente de efluentes da prestação de serviços públicos de esgotamento sanitário.

Leia mais »