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Mudança climática deve reduzir capacidade hidrelétrica em até 20%

Temperaturas mais elevadas, mudança no regime de chuvas e aumento de eventos climáticos extremos são apenas uma parte da história das mudanças climáticas.

A forma como essas mudanças vão impactar agricultura, geração de energia, infraestrutura, oferta d’água e saúde é o outro lado que acaba de ganhar detalhes para o Brasil.
Considerado o mais importante estudo sobre como diversos setores vão reagir diante do clima modificado, o projeto Brasil 2040 – Alternativas de Adaptação às Mudanças Climáticas foi publicado na quinta-feira, 29, no site da extinta Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) da Presidência.
Uma das principais análises é sobre como a oferta de água será afetada. As Regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste do Brasil deverão sofrer redução. A Sul pode ter um leve aumento na média, mas com uma distribuição muito irregular. Para o Sudeste, há incertezas. Isso pode ter impactos diretos na agricultura e na energia.
Diversos grupos de pesquisa do Brasil trabalharam com dados de dois modelos climáticos, que, por sua vez, levaram em consideração dois cenários do IPCC (o painel do clima da ONU). O primeiro, mais pessimista, considera que o mundo não vai agir para combater as mudanças climáticas; o segundo imagina que haverá algumas ações, mas não o suficiente, e o mundo ainda vai aquecer pelo menos 3°C. Esse segundo cenário é condizente com as propostas de redução das emissões apresentadas até agora para a Conferência do Clima de Paris.
No pior cenário, até 2040 a capacidade das hidrelétricas pode ficar de 8% a 20% menor. Já no melhor cenário a capacidade diminui entre 4% e 15%. Ou seja, mesmo se o mundo fizer tudo o que está prometendo para combater o aquecimento global, ainda haverá impacto na produção de energia. Usinas como a de Belo Monte e o novo projeto pensado para o Rio Tapajós seriam inviabilizados.
Hoje o Brasil ainda é altamente dependente da água para a geração de energia elétrica – 80% de hidrelétricas. “O que por um lado torna a matriz energética brasileira mais limpa que a média mundial, por outro a torna vulnerável se o clima mudar”, afirma Roberto Schaeffer, da UFRJ, coordenador do capítulo de energia. O gargalo, principalmente nas novas hidrelétricas localizadas na Amazônia, é que elas não têm reservatórios. Com isso, não há estoque de água na seca. “Essa vulnerabilidade que a mudança climática traz talvez nos faça repensar se não é melhor voltar a ter hidrelétricas com reservatório.”
Além disso, o Brasil pode ficar mais dependente de térmicas. O estudo até prevê um aumento das energias eólica (no Nordeste) e solar (Sul e Sudeste), mas como elas são intermitentes há necessidade de ter uma energia de base e, se a hidrelétrica falhar, as térmicas serão a saída. “Mas pode ser etanol, bagaço de cana e biomassa, e não carvão”, sugere Schaeffer. “O ideal é ter diversidade. E planejar a expansão do setor incorporando a variável das mudanças climáticas. Não podemos mais só olhar para as séries hidrológicas do passado para prever o futuro, porque ele será bem diferente.”

Soja em risco

A mudança no regime hídrico pode trazer impactos também às principais commodities agrícolas do Brasil. A redução de área potencial para lavouras pode ser de até 39,3%, no pior cenário. A soja seria a cultura mais afetada, tendo uma perda de até 67% em área plantada na Região Sul.
De acordo com Leila Harfuch, do Agroicone, no entanto, áreas do Centro-Oeste e do Norte podem compensar parte dessa perda. A redução total da área de soja no País seria de 5% na comparação com um futuro sem mudança do clima.
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