Há uma experiência comum a milhões de brasileiros que raramente aparece nas estatísticas oficiais sobre saneamento. É o cheiro que vem do córrego no fundo do bairro. A criança que passa a semana com diarreia e ninguém consegue entender por quê. É a rua que alaga a cada chuva forte porque o sistema de drenagem nunca foi projetado para funcionar junto com a rede de esgoto. São situações que parecem desconectadas entre si, mas que têm uma causa comum: a ausência de infraestrutura sanitária adequada.
Diego Borges, engenheiro com atuação em obras de infraestrutura e saneamento, conhece de perto a diferença que a chegada dessas obras faz na vida cotidiana das pessoas. Para ele, o déficit de saneamento no Brasil tem uma dimensão humana que os números não conseguem capturar completamente, e entendê-la é essencial para compreender por que essa pauta merece muito mais atenção do que recebe.
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O que a ausência de saneamento faz com o corpo e com o tempo?
O impacto mais direto da falta de saneamento sobre a vida das pessoas é sanitário. Doenças de veiculação hídrica, como diarreia, hepatite A e leptospirose, são companheiras frequentes de comunidades sem acesso a água tratada e esgoto coletado. Em crianças pequenas, episódios repetidos de diarreia comprometem a absorção de nutrientes e têm consequências sobre o desenvolvimento físico e cognitivo que se estendem por anos. Esse impacto silencioso sobre as primeiras infâncias de milhões de brasileiros é um dos custos mais invisíveis do déficit de saneamento.
Diego Borges ressalta que, além do adoecimento, a ausência de saneamento consome tempo. Tempo para buscar água em fontes alternativas, tempo para cuidar de familiares doentes, tempo perdido em filas de unidades de saúde para tratar doenças que não existiriam se houvesse esgoto tratado. Esse tempo subtraído do cotidiano das famílias que vivem sem infraestrutura sanitária é uma forma de desigualdade que não aparece em nenhum índice, mas que é sentida todos os dias.
A cidade que funciona mal quando o esgoto não tem para onde ir
A falta de saneamento não afeta apenas as casas. Afeta a cidade inteira. Quando o esgoto não é coletado e tratado adequadamente, ele vai para algum lugar. Geralmente, acaba sendo lançado em córregos, rios urbanos ou sistemas de drenagem que não foram projetados para receber carga orgânica. Como consequência, ocorre a degradação progressiva dos corpos d’água urbanos. Além disso, há o comprometimento da drenagem pluvial. Consequentemente, aumenta o risco de enchentes durante os períodos de chuva intensa.
As cidades que convivem com esse ciclo de degradação enfrentam custos cada vez maiores com a manutenção urbana. Além disso, sofrem com o aumento da pressão sobre o sistema de saúde e com a deterioração de espaços públicos que poderiam ser destinados ao lazer e à convivência da população. Para Diego Borges, a despoluição de rios urbanos, que se tornou possível em algumas cidades brasileiras após a implantação de redes de esgoto, representa o exemplo mais visível de como o saneamento transforma não apenas a saúde das pessoas. Ao mesmo tempo, também melhora a paisagem urbana, valoriza os espaços públicos e eleva a qualidade de vida nas cidades.
Quando a obra chega: o antes e o depois que ninguém fotografa
A transformação que obras de saneamento provocam nas comunidades atendidas raramente recebe o registro que merece. Não há inauguração para a primeira vez que uma criança não adoece naquele verão. Há fotografia do momento em que o córrego começa a cheirar diferente. Não há cerimônia para marcar o dia em que uma família deixou de ferver água antes de beber.
Diego Borges observa que essa invisibilidade do resultado bem-sucedido é uma das características mais peculiares do saneamento como política pública. A obra que funciona não aparece. O que aparece é a ausência dos problemas que existiam antes. E essa ausência, justamente por ser silenciosa, raramente traduz o tamanho real da mudança que representa na vida cotidiana das pessoas que passaram anos ou décadas sem acesso à infraestrutura básica.
Uma pauta que merece mais espaço no debate público
O saneamento básico é uma das políticas públicas com maior retorno social comprovado. Reduz doenças, libera tempo, melhora o desempenho escolar de crianças, valoriza o entorno urbano e cria condições para que comunidades inteiras saiam de um ciclo de vulnerabilidade que se perpetua justamente pela ausência dessa infraestrutura. Apesar disso, raramente ocupa o centro do debate público com a intensidade que seu impacto justificaria.
Como destaca Diego Borges, mudar essa equação passa por tornar visível o que o saneamento faz de concreto na vida das pessoas. Não apenas nos números de cobertura ou nas metas regulatórias, mas nas histórias de comunidades que tiveram acesso a algo que grande parte do mundo já considera básico. Água tratada e esgoto coletado não são conquistas. São direitos. E enquanto milhões de brasileiros ainda não os têm, essa continua sendo uma das pautas mais urgentes do país.
Fonte: OGlobo