As cidades continuam alagando porque o problema não está só na falta de obras, está na forma como elas são planejadas, executadas e mantidas.
Muitas prefeituras investem milhões em drenagem urbana, mas tratam o tema de forma isolada. A obra resolve um ponto específico, mas não considera o comportamento da água em toda a região, e a consequência aparece na primeira chuva forte.
A água segue um caminho natural, ela escoa para áreas mais baixas e ocupa espaços disponíveis. Quando a cidade cresce sem planejamento, elimina áreas de absorção, como terrenos permeáveis, o asfalto e o concreto impedem essa infiltração, e a água passa a escoar mais rápido e em maior volume.
O problema está no sistema, não na obra isolada
Esse aumento de volume sobrecarrega o sistema de drenagem, as tubulações não suportam a vazão e o resultado é o transbordamento.
Outro problema está no dimensionamento das obras, muitos projetos ainda consideram padrões antigos de chuva, mas hoje os eventos são mais intensos e concentrados, e o sistema é projetado para um cenário que já não existe mais.
A execução também impacta o resultado, obras malfeitas reduzem a eficiência do sistema, desníveis incorretos, conexões mal executadas e materiais inadequados comprometem o escoamento.
A manutenção recebe pouca atenção, bueiros entupidos, galerias obstruídas e falta de limpeza reduzem a capacidade do sistema, a estrutura até existe, mas não funciona como deveria.
O crescimento urbano desordenado agrava o cenário, construções ocupam áreas de várzea, que deveriam receber o excesso de água, mas passam a concentrar risco.
As cidades também canalizam rios e córregos, essa prática acelera o fluxo da água e transfere o problema para outro ponto, a enchente deixa de acontecer em um bairro e passa a acontecer em outro.
A solução não depende de uma obra isolada, a cidade precisa tratar a drenagem como um sistema integrado, planejamento urbano, controle de ocupação e preservação de áreas permeáveis fazem parte da solução. Além disso, engenharia já tem alternativas, reservatórios de retenção, pavimentos permeáveis e parques alagáveis reduzem o impacto das chuvas, essas soluções controlam o volume e o tempo de escoamento.
O investimento precisa ser melhor direcionado, a cidade não pode apenas reagir ao problema, precisa antecipar cenários e planejar com base em dados atualizados.
O alagamento não é surpresa, ele é consequência de decisões repetidas ao longo do tempo, quando o planejamento falha, a obra não resolve, quando a gestão falha, o investimento se perde.
Cidades que entendem isso mudam o resultado, elas integram engenharia, planejamento e manutenção, e esse é o caminho para reduzir alagamentos de forma consistente.
Escrito por Francisco Machado
Fonte: Jornal do Bras