O Brasil gerou mais de 81 milhões de toneladas de resíduos sólidos em 2025, segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil, publicado pela Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema).
Desse total, a taxa de reciclagem efetiva calculada pelo Ministério das Cidades ficou em apenas 4,5%. O índice está muito distante da meta de 20% estabelecida pela Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010) para o ano de 2025.
Quando se inclui a coleta informal realizada por catadores autônomos, a taxa sobe para 8,7%.
A diferença entre os dois números expõe um dado central e pouco debatido. Mais da metade do que é efetivamente reciclado no país resulta do trabalho de catadoras e catadores. Não decorre de sistemas públicos estruturados de coleta seletiva.
Esse trabalho, no entanto, permanece em larga medida invisível. O discurso da economia circular ganhou espaço nas estratégias empresariais e nas políticas públicas brasileiras, consolidado no Plano Nacional de Economia Circular 2025-2034, elaborado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
A indústria da reciclagem processa mais de 15 milhões de toneladas de materiais por ano, movimentando cerca de R$ 80,7 bilhões, conforme levantamento da Mastersenso Consultoria Industrial divulgado pela FecomercioSP.
O contraste entre a dimensão econômica do setor e a condição de quem o sustenta na base é evidente. Enquanto a cadeia gera bilhões, os trabalhadores que alimentam sua matéria-prima seguem, em grande parte, na informalidade, sem remuneração pelos serviços ambientais que prestam e expostos a condições degradantes de trabalho.
O cenário internacional agrava a urgência do debate. O Circularity Gap Report 2026, produzido pela Circle Economy em parceria com a Deloitte, estima que o modelo linear de produção, baseado em extrair, produzir, usar e descartar, gera perdas anuais de 25,4 trilhões de euros, o equivalente a 31% do PIB global. A taxa de circularidade mundial, em vez de avançar, recuou de 7,2% em 2023 para 6,9% em 2024. O Brasil apresenta um caso emblemático dessa contradição.
O país é referência mundial na reciclagem de latas de alumínio, com índice de 97,3% em 2024 segundo a associação Recicla Latas, mas esse desempenho excepcional depende fortemente da coleta informal realizada por catadores de rua, que dominam historicamente esse mercado. A excelência estatística de um material específico convive com a precariedade estrutural de quem a produz.
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Catadores, economia circular e o trabalho invisível que sustenta a reciclagem no Brasil
A dimensão mais concreta dessa precariedade foi revelada pela segunda edição da pesquisa Catadores por Menos Plástico, conduzida pelo Instituto de Direito Coletivo (IDC) em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF), por meio da Incubadora Tecnológica de Empreendimentos de Economia Solidária do Médio Paraíba (InTECSOL).
O levantamento foi realizado entre julho e dezembro de 2025. Nesse período, a pesquisa acompanhou 20 associações e cooperativas de catadores na capital e no interior do estado do Rio de Janeiro.
Além disso, os pesquisadores mantiveram o mesmo recorte territorial da primeira edição. Isso permitiu comparar os resultados entre os dois levantamentos.
Os dados confirmam e aprofundam o cenário identificado em 2024. Naquele ano, a pesquisa mostrou que 64% dos resíduos plásticos que chegavam às cooperativas eram, na prática, não recicláveis.
Os números da nova edição são contundentes. Cada catador perde, em média, 15,59 horas de trabalho por mês na triagem de plásticos que não têm valor de mercado, o equivalente a 9,38% do tempo mensal de trabalho, ou aproximadamente dois dias completos dedicados a resíduos que não geram qualquer retorno financeiro.
Considerando a jornada média observada, de sete horas e meia diárias ao longo de 22 dias por mês, trata-se de uma perda recorrente e estrutural. Em termos econômicos, as cooperativas incluídas no cálculo deixam de arrecadar, mensalmente, entre R$ 1.179,03 e R$ 3.771,72, valores expressivos para organizações que já operam no limite da viabilidade.
O plástico segue como principal categoria entre os rejeitos, representando cerca de 45% de todo o material descartado pelas cooperativas por falta de viabilidade de reciclagem, seja pela mistura de materiais, pela pigmentação inadequada ou pela ausência de comprador.
A origem desses materiais tem endereço conhecido. Segundo o estudo, quase 82% dos plásticos não recicláveis provêm da indústria alimentícia, com destaque para embalagens do tipo BOPP, o plástico metalizado que envolve biscoitos e salgadinhos, e para o chamado PET bandeja, plástico transparente usado em embalagens de bolos e ovos que, embora tecnicamente reciclável, raramente encontra canal de comercialização.
A pesquisa realizou ainda uma auditoria de marcas e identificou quase 200 empresas entre os resíduos analisados, com um grupo reduzido de grandes companhias aparecendo com frequência desproporcional nas embalagens descartadas. O estudo aponta também práticas de greenwashing, em que produtos são comercializados como sustentáveis ou recicláveis sem qualquer possibilidade real de reaproveitamento.
