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Gestão de resíduos sólidos e clima unem Brics

Aquela sobrinha de azeite que fica na frigideira e vai parar nos lixões ou é despejada na pia da cozinha compromete, e muito, os recursos hídricos do planeta. Cada litro de óleo é capaz de contaminar cerca de 20 mil litros de água potável, segundo dados do governo brasileiro. Basta multiplicar essa conta por milhões de pessoas para derrubar o argumento de que “só um pouquinho” não trará danos. “Precisamos nos dar conta, urgentemente, de que o gerenciamento de resíduos sólidos impacta, e muito, as mudanças climáticas e ambientais do planeta”, destaca Arlinda Cézar, presidente do Instituto Venturi Para Estudos Ambientais. O desafio, segundo ela, é encontrar soluções adequadas, tanto para o setor público quanto para o privado, e em escala mundial. Especialistas do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul irão se debruçar sobre o tema durante o 7º Fórum Internacional de Resíduos Sólidos (Firs), de 15 a 17 de junho, em Porto Alegre. “O grande mérito desse encontro é a troca de experiência entre o Brics”, afirma Arlinda, que coordena o Firs em parceria com o professor Carlos Alberto Mendes Moraes, da Unisinos, responsável pela área acadêmica do evento. Em pauta estará o quadro político, jurídico e técnico da gestão de resíduos em cada uma dessas nações, além do know how de outros países, como França e Suécia.
Jornal do Comércio – O Fórum Internacional de Resíduos Sólidos (Firs) chega a sua sétima edição. O que o evento conquistou até agora e quais os desafios futuros?
Arlinda Cézar – O Firs é considerado hoje o evento técnico e científico mais importante do Brasil quando o assunto é resíduos sólidos. Isso porque o evento trabalha de forma ampla, apresentando desde estudos acadêmicos até a visão de empresas e dos poderes públicos de diferentes países sobre o tema. Também contamos com empresas de base tecnológica que desenvolvem soluções focadas no mercado de reciclagem e com o relato de organizações de catadores de materiais recicláveis. Essa abrangência é fundamental para entender o papel de cada um dos atores da cadeia envolvida na gestão de resíduos sólidos e buscar soluções para questões que preocupam muito, como a poluição dos recursos do solo, ar e água. O principal desafio é entender de que forma ocorrem os mecanismos de biodegradação da massa desses rejeitos e como desenvolver o seu gerenciamento correto. Não adianta achar que vamos acabar com os aterros sem que haja uma preparação, com planos de gestão integrada, estrutura e tecnologia que garantam o destino desses rejeitos. Mais do que nunca, é preciso entender que os resíduos sólidos têm reflexos nas mudanças climáticas e ambientais, muito mais do que se imagina. O aquecimento global é um exemplo, pois tem ligação direta com os detritos em decomposição.
JC – De que forma os resíduos sólidos ampliam o efeito estufa?
Arlinda – Quando dispostos em lixões ou mesmo em aterros sanitários, os resíduos sólidos emitem gases de efeito estufa, como o gás carbônico e o metano. Somente o compartilhamento da responsabilidade na busca por mudanças pode fazer a diferença. Isso começa na ação de cada pessoa, orientando o próprio consumo com base no ciclo de vida de produtos e embalagens, cujo impacto é imediato. Precisamos integrar todo o sistema, da produção o à compra final.
JC – Um dos diferenciais do evento é sua abrangência. Há uma interação entre os setores que levam suas experiências para o fórum?
Arlinda – Essa interação existe e é fundamental, e ocorre justamente porque o fórum é um campo neutro: ele traz para as discussões e convívio de todos os agentes envolvidos. Empresas que fazem as coletas, por exemplo, escutam as demandas de organizações de catadores, e vice-versa. As pesquisas científicas geradas por universidades também servem de subsídio para essas pessoas que vivem da coleta seletiva.
JC – Houve algum resultado prático?
Arlinda – Várias ações resultam dos fóruns. Neste ano, iremos produzir um documento com o relato dos representantes do Brics quanto aos aspectos político, jurídico e técnico da gestão de resíduos e o apresentaremos à Organização das Nações Unidas (ONU), que terá uma noção exata do que está sendo feito nesses países. Na quarta edição, a troca de experiência entre acadêmicos e catadores resultou na adoção de um modelo de coleta pioneiro no estado de Ceará, e que envolveu também o poder público. O Local de Entrega Voluntária Escolar (Leve) tornou as escolas públicas ponto de coleta e transporte. O programa permite que os alunos sejam conscientizados sobre a importância do sistema de separação e se tornem agentes de multiplicação dessas ideias, pois passam a experimentar os princípios ambientais também em sala de aula. Além disso, as instituições de ensino que integram o Leve recebem 20% do valor coletado para a escola. Uma medida simples e eficaz que pode ser adotada em qualquer cidade.
JC – Quando se fala em amplitude do gerenciamento de resíduos, quais são os principais atores envolvidos?
Arlinda – O tema abrange áreas de direito, educação, planejamento e gestão ambientais, análise de ciclo de vida, design, embalagens, mudanças climáticas, logística reversa, produção mais limpa, tecnologias para tratamento de resíduos sólidos, recuperação de materiais e energia, organização de catadores e coleta seletiva. Dessa forma, o intercâmbio de práticas fica muito mais rico.
Informações adicionais:

Fonte: JC
Foto: MARCO QUINTANA/JC/Arlinda Cézar, presidente do Instituto Venturi Para Estudos Ambientais

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