A gestora de impacto Just Climate, fundada pelo ex-vice-presidente americano Al Gore, e a plataforma de logística reversa EuReciclo estão inaugurando, em Santa Catarina. Sua primeira unidade de triagem mecanizada (UTM).
Além disso, a iniciativa ocorre em parceria com a empresa de soluções ambientais francesa Veolia. Nesse contexto, a estrutura será instalada no EcoParque de Brusque. Por fim, a primeira operação funcionará sob a bandeira Ciclare.
Com financiamento de R$ 116 milhões do BID Invest, a unidade terá capacidade para processar até 220 mil toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano. Além de recuperar 15 mil toneladas anuais de materiais recicláveis, como plásticos e metais. A operação utiliza cinco leitores ópticos e equipamentos de separação para identificar e direcionar os materiais.
“O BID tem tradição em água e saneamento, e já atua na redução de emissões de aterros, mas essa é a primeira vez que financiamos um projeto focado na separação de recicláveis”, relata a chefe da representação do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) no Brasil, Annette Killmer.
Além do project finance do braço do BID para o setor privado – específico para o empreendimento de Brusque –, a Ciclare já soma investimentos de R$ 100 milhões de outras fontes, apurou o Pipeline. Além disso, os benefícios são claros. Entre eles, a redução do volume de resíduos em aterros. Bem como a contribuição para metas nacionais de reciclagem. E, ainda, a redução de emissões, defende a representante do organismo multilateral.
“É uma tecnologia que não existe no Brasil. Nos dispusemos a enfrentar uma realidade à qual é muito difícil se acostumar: a de não ter tratamento adequado de resíduos e conviver com a cultura de lixões e aterros que não se alinham às melhores práticas do mundo”, diz Eduardo Mufarej, co-CIO da Just Climate, controladora da operação.
O grande diferencial do projeto é a chamada gravimetria – o estudo da composição do lixo da área que será atendida, que pode levar até dois anos.
“Foi o primeiro a fazer uma análise extensa, durante seis meses, identificando quanto há de PET, alumínio etc. Isso permite desenhar a máquina, que é modular, e prever o que sai em cada etapa do processo”, explica Thiago Carvalho Pinto, fundador e CEO da EuReciclo.
Just Climate e EuReciclo inauguram planta com R$ 116 mi do BID Invest
Outro ponto fundamental é a viabilidade econômica, ou seja, a comercialização dos materiais recuperados, inclusive para aprovação do financiamento pelo BID, dividido em tranches para pagamentos com prazos de 5 a 11 anos. Os resíduos plásticos têm contratos com a Braskem e a sua subsidiária Wise. Outros acordos estão sendo finalizados para alumínio e papelão, considerados ativos mais líquidos.
Além disso, há uma camada de crédito de carbono: cada tonelada de plástico recuperada equivale a duas toneladas a menos de CO₂ na atmosfera.
“O projeto deve se tornar um originador relevante de carbono no Brasil, evitando a emissão de cerca de 33 mil toneladas de CO₂ equivalente por ano, e tudo isso já tem preço contratado”, acrescenta Thiago, que estima receita de R$ 50 milhões a R$ 60 milhões por ano na unidade de Brusque.
O projeto prevê expansão para outras regiões, em parceria com as empresas responsáveis pela gestão local de resíduos, como é o caso da Veolia no município do Vale do Itajaí e em outros nove ecoparques pelo país.
“Estamos estudando expansão para outros estados, como São Paulo e Alagoas. A unidade de Brusque é apenas a primeira etapa”, anuncia o CEO da Veolia Brasil, Pedro Prádanos.
“Trata-se de uma indústria de produção de novos recursos. O material recuperado volta para a cadeia produtiva. Já recuperamos biometano e há potencial para avançar em materiais como filmes flexíveis, além de produzir CDR (combustível derivado de resíduos) para a indústria do cimento”, diz o executivo da multinacional com 269 centros de triagem pelo mundo.
Uma das apostas deles é que esse tipo de empreendimento se torne mais comum após a regulamentação, em outubro, da Política Nacional de Resíduos Sólidos, de 2010, pelo Decreto nº 12.688. Ele exige que, a partir deste ano, 22% das embalagens plásticas colocadas no mercado deverão conter material reciclado pós-consumo (PCR), insumo não encontrado m escala no país.
Fonte: Pipelinevalor