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Cidade-esponja como conceito usado para reduzir enchentes pode ajudar municípios da Zona Sul

Cidade-esponja: como conceito usado para reduzir enchentes pode ajudar municípios da Zona Sul

Especialista defende soluções que aumentem a absorção da água da chuva e reduzam alagamentos.

Os alagamentos registrados após as chuvas dos últimos dias voltaram a expor a vulnerabilidade das cidades da Zona Sul diante de eventos climáticos extremos.

Segundo a Defesa Civil, 13 dos 23 municípios da região decretaram situação de emergência em razão dos danos provocados pelas chuvas.

Entre os municípios estão:

  • Arroio Grande;
  • Canguçu;
  • Capão do Leão;
  • Cerrito;
  • Chuí;
  • Herval;
  • Jaguarão;
  • Pelotas;
  • Pedro Osório;
  • Rio Grande;
  • Santa Vitória do Palmar;
  • São José do Norte;
  • São Lourenço do Sul.

As ocorrências incluem alagamentos em áreas urbanas, inundações, bloqueios de estradas e prejuízos em comunidades rurais.

Para o ecólogo Marcelo Dutra, a adoção do conceito de cidade-esponja pode ajudar os municípios a absorver, armazenar temporariamente e liberar de forma gradual a água da chuva, reduzindo transtornos. Mas, afinal, como esse modelo funciona?

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O que é uma ‘cidade-esponja’?

Criado pelo arquiteto chinês Kongjian Yu, o conceito busca transformar parques, praças e áreas verdes em estruturas capazes de absorver grandes volumes de chuva, funcionando como reservatórios naturais em períodos de cheia e garantindo água em tempos de seca.

— O conceito de cidade-esponja refere-se à capacidade do território urbano de absorver, reter temporariamente e liberar gradualmente a água da chuva, reduzindo o escoamento rápido e os impactos de enchentes — explica Marcelo Dutra.

Dessa forma, uma cidade-esponja combina diferentes estruturas para manter parte da água no próprio território.

Para isso, utiliza jardins, pavimentos permeáveis, canaletas verdes e bacias de retenção, que permitem que a água infiltre no solo, seja armazenada temporariamente ou liberada de maneira mais lenta.

O modelo também prevê a preservação de várzeas, banhados, matas ciliares e áreas naturais de inundação.

O ponto central do conceito é administrar a permeabilidade do solo em todo o município. Para isso, o planejamento precisa abranger os sistemas de drenagem, as regras para novas construções e loteamentos e a preservação de matas ciliares e Áreas de Preservação Permanente (APPs).

Nesse modelo, novos empreendimentos, por exemplo, podem ser obrigados a manter uma parcela permeável do terreno ou instalar sistemas próprios de retenção, evitando que todo o volume da chuva seja direcionado imediatamente à rede pública de drenagem.

— A diferença central está em reconhecer que nem todos os eventos de cheia podem ser eliminados por drenagem urbana, sendo necessário conviver com a dinâmica natural dos corpos hídricos e das áreas úmidas associadas. Em alguns casos, parte dos terrenos naturalmente fica mais carregada de água (saturada). Este alagamento eventual deve ser compreendido como um componente do sistema, ao invés de ser eliminado pela engenharia — ressalta o ecólogo.

Cada município exige soluções diferentes

Segundo Marcelo Dutra, a aplicação do conceito de cidade-esponja na Zona Sul precisa considerar as características ambientais e urbanas de cada município.

Cidades como Rio Grande, margeada pela Lagoa dos Patos, por exemplo, enfrentam condições diferentes daquelas onde os alagamentos estão mais associados à impermeabilização do solo. À ocupação de banhados. Ou à insuficiência dos sistemas de drenagem.

— Ao reduzir a capacidade de infiltração de água, o solo passa a funcionar como uma superfície de acúmulo e fluxo rápido. Aumentando o volume e a velocidade com que a água chega aos sistemas de drenagem — explica.

Por isso, o primeiro passo seria mapear as áreas sujeitas a alagamentos e inundações. Identificar os caminhos naturais da água. E avaliar quais espaços podem ser recuperados.

A partir desse diagnóstico, os municípios poderiam definir onde preservar banhados. Recuperar margens de rios. Ampliar áreas verdes. Ou implantar pavimentos permeáveis e estruturas de retenção.

As intervenções também precisam ser integradas. Uma obra executada de forma isolada pode apenas transferir a água e o problema de um bairro para outro. A proposta de uma cidade-esponja é administrar o fluxo em todo o território urbano, combinando drenagem, infraestrutura verde, preservação ambiental e regras de ocupação do solo.

Retirar construções de áreas de risco é uma alternativa?

No caso do município de Jaguarão, por exemplo, que registrou diversas áreas alagadas na última semana, o ecólogo avalia que a área urbana está diretamente exposta aos picos de inundação do Rio Jaguarão.

Segundo Dutra, uma das primeiras medidas deveria ser a retirada de edificações das áreas mais vulneráveis, sempre que possível, seguida da recuperação das margens.

“A primeira medida deveria ser tentar desedificar, onde for possível, e devolver ao ambiente do rio áreas que foram ocupadas, renaturalizando suas margens e recuperando sua capacidade de acomodar a água”. MARCELO DUTRA – Ecólogo.

Nos locais onde a retirada das construções não fosse possível, seria necessário recorrer a estruturas de contenção e proteção.

Uma das alternativas mencionadas pelo especialista é a implantação de uma espécie de rambla: uma faixa estruturada junto ao rio, com áreas verdes, espaços públicos e sistemas capazes de conter ou acomodar parte da água durante as cheias.

Além de contribuir para a proteção da área urbanizada, a estrutura poderia estabelecer um limite físico para impedir novas ocupações próximas ao rio ou à lagoa.

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Plano Diretor pode limitar ocupações vulneráveis

Na visão do ecólogo, a transformação dos municípios em cidades mais sustentáveis deve constar nos planos diretores, uma vez que eles são o ponto de partida para a adoção dessas medidas.

A legislação municipal pode limitar a ocupação de áreas sujeitas a inundações, exigir percentuais mínimos de solo permeável em novos empreendimentos e determinar a implantação de reservatórios ou sistemas próprios de retenção da água.

O documento também pode orientar a criação de parques inundáveis e a recuperação das margens de rios e arroios.

Para que essas diretrizes saiam do papel, no entanto, precisam ser acompanhadas de fiscalização, orçamento e projetos de longo prazo. As medidas envolvem diferentes áreas das administrações municipais, como planejamento urbano, obras, habitação, meio ambiente e Defesa Civil.

A dificuldade, conforme o ecólogo, está no custo das intervenções e na necessidade de planejamento contínuo e decisão política.

— Resiliência e segurança climática custam dinheiro e não são garantidas por um discurso bonito. Sem investimento, planejamento e capacidade de execução, o município continuará basicamente reagindo depois que a enchente acontecer — alerta.

Pontapé no planejamento

Em São Lourenço do Sul, segundo o prefeito Zelmute Marten, a administração municipal iniciou dois processos de planejamento participativo. Que podem incorporar medidas relacionadas ao conceito de cidade-esponja: a elaboração do novo Plano Diretor, com foco em resiliência climática, e a construção do Plano Municipal de Drenagem.

— Poderá haver um planejamento para definir áreas de amortecimento, regiões que fiquem reservadas para alagamentos, evitando o extravasamento do Arroio São Lourenço e da Lagoa dos Patos — afirma Zelmute.

A prefeitura ainda não informou quando os dois processos de planejamento deverão ser concluídos.

Fonte: Gauchazh

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