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Sem mudanças profundas, risco de faltar água em SP não acaba tão cedo

Sem uma espécie de reforma hídrica, o risco de o racionamento de água voltar à Grande São Paulo nos próximos anos é real, segundo especialistas do setor.

Apesar de o governo do Estado, sob o comando de Geraldo Alckmin (PSDB), ter sempre amenizado o problema, milhares de pessoas, principalmente das periferias da metrópole, ficaram sem água por várias horas ao dia entre o início de 2014 e durante boa parte de 2015.

No último dia 7 de março, Alckmin declarou que a crise hídrica havia terminado.

“Não aprendemos nada. Crise não começa nem termina por decreto”, afirma o geógrafo Wagner Costa Ribeiro, professor titular do Departamento de Geografia da USP.

Para o estudioso, a crise hídrica vai continuar à espreita dos moradores enquanto não houver mudanças estruturais na forma de gestão da água -tanto por parte do governo quanto por parte da população, que precisa mudar sua cultura de desperdiçar muito.

Precisamos de mais infraestrutura para captar mais água e do uso racional por parte da sociedade, mas também há outros pontos cruciais que não foram tocados, diz o geógrafo.

Os setores da indústria e da agricultura precisam mudar seus processos, defende Ribeiro. “Também é um absurdo os chamados contratos de demanda firme, em que os grandes clientes precisam consumir um volume alto de água para terem direito a uma tarifa mais barata”, diz.

INFRAESTRUTURA VERDE

O ataque para baixar a demanda de água na Grande São Paulo, que envolve também aumentar o reúso, é apenas parte da solução, segundo os especialistas.

Do lado da oferta, os alvos são a busca por novos mananciais, a redução de perdas, o aumento da capacidade das estações de tratamento de água e o avanço dos programas de despoluição de rios e córregos.

No médio e longo prazo, entretanto, uma saída segura, segundo o biólogo Samuel Barreto, da ONG TNC, é apostar muitas fichas na chamada infraestrutura verde.

Recuperar e preservar as matas nas áreas dos mananciais ainda são ações pouco praticadas pelos gestores –e que poderiam realmente aumentar a segurança hídrica das cidades.

O que será cada vez mais importante, porque, segundo as projeções dos demógrafos, 90% da população latino-americana estará vivendo em zonas urbanas até 2040. Em 2010, eram 80%.

O exemplo da cidade de Nova York é bastante usado pelos especialistas quando o assunto é infraestrutura verde para aumento da segurança hídrica das pessoas.

Depois de um investimento maciço em preservação de áreas nos arredores dos mananciais, o custo pela produção de água da cidade caiu.

Os cálculos mostram que priorizar o plantio de florestas, no caso americano, ficou seis vezes mais barato do que pagar pelos métodos tradicionais de aumento de produção de água. Como a busca por novos pontos de captação.

O caminho a ser percorrido, portanto, é longo, atesta Barreto. Achar que está tudo resolvido, segundo ele, é incorrer em um grande erro.

LA NIÑA

Sem as mudanças estruturais, os pesquisadores projetam um futuro hídrico incerto, em que os moradores da Grande São Paulo vão continuar à mercê da natureza.

A tese é corroborada pelo meteorologista da USP Augusto José Pereira Filho.

“Quem acabou com a crise de água foi a natureza, com nossa forçosa cooperação. Somos 100% dependentes do sol e da chuva. Hoje, pode-se antecipar tais extremos e, assim, melhorar a gestão da água e da qualidade de vida.

De acordo com o pesquisador, a seca recente deixou duas grandes lições. “A necessidade de o governo melhorar a gestão dos recursos hídricos e de a população tomar consciência de que é preciso economizar a água”.

Os prognósticos climatológicos mostram a importância de que as lições da crise hídrica sejam aprendidas de forma rápida.

Em geral, períodos de seca na região da capital paulista ocorrem entre 4 anos a 11 anos, de acordo com a análise climática dos dados do IAG (Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas) da USP. Pelos prognósticos, a próxima seca pode ocorrer entre o fim desta década e meados da próxima.

O fenômeno El Niño 2015/2016 deve perder força a partir deste outono. “No fim deste ano há previsão de um episódio de La Niña, que tenderá a causar mais chuvas no Norte e menos chuvas no Sul do Brasil”, diz Pereira Filho.

Sem chuva nos meses mais quentes, o ciclo vicioso que atingiu a Grande São Paulo nos últimos anos, região que historicamente vive o chamado estresse hídrico, onde existe muita demanda para pouca oferta de água, pode voltar a se agravar.

Fonte: Folha
Foto: Bruno Santos/Folhapress

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