Como sintetiza Tatiana Bastos, presidente do IDC, o sistema atual transfere custo, tempo e desgaste físico para os catadores, que trabalham mais para ganhar menos, enquanto o empresariado continua colocando no mercado embalagens inviáveis do ponto de vista técnico ou econômico.
A pesquisa evidencia uma distorção que o vocabulário corrente da sustentabilidade tende a encobrir. O selo de reciclável estampado nas embalagens sugere ao consumidor que o descarte correto garante o retorno do material ao ciclo produtivo. Na realidade das cooperativas, boa parte desse material nasce como rejeito, pois não há viabilidade econômica ou tecnológica para seu reaproveitamento. O custo dessa ficção não é distribuído de forma equitativa.
Ele recai sobre os elos mais vulneráveis da cadeia, que arcam com o tempo de triagem não remunerado, com a exposição a resíduos orgânicos contaminantes misturados aos recicláveis e com a redução da renda ao final do mês. A responsabilidade pela concepção das embalagens, que caberia ao capital industrial, é convertida em prejuízo cotidiano de trabalhadores que já operam em condições de vulnerabilidade.
O perfil social desses trabalhadores acrescenta uma camada de injustiça ao problema. A pesquisa do IDC e da UFF identificou que 68,56% dos catadores nas organizações estudadas são mulheres e que quase 90% se declaram pardos ou pretos, sendo 58,75% pardos e 30,82% pretos.
O trabalho invisível que sustenta a reciclagem brasileira é, portanto, majoritariamente feminino e negro. Isso insere a questão no campo da justiça ambiental e do racismo ambiental.
Além disso, as externalidades negativas de um sistema de embalagens concebido sem compromisso com a reciclabilidade real recaem justamente sobre os grupos sociais historicamente mais penalizados pela desigualdade brasileira.
Há, contudo, movimentos institucionais relevantes em curso. Os resultados da pesquisa fluminense embasaram o Projeto de Lei 5.392/2025, apresentado pelo deputado estadual Carlos Minc e atualmente em tramitação na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.
A proposta determina que as embalagens comercializadas no estado sejam 100% recicláveis e adequadamente rotuladas. Também garante remuneração direta às cooperativas pelos serviços ambientais prestados, como triagem, coleta seletiva e educação ambiental. Além disso, estabelece um prazo de cinco anos para o banimento de plásticos não recicláveis do mercado estadual.
No plano federal, a Lei 15.088/2025 proibiu a importação de resíduos sólidos e rejeitos. A medida protege o mercado interno de materiais recicláveis e beneficia diretamente os catadores.
Posteriormente, o Decreto 12.438/2025 flexibilizou essa proibição. No entanto, a reação do movimento de catadores levou o governo federal a revogar o decreto poucas semanas depois. Em seguida, o governo publicou uma nova regulamentação com limites e cotas.
Em outubro de 2025, o Decreto 12.688 instituiu o Sistema de Logística Reversa para embalagens plásticas. A norma prevê, de forma expressa, a inclusão socioprodutiva de catadoras e catadores.
Além disso, o governo federal assumiu a meta de elevar a taxa de reciclagem para 34,5% até 2035. A iniciativa faz parte do plano para cidades sustentáveis e aposta na ampliação da coleta seletiva e no fortalecimento das cooperativas.
Ainda assim, a distância entre os atuais 4,5% e essa meta evidencia o tamanho do desafio.
Além disso, a experiência acumulada desde 2010 mostra que metas legais, sem instrumentos de financiamento, fiscalização e remuneração dos trabalhadores, tendem a permanecer apenas no papel.
A meta de 20% prevista para 2025 não foi alcançada. Ao mesmo tempo, os lixões que a lei determinou encerrar continuam recebendo 40% dos resíduos com destinação incorreta no país.
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A principal reivindicação do movimento de catadores aponta um caminho consistente.
Como destaca Tatiana Bastos, esses trabalhadores precisam receber pelo serviço ambiental que prestam. Eles não devem ser remunerados apenas pelo peso do material comercializado.
Cada tonelada de PET triada impede que mais plástico chegue aos rios. Da mesma forma, cada fardo de papelão recuperado evita o corte de árvores para a produção de novas fibras.
Na prática, os catadores prestam um serviço público ambiental à sociedade. Esse trabalho gera benefícios climáticos, sanitários e econômicos mensuráveis. No entanto, eles ainda o realizam gratuitamente, apesar de estarem entre os grupos com menor capacidade de subsidiar esse sistema.
A economia circular brasileira só será efetiva e justa quando reconhecer institucionalmente essa contribuição. Também precisará remunerar quem realiza esse trabalho e responsabilizar o empresariado pela reciclabilidade real das embalagens que coloca no mercado.
Enquanto isso não acontecer, a circularidade continuará sendo sustentada pelo trabalho invisível e mal remunerado de mulheres e homens que o país ainda insiste em não enxergar.
Fonte: Eco Debate