Especialista explica os 16 anos da Política Nacional de Resíduos Sólidos e mostra como o Brasil ainda desperdiça 40% do lixo, mas pode transformá-lo em energia e matéria-prima com o coprocessamento.
A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) acaba de completar 16 anos. Essa lei, criada em 2010, mudou a forma como o Brasil cuida do lixo: agora, governo, empresas e consumidores são responsáveis juntos pelo ciclo de vida dos produtos.
Desde então, o país fez progressos, como a criação de sistemas para receber de volta embalagens e o reforço da reciclagem. Mas, na prática, ainda há uma grande diferença entre o que a lei prevê e o que realmente acontece. Existem muitas oportunidades desperdiçadas.
- A lei PNRS existe desde 2010 e define quem é responsável pelo lixo.
- Mais de 40% do lixo coletado no Brasil ainda vai para lugares errados.
- O coprocessamento transforma lixo em energia dentro de fábricas de cimento.
- Na Europa, fábricas de cimento usam até 75% de lixo como combustível; no Brasil, só 30%.
- Consórcios entre cidades podem reduzir custos de gestão de lixo.
Em 2024, o Brasil gerou 81,6 milhões de toneladas de lixo urbano, e apenas 76,4 milhões foram coletadas. Do que foi coletado, 59,7% foram para aterros sanitários corretos, mas 40,3% acabaram em locais inadequados, como lixões. Ou seja, ainda precisamos melhorar muito a gestão do lixo.
A ordem de prioridade da lei
A conversa não pode ficar só em reciclar ou enterrar o lixo. A lei prevê uma ordem: primeiro, não gerar lixo; depois, reduzir, reutilizar e reciclar. Também permite aproveitar o lixo para gerar energia, desde que siga regras técnicas e ambientais.
Falta uma visão mais integrada. Reciclar, tratar, gerar energia e descartar não são opções concorrentes, mas sim complementares. Cada tipo de lixo deve ter a melhor solução, e elas devem funcionar juntas.
O coprocessamento é uma dessas soluções. Nessa técnica, alguns tipos de lixo substituem parte do carvão e das matérias-primas usados na fabricação de cimento. O lixo é queimado nos fornos e as cinzas viram parte do cimento.
Coprocessamento: solução para o lixo
Mesmo com a tecnologia disponível, o Brasil usa pouco esse recurso. Hoje, as fábricas de cimento brasileiras substituem apenas 30% do combustível fóssil por lixo. Na União Europeia, essa taxa é de 55%, e na Alemanha e Áustria passa de 75%.
Para usar todo esse potencial, precisamos de mais do que máquinas. É preciso melhorar as leis, dar mais segurança para quem investe, criar metas claras e oferecer incentivos econômicos e impostos menores para quem aproveita o lixo. Também é essencial que os governos trabalhem juntos e integrem as soluções.
Regionalização pode ajudar
Outra ideia é unir cidades. Cidades pequenas e médias podem se juntar em consórcios ou fazer parcerias com empresas para dividir os custos de máquinas, transporte e operação. Investir em coleta seletiva, educação e cooperativas de catadores também é essencial.
No mundo todo, reciclagem e geração de energia a partir do lixo funcionam juntas. O Brasil precisa criar um modelo que leve em conta as características de cada resíduo e use as tecnologias certas para gerar mais benefícios para o meio ambiente, as pessoas e a economia.
Depois de 16 anos, a lei não precisa de novas promessas. Ela precisa de condições para funcionar de verdade, com uma política pública que reconheça e integre todas as formas corretas de lidar com o lixo.
Lixo não é só algo para jogar fora. Com tecnologia, infraestrutura, regras boas e planejamento, ele pode virar energia, matéria-prima, empregos e desenvolvimento. O próximo capítulo da PNRS deve mostrar como colocar isso em prática.
Fonte: BRA1
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Escrito por:
Eduardo Porciuncula – Gerente geral da (Verdera/Votorantim Cimentos).
