saneamento basico

Afinal, é financeiramente vantajoso para o Estado do Rio de Janeiro vender a CEDAE?

Por: Felipe Ponciano

A Lei 7.529/17 que permitia a venda das ações da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (CEDAE) foi aprovada para que o Estado do Rio de Janeiro (ERJ) entrasse no Regime de Recuperação Fiscal e recebesse o aval da União para um empréstimo, que a princípio seria de R$ 3,6 bilhões, mas que acabou sendo de R$ 2,9 bilhões[1].

Além do empréstimo, ao entrar para o Regime de Recuperação Fiscal o ERJ deixou de pagar as prestações relativas aos contratos de dívidas administrados pelo Tesouro Nacional por três anos, prorrogáveis por até mais três[2]. Assim, a decisão de privatizar o saneamento no estado foi tomada apenas como condicionante para conseguir financiamento em um momento de crise aguda.

Atualmente os governantes do ERJ parecem um tanto confusos sobre a decisão de privatizar a CEDAE. Em setembro de 2018 a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ) aprovou emenda que revogava a autorização para a venda das ações da CEDAE. Depois de a emenda ter sido vetada pelo governador, no início de dezembro a ALERJ derrubou o veto[3]. Assim, no momento, apesar de ter um contrato assinado em que as ações CEDAE aparecem como contragarantia ao Tesouro Nacional, o governo estadual não permite a privatização de sua maior estatal[4].

Seguramente o maior custo de não vender a CEDAE é a possível saída do Regime de Recuperação Fiscal, o que na ausência de outras medidas, poderia acarretar novos atrasos, tanto dos salários dos servidores do estado quanto dos repasses para serviços públicos. Mesmo assim cabe à dúvida: analisando apenas a operação, vale a pena para o Estado do Rio de Janeiro vender a CEDAE?

Existem diversas óticas para responder a pergunta. Podemos avaliar os impactos da privatização na eficiência, nos investimentos, nas tarifas, ou no caminho rumo à universalização do saneamento. Mas, no momento, devido à precariedade das contas do ERJ, uma análise financeira da venda da CEDAE merece destaque[5].

Teoricamente, o valor de venda da CEDAE seria equivalente ao valor do seu fluxo de caixa descontado por uma taxa que reflita o risco associado ao investimento. Assim, o governo estaria abrindo mão de receita futura com o objetivo de receber o dinheiro descontado de forma adiantada, o que não seria ruim para um estado com dificuldade de caixa.

Entretanto, além de incertezas em relação aos fluxos de receitas e despesas futuras, comuns a qualquer negócio, devido às especificidades da CEDAE há uma diferença considerável entre o valor que o Estado poderia receber como proprietário da empresa e de quanto que ele poderia receber ao vendê-la.

Em primeiro lugar, são os municípios que detêm o poder concedente sobre os serviços de saneamento. A CEDAE apenas presta os serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário por meio de contratos firmados com os municípios. Hoje apenas o governo estadual, como proprietário da CEDAE, recebe dividendos dos lucros auferidos pela operação, mas ao vender empresa, o que aconteceria com as concessões? O comprador levaria todas elas sem dever nada aos municípios? Ou pagaria uma parte também às prefeituras? Principalmente, o município do Rio de Janeiro – responsável por 77% da receita bruta da companhia – com quem a CEDAE possui um contrato assinado em 2007 que prevê a prestação dos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário pelo período de 50 anos, prorrogáveis por mais 50 anos[6], aceitaria sair de mãos abanando da operação?

Assim, ao continuar como proprietário da CEDAE, o ERJ garante receber exclusivamente os dividendos da companhia. Entretanto, além de não ser garantido o que aconteceria com as concessões no caso da empresa ser vendida, diminuindo o valor de mercado da empresa, há a possibilidade de uma parte do dinheiro ser repassada aos municípios.

Outra situação que colabora para a diferença é provocada pela imunidade tributária quanto aos impostos federais concedida a CEDAE devido à empresa executar serviço público de abastecimento de água e tratamento de esgoto[7], ou seja, ao se tornar uma empresa privada a CEDAE voltaria a pagar impostos federais. Deste modo, o valor economizado pela imunidade deve ser desconsiderado no cálculo do preço de mercado companhia. É válido ressaltar que a decisão inclui devolução dos impostos cobrados até cinco anos antes da proposição da ação.

Enfim, em razão do exposto acima parece ser mais vantajoso financeiramente para o ERJ manter-se como proprietário da CEDAE, o que pode estar por trás da indecisão dos governantes[8].

Resolver esse imbróglio é de responsabilidade dos novos representantes eleitos que assumirão em 2019, mas, como de costume no Brasil, o assunto pode acabar sendo resolvido na justiça[9].

Fonte: Linkedin

Últimas Notícias:
Como estruturas de drenagem evitam enchentes nos centros urbanos

Como estruturas de drenagem evitam enchentes nos centros urbanos?

Os projetos de Engenharia desempenham um papel essencial na preparação das grandes cidades para períodos de chuvas intensas. Na Grande São Paulo, obras de drenagem e intervenções em infraestrutura urbana contribuem para reduzir os impactos causados pelos temporais e ampliar a proteção de comércios, moradias e vias públicas.

Leia mais »