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Cedae não investiu para evitar nova crise da geosmina, apesar do lucro de R$ 1 bilhão; especialistas criticam

Esgoto continua sendo lançado próximo do ponto de captação de água, entre outros problemas; empresa admitiu que não fez grandes investimentos.

A direção da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae) admitiu que a empresa não fez grandes investimentos para resolver os principais problemas que ameaçam a qualidade da água que abastece a casa de milhares de pessoas no estado. No final do último mês de janeiro, a Cedae informou ter encontrado geosmina na água do Rio Guandu. Alguns dias antes, moradores de diversos bairros do Grande Rio relataram cheiro e gosto de terra na água encanada distribuída pela companhia. O problema é muito semelhante ao que gerou a crise hídrica de 2020, quando milhares de pessoas receberam, por semanas, água com cheiro e gosto ruins — às vezes amarelada.

 

Faturamento alto

A falta de investimentos para melhorar a qualidade do serviço coincide com um período de grande faturamento da companhia. No último balanço financeiro publicado pela empresa, referente a 2019, a Cedae apresentou lucro líquido superior a R$ 1 bilhão. O valor foi 23% maior do que o lucro do ano anterior. Segundo a Cedae, o balanço de 2020 só será divulgado no próximo mês de março.

 

Problema sem solução

Entre os principais problemas que ameaçam a qualidade da água dos moradores do Rio de Janeiro está a geosmina, uma substância orgânica produzida por algas e que, segundo a Cedae, não representa nenhum risco à saúde dos consumidores.

Apesar de não apresentar riscos, segundo os técnicos da empresa, a geosmina altera o gosto e o cheiro da água.

Especialistas afirmaram que uma grande quantidade de esgoto continua sendo lançada próximo do ponto de captação de água no Rio Guandu, e na opinião dos técnicos, a maior estação de tratamento de água do mundo continua sofrendo com a falta de equipamentos e instalações ultrapassadas.

Outro problema é o acúmulo de lodo no fundo dos decantadores. A Cedae não conta mais com os raspadores mecânicos que aceleram a limpeza desses tanques.

 

MP aponta má gestão

Na opinião do promotor do Ministério Público, José Alexandre Maximino, a crise da água tem origem na má administração da empresa. Contudo, ele acha que nem sempre buscar a Justiça é a melhor solução.

“Ação judicial já temos muitas, ação com liminar, na hora de efetivar é muito difícil. Então o nosso apelo aqui para as autoridades é que possamos firmar um termo de ajustamento de conduta homologado em juízo para que a sociedade não continue a sofrer com episódios como esse”, disse.

Crise pode piorar

Para o professor de engenharia sanitária e meio ambiente da UERJ, Gandhi Giordano, a crise hídrica pode se agravar.

“Você tem que fazer uma limpeza constante aquele manancial. O que eles fizeram? Eles sujaram mais. Eles ficam colocando produtos para reagir com o fósforo que está lá dentro que vem do esgoto. Então esse material vai pro fundo e represa. Esse ano está voltando porque ele fica sedimentado no fundo, mas ele não vai embora”, explicou o professor.

A ‘Crise da Geosmina’

Nos primeiros dias de 2020, o Rio de Janeiro passou por uma das piores crises hídricas do estado. Milhares de pessoas receberam, por semanas, água com cheiro e gosto ruins.

 

LEIAM MAIS: CRISE DA ÁGUA NO RIO: CEDAE SUSPENDE E RETOMA OPERAÇÃO NO GUANDU

 

Na época, se pensava que a geosmina, uma substância produzida por algas que se reproduzem no esgoto, era a responsável pelas alterações. No fim de janeiro, cargas de carvão ativado foram despejadas na Estação do Guandu. O tratamento deu certo, e dias depois a água passou a chegar limpa. A culpa não foi da geosmina. O gosto e cheiro ruins foram causados por um composto orgânico semelhante, o 2-MIB, segundo análises de pesquisadores da UFRJ. A pesquisa encontrou uma forte presença de esgoto doméstico e também poluição industrial. O então governador Wilson Witzel chegou a anunciar uma obra de R$ 92 milhões para desviar o leito dos afluentes do Guandu para diminuir a carga de esgoto que entra na estação de tratamento, mas o processo foi revogado. Em outubro, a Agência Reguladora de Energia e Saneamento Básico do estado (Agenersa) aplicou uma multa de R$ 5,7 milhões na Cedae pela contaminação. A companhia também firmou um termo de ajustamento de conduta no qual se obrigava a fazer, todos os dias, a mediação das cianotoxinas na Estação do Rio Guandu, com emissão de relatórios mensais.

O que dizem os envolvidos

A Agência Reguladora de Energia e Saneamento Básico do Estado (Agenersa) informou que cumpre o papel determinado por lei, fiscalizando a Cedae e multando quando há falhas na prestação do serviço.

Já a Cedae informou que tem investido na aplicação de carvão ativado na estação do Guandu e de argila na lagoa de água não tratada. Eles dizem ainda que já concluíram a licitação para a instalação de raspadores para retirada do lodo.

Fonte: G1

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