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Falar em reúso de água no país ainda parece um palavrão

Falar em reúso de água no país ainda parece um palavrão

Escassez crescente, urbanização acelerada e desperdício exigem mudança urgente na gestão hídrica e no uso de águas residuais

A escassez hídrica ameaça roubar a alegria do Ano Novo. Grandes cidades padecem da falta de água para o abastecimento urbano e a irrigação agrícola poderá ser afetada. Preparem-se.

Veja o nível dos reservatórios de São Paulo. O sistema da Sabesp operou em dezembro com 26% de VU (volume útil), o pior momento desde 2015, quando havia caído para 22,3%. Estima-se, para março de 2026, chegar com apenas 30% de VU, muito abaixo de março de 2024, quando registrou 70% de VU. O cenário é desanimador.

Mudanças climáticas explicam só parte do problema. Além das ondas de calor, que fizeram aumentar, no final do ano, o consumo médio de água nas residências, o fenômeno El Niño, que traz chuvas abundantes na região, está fraco.

Tem mais. O IBGE estimou, para 2025, uma população de 11,9 milhões de habitantes na capital paulista, indicando um crescimento de 450 mil pessoas sobre a base de 2022. Em toda a região metropolitana, já residem 21,6 milhões de pessoas.

A urbanização prossegue acelerada com a verticalização das moradias. Torres e mais torres surgem sem parar, elevando a pegada hídrica sobre o restrito território. Ninguém fala em economia de água.

Cuidado com as narrativas enganadoras do mundo da política. A escassez de água paulistana não tem nada a ver com a privatização da Sabesp. Investimentos continuam sendo realizados na captação e distribuição de água.

A privatização agiliza a tomada de decisões. E chegou a hora de enfrentar, de verdade, o desperdício de recursos hídricos, principalmente na desprezada agenda do reúso de águas servidas. Aqui está a palavra mágica: reúso de água.

Significa reaproveitar a água “suja”, chamada de “água residual”, ou ainda “água cinza”, que normalmente é desprezada, jogada nos rios depois de passar, ou não, por estações de tratamento de esgotos. Visto a crescente demanda por água, é possível, e cada vez mais necessário, reutilizar as águas já servidas.

Reúso de águas não é novidade. Um relatório do Banco Mundial, entretanto, aponta que apenas 3% das águas residuais do planeta são reutilizadas, propondo elevar tal porcentagem para 25% até 2040, o que demandaria investimentos globais de US$ 170 bilhões a US$ 340 bilhões ao longo dos próximos 15 anos.

Israel é o campeão mundial da gestão sustentável de recursos hídricos, com cerca de 90% de reúso de água. A irrigação agrícola é o maior destino das águas despoluídas. Cingapura e Arábia Saudita são outras referências mundiais.

Estima-se em 10% o volume de esgotos tratados nos Estados Unidos. Em função de prolongadas secas, cresce o reúso de águas, destinadas inclusive ao abastecimento humano, na Califórnia, no Texas e no Arizona. Na China, utiliza-se 12% das águas já servidas. Na Europa, apenas 2,4%.

O Egito desenvolve um incrível megaprojeto de expansão agrícola, intitulado “New Delta Project”. O canal principal de irrigação, considerado o maior “rio artificial” do mundo, percorrerá 114 km distribuindo águas residuais urbanas, obviamente tratadas, destinadas a esverdear 1 milhão de hectares, do deserto ao noroeste. A poluição se transforma em alimento.

Em Barcelona, que padece historicamente por deficiência hídrica e utiliza muita água dessalinizada, a administração local criou, recentemente, uma nova regulamentação para o reaproveitamento de águas provenientes de chuveiros, banheiras e lavatórios. Edifícios públicos e privados estão obrigados a construir um sistema diferenciado para utilizar água de reúso na descarga de privadas. Isso se chama engenharia ambiental.

Exemplos não faltam. No Brasil, existem algumas iniciativas implementadas no setor de papel e celulose e no ramo petroquímico. Políticas públicas isoladas se percebem aqui e ali nos municípios. O marco regulatório –Lei 14.026 de 2020 e Norma ABNT NBR 13.969– é suficiente. Persistem, porém, os entraves culturais. O ambientalismo não prioriza a pegada de recursos hídricos.

A escassez de água que está rosnando acabou com as dúvidas em 2026, pois chegou a hora da mudança de paradigma na gestão de recursos hídricos, seguindo duas estratégias:

  • dessalinização – nas capitais próximas à costa, viabilizar a dessalinização para ofertar água potável;
  • sistema de coleta e distribuição – nas cidades médias, obrigar a operação do sistema de coleta e distribuição diferenciada de águas de reúso, para irrigação de jardins, lavagem de logradouros públicos, redes sanitárias e lavagem de carros.

Existe, ainda, a coleta de água de chuva nos edifícios e residências, cujos bons usos dependem dos projetos de engenharia ambiental. Há muitas alternativas, com base científica e normas legais. Mas continuamos empacados, travados por aquela visão antiga de que água só se utiliza uma vez. Suja e joga fora.

Falar em reúso de água no Brasil ainda parece um palavrão.

Autor: Xico Graziano

Fonte: Poder360


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