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Carbono azul no radar do ESG por que investidores estão olhando para o oceano (1)

Carbono azul no radar do ESG: por que investidores estão olhando para o oceano

Por muitos anos, a agenda climática concentrou-se quase exclusivamente em soluções terrestres, como florestas e agricultura regenerativa.

Embora fundamentais, essas estratégias começam a se mostrar insuficientes diante da escala e da complexidade da crise climática. Nesse contexto, os oceanos passam a ocupar um espaço cada vez mais relevante nas discussões sobre sustentabilidade, gestão de riscos e investimentos responsáveis.

O chamado carbono azul, capturado e armazenado por ecossistemas costeiros como manguezais, marismas e pradarias marinhas, deixou de ser um tema restrito ao meio acadêmico e passou a integrar o universo ESG. Esses ecossistemas apresentam altas taxas de sequestro de carbono e, sobretudo, elevada capacidade de armazenamento de longo prazo em seus solos, o que aumenta sua eficiência climática.

Para investidores, esse diferencial técnico se traduz em vantagem estratégica. Projetos de carbono azul combinam mitigação de emissões com benefícios claros de adaptação climática, proteção costeira e preservação da biodiversidade. Manguezais, por exemplo, reduzem a exposição a eventos extremos, limitam a erosão e sustentam cadeias produtivas locais, como a pesca artesanal. Em um cenário de intensificação dos riscos climáticos físicos, ativos naturais com múltiplas funções passam a ser vistos como parte da infraestrutura essencial da economia.

O caso brasileiro evidencia tanto o potencial quanto a lacuna dessa agenda. O país abriga uma das maiores extensões de manguezais do mundo, incluindo o maior contínuo global, e, ainda assim, não conta com projetos estruturados de carbono azul voltados à proteção ou restauração desses ecossistemas. Essa ausência não reflete falta de oportunidade, mas a necessidade de maior articulação entre setor privado, poder público e sociedade civil para destravar esse ativo climático estratégico.

Esse movimento ocorre em paralelo ao avanço do debate global sobre o papel dos oceanos na política climática. As principais arenas internacionais vêm incorporando de forma mais consistente os ecossistemas marinhos e costeiros como parte das soluções para mitigação e adaptação. O carbono azul deixa de ser periférico e passa a integrar a arquitetura das respostas climáticas globais.

No Brasil, essa agenda também carrega uma dimensão social central. Muitas áreas de manguezais estão inseridas em Reservas Extrativistas Marinhas, onde vivem comunidades tradicionais que historicamente preservam esses territórios. Projetos bem estruturados dependem do engajamento dessas comunidades, com governança sólida e repartição justa de benefícios, reforçando a integridade ambiental e social das iniciativas.

O crescente interesse pelo oceano reflete uma mudança mais ampla na lógica do capital: a natureza passa a ser reconhecida como ativo estratégico. Para o Brasil, destravar o carbono azul significa ocupar uma posição de liderança em uma das fronteiras mais promissoras da economia climática, combinando conservação, desenvolvimento territorial e atração de capital de longo prazo.

Pedro Plastino – Cofundador da Joias Ecológicas da Amazônia, especialista em negócios climáticos e crédito de carbono, cofundador da Future Carbon e um dos nomes de referência no setor. Graduado em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas, construiu carreira nos mercados de carbono e financeiro, tendo liderado a área de créditos de carbono e negociações estratégicas na Future Climate Group, além de atuar em frentes como Equity, DCM e Asset Management. Foi Head de M&A na Potenza Capital, boutique afiliada ao BTG Pactual, e recentemente participou do Leadership Development Program da Harvard Business School, onde foi o único executivo de clima convidado mundialmente.

Fonte: NeoModo


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