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Brasil perdeu 36,7% de toda a água tratada durante a distribuição em 2014

A primeira reportagem da série ‘Água: Cuidar para não Acabar’, mostra que, mesmo com a crise hídrica, 70% dos municípios brasileiros ainda perdem níveis inaceitáveis de água na distribuição.

De toda a água tratada em 2014, o Brasil perdeu 36,7% durante a distribuição. São mais de 6 bilhões de metros cúbicos desperdiçados, o suficiente para encher seis vezes o sistema Cantareira, na Grande São Paulo. Em 1995, o índice de perdas nacional era de 42%, o que mostra um avanço tímido, de apenas 5 pontos percentuais ao longo de 20 anos.

Um atraso que, de Norte a Sul, prejudica principalmente as comunidades que vivem em áreas periféricas.

‘A água acaba em torno de 16 horas e só volta no outro dia 5 horas da manhã. Aqui na rua tá sempre descendo carro pipa. Tem lugar em São Mateus (RJ) que não tem água mesmo. Nem salgada, nem doce, nem barrenta, nem limpa, nem suja. Estamos sem água mais ou menos há uns 20 dias’, diz um morador.

Segundo dados do Sistema Nacional de Informações Sobre Saneamento, o SNIS, mais de 3,5 mil municípios do país, ou 70%, apresentam perdas na distribuição de água acima de 20%. São vazamentos em tubulações precárias, ligações clandestinas e até falta de medição. Um número elevado e que, na avaliação do presidente do Instituto Trata Brasil, Edison Carlos, mantém o país cada vez mais distante do patamar de países desenvolvidos.

‘Consideramos minimamente aceitável perda abaixo de 20%. As cidades nunca se preocuparam com isso. A prioridade foi levar água potável para as pessoas e se esqueceu que essas redes deterioram. Nós temos áreas da cidade de São Paulo com redes de 50 anos de idade. Já nos países desenvolvidos não, o pessoal no Japão perde menos de 10% da água e acha um absurdo. Aqui se juntou a falta de preocupação sanitária de forma geral com uma noção atrasada e errada de que nós temos água em abundância.’

Um cálculo divulgado pela Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental mostra que se o Brasil reduzisse as perdas para algo em torno de 18%, entre 2009 e 2025, teria um ganho bruto de aproximadamente R$ 37 bilhões. Dinheiro que, em tempos de crise econômica, pode fazer falta, como explica o presidente da Abes, Alceu Bittencourt.

‘A redução de perdas depende de um esforço continuado de longo prazo. Para isso é preciso estruturar políticas de financiamento, estímulo, para promover um ganho mais rápido. A obra de ampliação é sempre mais visível, dá um resultado imediato. Já o esforço de perdas aparece menos, então ele corre muito risco em épocas de crise econômica. Acontece muito de negligenciarem esses investimentos e aí as perdas na distribuição sobem de novo.’

Norte e Nordeste lideram o ranking das perdas de água na distribuição. Capitais como Porto Velho e São Luís, por exemplo, desperdiçam mais 60% de toda a água tratada. Índices inaceitáveis que, para o conselheiro do Conama, Carlos Bocuhy, colocam em cheque a meta do governo federal de até 2033 reduzir o índice nacional para 31%.

‘O discurso governamental propõe metas teóricas que na realidade o governo não implementa porque não tem recurso destinado para isso e não prioriza na política de fato. Enquanto não tivermos um meio de controle social para cobrar as metas de governo que são processadas nos seus discursos, nós vamos continuar sendo engolidos por um processo retórico e não prático.’

No próximo capítulo, você verá que a crise hídrica está longe do fim e que ela pode se agravar nos próximos anos.

Fonte: CBN
Foto: Divulgação

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