Uma discussão regulatória em curso na Europa merece atenção especial de todos que trabalham com saneamento ambiental, tratamento de águas e efluentes e desenvolvimento de tecnologias ambientais.
Uma reportagem publicada pela Aquatech aponta que a Europa avança na discussão sobre uma possível restrição ao PVDF (fluoreto de polivinilideno), fluoropolímero amplamente empregado na fabricação de membranas de microfiltração e ultrafiltração.
O dado impressiona: segundo a publicação, o PVDF está presente em mais de 80% das membranas utilizadas no tratamento de águas residuárias, além de aplicações no tratamento de água potável.
O motivo da preocupação é conhecido: o PVDF encontra-se no amplo universo dos PFAS, substâncias per e polifluoroalquiladas, grupo de compostos caracterizados pela elevada persistência ambiental e que vem recebendo crescente atenção científica e regulatória internacional.
A proposta europeia de restrição dos PFAS está sendo analisada no âmbito da European Chemicals Agency (ECHA). E um aspecto do debate é especialmente relevante para o setor de saneamento: o dossiê atualizado aponta evidências consideradas suficientemente fortes de que existe elevado potencial de substituição do PVDF nos meios de filtração e separação utilizados no tratamento e purificação da água.
Isso pode representar uma mudança tecnológica importante.
Entre as alternativas que ganham espaço estão as membranas cerâmicas, particularmente para águas e efluentes mais agressivos, enquanto materiais como PES (polyethersulfone) e PSU (polysulfone) aparecem como possíveis alternativas em outras aplicações.
Mas considero que a discussão europeia apresenta uma questão muito mais profunda do que simplesmente decidir qual material utilizar na fabricação de uma membrana.
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Estamos assistindo a uma mudança na própria lógica da engenharia ambiental.
Durante décadas, avaliamos uma tecnologia predominantemente por sua capacidade de remover contaminantes: eficiência de tratamento, fluxo, resistência química, consumo energético, vida útil, CAPEX e OPEX.
Agora surge uma pergunta adicional: qual é o impacto ambiental da própria tecnologia utilizada para remover esses contaminantes?
Essa mudança é extremamente importante.
Não basta mais analisar apenas o efluente tratado. É necessário considerar todo o ciclo de vida da tecnologia: matérias-primas, fabricação, produtos químicos utilizados, emissões, durabilidade, substituição de componentes, geração de resíduos, reciclagem e disposição final.
Há inclusive um aparente paradoxo que merece reflexão.
A Europa está aumentando seus esforços para controlar e remover PFAS das águas e, simultaneamente, discute restringir fluoropolímeros pertencentes a esse mesmo universo químico presentes nos equipamentos empregados no tratamento da água.
É uma demonstração bastante clara de como a política ambiental europeia vem migrando progressivamente do simples controle end-of-pipe para uma abordagem baseada em prevenção, ciclo de vida, persistência ambiental e responsabilidade tecnológica.
E o Brasil?
O debate europeu deveria ser acompanhado com muita atenção por reguladores, companhias de saneamento, projetistas, universidades, fabricantes de equipamentos e órgãos ambientais brasileiros.
Grandes projetos de ETA, ETE, reúso, MBR, ultrafiltração e tratamento avançado possuem horizontes operacionais de décadas.
Portanto, selecionar hoje uma determinada tecnologia sem considerar sua trajetória regulatória internacional pode representar amanhã um risco tecnológico, ambiental, econômico e patrimonial.
Isso não significa simplesmente reproduzir no Brasil uma eventual decisão europeia sobre o PVDF.
Significa incorporar às decisões de engenharia uma pergunta que considero inevitável para os próximos anos: estamos projetando sistemas de tratamento apenas para atender aos padrões ambientais atuais ou estamos construindo instalações capazes de enfrentar os contaminantes e as exigências ambientais das próximas décadas?
PFAS, microplásticos, fármacos, hormônios, pesticidas, compostos persistentes e outros contaminantes emergentes estão transformando rapidamente a fronteira tecnológica do saneamento.
E existe uma mensagem particularmente importante nessa discussão: não basta que uma tecnologia retire contaminantes da água. Precisaremos cada vez mais demonstrar que os materiais, produtos e processos utilizados para removê-los não criam novos passivos ambientais ao longo de seu ciclo de vida.
Essa discussão certamente chegará ao Brasil. Quanto antes começarmos, melhor estaremos preparados.
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Escrito por:
Walter Plácido Teixeira Junior – Diretor na AST Ambiente e Lavoro Solutions | Especialista em Gestão de Resíduos Sólidos, Sustentabilidade e Políticas Públicas.