Um verdadeiro tesouro é lançado ao lixo todos os anos. Escondidos nas carcaças de computadores, telefones celulares, aparelhos domésticos, veículos e todo tipo de parafernália da vida moderna estão materiais caros, muitos deles raros, que, paradoxalmente, acabam sendo comprados pela indústria a preço de ouro — ou de prata, cobre, alumínio, cobalto, lítio, entre outros minerais utilizados na manufatura de diversos produtos. Pela primeira vez, um painel de especialistas da União Europeia mapeou o quanto dessa matéria-prima valiosa vai parar no lixo. O argumento dos pesquisadores é que, se reciclada, essa montanha de descarte eletrônico poderia voltar às linhas de produção, resolvendo um problema econômico e, principalmente, ambiental.
As 17 instituições que participaram do projeto ProSUM (sigla em inglês de Prospectando Material Bruto nas Minas Urbanas e nas Minas de Lixo, em tradução livre) fizeram esse trabalho inédito considerando apenas o continente europeu. Ainda assim, os números impressionam. Em 2015, por exemplo, os países da União Europeia jogaram fora 2,7 milhões de toneladas de pilhas, gerando 2 milhões de toneladas de lixo. Dessa forma, 2,7 mil toneladas de cobalto foram descartadas, assim como 720 toneladas de lítio e 32 mil toneladas de manganês. Para se ter uma ideia, o cobalto é um importante componente para o refino de petróleo e na fabricação de solventes, entre outras aplicações. Já o lítio é fundamental para a construção de carros elétricos, enquanto o manganês é um dos mais importantes produtos da indústria siderúrgica.
O primeiro banco de dados de materiais valorosos jogados no lixo pelos europeus foi elaborado com base nos registros de resíduos sólidos da União Europeia, da Noruega e da Suécia, que têm um bom controle desse aspecto. O relatório lançado ontem revela, por exemplo, que, por ano, a quantidade de peças de carros, pilhas, computadores, telefones, gadgets e outros produtos tecnológicos chega a 18 milhões de toneladas. Isso equivale ao peso de três milhões de elefantes africanos. Embora descartado, é um material que está longe de ter alcançado o fim da vida útil. As peças podem não servir mais para a função original, mas as matérias-primas que as compõem têm potencial de reaproveitamento na indústria.
Até ouro vai parar no lixo. Foram 56 toneladas do elemento que pararam na pilha de descarte dentro de celulares e computadores — muitas pessoas não sabem, mas as placas desses equipamentos levam o metal precioso na composição. De platina, os pesquisadores calcularam 26 toneladas; e de alumínio, 1,2 milhão de toneladas. O ferro, material com aplicação em praticamente qualquer processo industrial, rendeu 10,4 milhões de toneladas de lixo em 2014. Nas contas dos pesquisadores, também entraram os descartes de plástico (2,4 milhões de toneladas), neodímio (1 mil toneladas), índio (30 toneladas), prata (170 toneladas) e paládio (47 toneladas).
Segundo os pesquisadores, em 2016, a Noruega, a Suécia e a União Europeia geraram 10,5 milhões de toneladas de lixo eletroeletrônico, cerca de 23% da produção mundial. Além disso, 2 milhões de toneladas de pilhas e cerca de 8 milhões de toneladas de veículos são descartados anualmente nesses locais. Esse trabalho se junta a um relatório mundial divulgado em dezembro pela Universidade das Nações Unidas, segundo o qual a quantidade de e-lixo vem aumentando — em 2016, o volume foi 8% maior que em 2014. O relatório apontou que, se todo o lixo eletrônico fosse colocado em um único lugar, se formaria uma montanha com o peso de nove pirâmides de Giza e de 4,5 mil torres Eiffel. Os produtos poderiam encher 1,23 milhão de caminhões de 18 rodas, com capacidade de 40 toneladas cada um, que, se enfileirados, fariam o trajeto Nova York-Bangcoc — ida e volta.
Impacto ambiental
As Nações Unidas também alertaram que, somando os cerca de 60 componentes valiosos e recuperáveis retirados do e-lixo produzido em todo o planeta em 2016, seriam gerados US$ 55 bilhões, que é mais do que o Produto Interno Bruto (PIB) da maioria dos países. Não se trata, porém, de uma questão meramente econômica. Ao contrário, a principal preocupação de especialistas em resíduos sólidos eletrônicos é o problema ambiental que eles geram. No ano retrasado, apenas 20% desse tipo de despojo foram recolhidos e reciclados. Cerca de 4% foram parar em lixões, e 76% (ou 34,1 milhões de toneladas) acabaram incinerados, aterrados, reciclados informalmente (e, portanto, de maneira insegura) ou continuaram armazenados nos lares.
Fruto de três anos de trabalho, o relatório lançado ontem pelo projeto ProSUM acaba por demonstrar, ainda que indiretamente, o excesso de consumo de produtos eletroeletrônicos. Se os equipamentos que foram deixados de lado em depósitos residenciais, de empresas e espaços públicos fossem distribuídos entre os habitantes da União Europeia, da Noruega e da Suécia, cada uma dessas pessoas teria quase 44 aparelhos e 12 lâmpadas econômicas. Em termos de volume, “cada habitante da Europa teria 250kg de eletrônicos, o que é três vezes o peso de um adulto, além de 17kg de pilhas e quase 600kg de veículos”, destaca Pascal Leroy, secretário-geral do WEEE Fórum, uma organização não governamental belga que participou do projeto.
“Até agora, dados sobre esses materiais críticos foram produzidos por uma variedade de instituições, incluindo agências governamentais, universidades, ONGs e indústria, mas não havia uma padronização dos dados, o que dificultava fazer comparações ou agregar os cálculos. Assim, não tínhamos um retrato fiel sobre a matéria-prima reutilizável no lixo eletroeletrônico”, afirma Jaco Huisman, pesquisador da Universidade das Nações Unidas e um dos coordenadores do ProSUM. “Na medida em que conseguimos identificar os maiores estoques de materiais específicos descartados que poderiam ser reutilizados, o ProSUM ajuda a remediar esse problema”, observa. “Saber mais sobre as quantidades e o conteúdo de matéria-prima (no lixo) é fundamental tanto para a pesquisa no campo da reciclagem quanto para convencer companhias de reciclagem a investir nesse tipo de produto. Além disso, os legisladores precisam dessas informações para desenvolver políticas públicas mais eficientes”, concorda Christer Forsgren, da Universidade Técnica de Chalmers, na Suécia, também integrante do projeto.
Brasil lidera produção
De acordo com o Global E-waste Monitor 2017, lançado em dezembro, o Brasil é o maior produtor de lixo eletrônico da América Latina, com mais de 2 milhões de toneladas em 2016. Em relação ao relatório de 2014, o crescimento foi de quase 10%. Segundo a ONU, o país não tem estatísticas padronizadas nem políticas de abrangência nacional para o manejo desse tipo de descarte. Também não há legislação específica sobre o descarte e a reciclagem de lixo eletroeletrônico.
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