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Para enxergar as águas que nos constituem

Por: Bruna Bernacchio
Em menos de um século, a capital paulista se transformou. É difícil acreditar que, antes do mar de carros que hoje ocupa suas ruas, havia rios em SP. A cidade foi fundada entre os rios Anhangabaú e Tamanduateí, essenciais à vida que se desenvolveu por ali. Mas, para o modelo industrial da década de 30, os rios passaram a ser obstáculos, e as ferrovias, símbolo de modernização. O documentário “Entre Rios – A urbanização de São Paulo” conta essa história.

Na Serra da Cantareira, zona Norte de SP, onde está o maior sistema de captação e tratamento de água da América Latina, estão também alguns dos poucos rios não canalizados da cidade. Ao pé da Serra, na populosa favela da Brasilândia, estão o Riacho da Onça, do Canivete, do Bananal e do Bispo, entre outros. É fácil enxergar, ali, a água correndo – só que entulhada de lixo. As casas, muito próximas das várzeas, jogam o esgoto direto nos córregos. “Tanto do barraco, que da privada cai no riacho, como do Shopping Cidade Jardim, que segue pro Rio Pinheiros, por encanamento”, revela o geógrafo Luiz de Campos Jr, da iniciativa Rios e Ruas. Segundo ele, a Sabesp não tem coletor em vários locais da cidade.

No primeiro domingo de dezembro, ao lado do Riacho da Onça, jovens do Jardim Maria Luiza, um dos bairros da região, grafitavam os muros para sensibilizar a vizinhança. Somam-se ao esforço os coletivos Projeto Vista Verde e Circuito de Bike e seu Quintino – líder comunitário, conselheiro da Prefeitura para questões do meio ambiente e fundador do Movimento Ousadia Popular, que há décadas planta, limpa e cuida da natureza da região. O Riacho da Onça tem 5 km de água corrente e ao seu lado se pretende implementar um parque, ciclovias e ciclofaixas.

São ao todo cerca de 3.000 km de águas fluviais na cidade. No centro, há dois grandes grupos de bacias hidrográficas: de um lado, vão se encontrando até desembocarem no Rio Pinheiros, e do outro, descem em direção ao Tamanduateí. Ambos convergem para o Tietê. Todas as outras dezenas de bacias da periferia também chegam em um desses três grandes rios, ou na Represa da Guarapiranga. Muitos estão tamponados pelo cimento, escondidos nas galerias, mas ainda vivos e ligados.

Rios e Ruas
O grupo Rios e Ruas, integrado pelo geógrafo, pelo urbanista José Bueno e amigos, organiza expedições e passeios para explorar o curso de córregos e rios da cidade. Participam também de duas ações de apropriação do espaço público e da riqueza das águas. Uma, encabeçada pelo Coletivo Ocupe e Abrace, na Praça Homero Silva, Pompeia – ou Praça da Nascente. Este ano, moradores da região liberaram o que ainda brotava do Água Preta, a poucos palmos do chão. Para utilização do recurso, instalaram no local uma cacimba – espécie de poço artesanal. Com uma tampa giratória preservam a qualidade da água, não potável, mas a mantém livre. Perto dali, entre a Vila Beatriz e a Vila Madalena, ao lado do Parque Linear que existe há dois anos, o mesmo tipo de captação foi construída e seu compartilhamento com a comunidade local já acontece com sucesso. É utilizada principalmente para a rega da Horta Comunitária das Corujas, cuidada de forma voluntária pelos moradores.

Do outro lado do Pinheiros, a Associação de Moradores do Morro do Querosene, no Butantã, luta pela reativação de uma fonte pública de água e a criação do Parque da Fonte. Região histórica de descanso e abastecimento de tribos indígenas e bandeirantes, a fonte foi canalizada no início do século XX, levando ao topo águas das nascentes do Rio Pirajussara Mirim. Algumas décadas depois, o dono do terreno particular, de área de 40 mil m², fechou o caminho para a fonte. Durante a gestão Kassab, ele foi tombado pelo Conpresp como patrimônio público e instituído zona de interesse ambiental. Antes, toda aquela região do Butantã era repleta de bicas. As pessoas faziam fila para abastecer suas reservas, depois drenadas e bloqueadas. Hoje, a Sabesp proibe toda e qualquer forma independente de captação de água.

Luiz costuma dizer que a cada 200 metros, em qualquer lugar da cidade, há um rio. Muitas vezes, as águas correm pela calçada e logo caem no bueiro, como é o caso do Rio Caraguaçu, ou Bela Vista. Mas há quem ainda se sirva dessas águas não dominadas, como seu Onofre Sabino, que há mais de 20 anos lava carros com água de uma nascente do Rio Saracura, que fica dentro de terreno abandonado. Ou Valter Bichara que, depois de descobrir que havia uma nascente do Rio Tiburtino dentro da sua casa, desistiu de aterrar a poça que insistia em aparecer e resolveu transformá-la numa fonte.

Fonte: Outras Palavras
Veja mais: http://outraspalavras.net/blog/2014/01/08/para-ver-as-aguas-que-nos-constituem/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=para-ver-as-aguas-que-nos-constituem

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