Consórcio liderado pela Kanadevia Inova vai tratar 4 mil toneladas de resíduos por dia e gerar 115 MW de energia firme em Casablanca, sob concessão de 33,5 anos;
Para a associação, o modelo contratual do empreendimento, com concessão de longo prazo e contrato de compra de energia, é o que falta ao país para destravar projetos da mesma escala.
Brasília (DF), 25 de agosto de 2026 – O recente anúncio da construção de uma usina de recuperação energética de resíduos (waste-to-energy, ou WtE, em inglês) em Casablanca, no Marrocos, oferece ao Brasil uma referência direta de como estruturar empreendimentos de grande porte no setor.
A avaliação é da Associação Brasileira de Energia de Resíduos (ABREN). Para a entidade, o projeto marroquino demonstra que a viabilidade econômica do Waste-to-Energy depende menos de tecnologia e mais de arranjo contratual.
A Kanadevia Inova, em parceria com a Nareva e a Itochu, anunciou, em 4 de agosto, o acordo para a concessão do projeto integrado de tratamento e valorização de resíduos sólidos da cidade. O acordo também inclui os contratos de comercialização da eletricidade produzida.
Com investimento (CAPEX) de aproximadamente US$ 1,5 bilhão e concessão de 33,5 anos, o complexo terá capacidade para tratar cerca de 4 mil toneladas de resíduos por dia. Isso corresponde a cerca de 1,5 milhão de toneladas por ano.
Além disso, a unidade deverá gerar aproximadamente 115 MW de eletricidade. O volume equivale a cerca de 1 TWh anuais. Dessa forma, será suficiente para atender quase 1 milhão de pessoas.
A Kanadevia Inova responderá pelo EPC (engenharia, suprimentos e construção), pelo suporte à operação, pela manutenção de longo prazo e pelo financiamento da instalação. O empreendimento, que integra ainda aproveitamento de biogás de aterro e geração solar, será a primeira infraestrutura integrada de Waste-to-Energy do Marrocos e marca a entrada da companhia no continente africano. As obras devem começar até o fim de 2026, com entrada em operação prevista para meados de 2030.
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O modelo que viabilizou o investimento
Para a ABREN, o dado mais relevante do anúncio não é o porte da planta, mas a arquitetura que a tornou financiável: concessão longa, receita previsível pelo serviço de tratamento de resíduos e contrato para compra da energia gerada. Essa combinação possibilitou atrair capital privado, financiamento de longo prazo e fornecedores internacionais para um único projeto.
“Casablanca prova algo que a ABREN vem defendendo há anos: o obstáculo aos projetos de recuperação energética não é questão tecnológica, mas sim estrutura e escala. Quando o projeto reúne concessão de longo prazo, contrato de venda de energia e segurança jurídica, o capital aparece e a usina se torna viável. Além disso, usinas de grande porte como Casablanca (acima de 4.000 ton/dia), Dubai (5.000 ton/dia) e algumas plantas na China reduzem significativamente o custo de operação (OPEX), em até quatro vezes, e também o custo da eletricidade, o que torna os custos operacionais mais competitivos e, consequentemente, viáveis”, afirma Yuri Schmitke, presidente-executivo da ABREN.
Escala não é o problema brasileiro. O país gera mais de 80 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano, segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2025, da ABREMA. Porém, cerca de 42% desse volume tem destinação inadequada, sendo encaminhado para lixões ou aterros sanitários controlados.
“Não nos falta resíduo, demanda por energia firme e nem tecnologia disponível. Uma única região metropolitana brasileira tem disponibilidade de resíduos para sustentar um projeto do porte da usina marroquina, com a vantagem de gerar energia despachável, 24 horas por dia. Além disso, não se trata de uma solução energética, mas uma infraestrutura de saneamento básico que, de forma complementar, também gera energia. Assim como a África, o Brasil também vai chegar lá “, afirma Schmitke.
No caso do Brasil, porém, o custo do capital segue como o principal gargalo para viabilização de usinas desse porte.
“Como são empreendimentos intensivos em capital e de longo prazo, os elevados juros praticados no país aumentam significativamente os custos de financiamento e dificultam a viabilização de novos investimentos. Mas o maior desafio é a falta de leilões de compra da eletricidade e concessões municipais estruturadas especificamente para essa fonte”, explica o representante da ABREN.
Esse cenário, porém, pode mudar em breve. A entrada em vigor do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) e da Taxonomia Sustentável Brasileira, ambos previstos para 2027, deve reposicionar a equação econômica do setor.
“Projetos que hoje parecem menos competitivos passarão a ter receita adicional associada à mitigação de gases de efeito estufa e acesso a crédito diferenciado. Desta forma, a conta que não fechava poderá passar a se pagar”, diz Schmitke.
Há ainda um componente que raramente é considerado: o custo real dos aterros. Essa é a destinação mais utilizada para os resíduos sólidos urbanos no Brasil. Além disso, os aterros ocupam áreas cada vez mais escassas nas regiões metropolitanas. Também exigem monitoramento por décadas após o encerramento. E não geram receita.
Ao contrário, uma usina de recuperação energética comercializa energia todos os dias em que opera. Além disso, representa uma solução ambientalmente mais adequada para a disposição dos resíduos.
Estudos do WtERT, da CEWEP e da ESWET indicam que as emissões reais de metano em aterros podem ser maiores do que registram os inventários oficiais. Enquanto isso, a recuperação energética evita até 8,4 vezes mais emissões do que o aterro, mesmo com captura de biogás, segundo o estudo BEP/UK (2024).
Ao processar os rejeitos que hoje são enterrados, a URE prolonga a vida útil dos aterros existentes. Dessa forma, também adia a abertura de novos. Esse é um caminho já percorrido pela Alemanha, que opera cerca de 100 usinas. Além disso, recicla e composta 69% de seus resíduos. E destina menos de 1% ao aterro.
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Meta do Planares equivale a nove usinas de Casablanca
O Plano Nacional de Resíduos Sólidos (Planares) estabelece meta de 994 MW de capacidade instalada em usinas de recuperação energética até 2040, o equivalente a cerca de nove plantas do porte da unidade marroquina. Hoje, o Brasil ainda aguarda a entrada em operação de sua primeira URE, em Barueri (SP), prevista para 2027.
“Estamos falando de uma agenda de investimento que a ABREN estima em R$ 500 bilhões para o setor de energia de resíduos no Brasil. O Marrocos é um exemplo que nos mostra que esse investimento é possível, desde que exista previsibilidade contratual. A pergunta não é se o Brasil tem projetos viáveis — tem, e muitos. A pergunta é quanto tempo vamos levar para oferecer aos investidores as mesmas condições que Casablanca ofereceu”, conclui Schmitke.
Fonte: ABREN
Sobre a ABREN:
A Associação Brasileira de Energia de Resíduos (ABREN) é uma entidade nacional, sem fins lucrativos. Sua missão é promover a interlocução entre a iniciativa privada e as instituições públicas. Essa atuação ocorre nas esferas nacional e internacional. E em todos os níveis governamentais.
A ABREN representa empresas, consultores e fabricantes de equipamentos de recuperação energética, reciclagem e logística reversa de resíduos sólidos. Além disso, promove estudos, pesquisas e eventos. A entidade também busca soluções legais e regulatórias para o desenvolvimento de uma indústria sustentável e integrada de tratamento de resíduos sólidos no Brasil.
A ABREN integra o Global Waste to Energy Research and Technology Council (Global WtERT), instituição de tecnologia e pesquisa proeminente que atua em diversos países, com sede na cidade de Nova York, Estados Unidos, tendo por objetivo promover as melhores práticas de gestão de resíduos por meio da recuperação energética e da reciclagem. O Presidente Executivo da ABREN, Yuri Schmitke, é o atual Vice-Presidente LATAM do Global WtERT e Presidente do WtERT – Brasil.