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Solução possível para a crise de abastecimento pode vir do esgoto

O Jornal Nacional está exibindo, nesta semana, uma série especial de reportagens sobre a água. Sobre a escassez dela. Nesta quarta-feira (26), o repórter André Trigueiro mostra que uma solução possível para a crise de abastecimento pode vir de onde menos se espera.

Ele polui o meio ambiente, espalha doenças. Mas em tempos de seca, o esgoto pode ser uma das soluções. Para isso, é preciso reaproveitá-lo com inteligência. O resultado é água limpa, cristalina, produzida em uma estação de tratamento.

Em Búzios, no litoral do estado do Rio, 5% do esgoto da cidade já passam por uma filtragem especial para irrigar um campo de golfe.

“No começo a gente sofreu um pouco de impacto, poxa, a gente vai usar água de esgoto, mas as pessoas têm que ver por trás que existem todos os tratamentos”, diz o diretor do campo de golfe Fabrício Mônaco.

Esgoto passa por estações de tratamento equipadas com filtros especiais

São 40 mil litros por dia. Uma receita extra de R$ 10 mil por mês para a concessionária. Quem paga a conta também comemora: “Se eu fosse contratar serviço direto de água, seria muito mais oneroso do que a água hoje de reuso da concessionária”, afirma Fabrício.

Para virar água de reuso, o esgoto passa por estações de tratamento equipadas com filtros especiais e membranas que retiram todas as impurezas.

“Do outro lado sai água limpa, e desse lado aqui, fica retido toda a sujeira que estava no esgoto”, mostra o prefeito de Búzios.

Em alguns dias do verão, a população de Búzios se multiplica por dez, principalmente turistas que vem de outra cidade e a falta de água ainda acontece. Para evitar esse problema tem gente defendendo o uso dessa água na rede de abastecimento.

Jornal Nacional: A água tem gosto de quê, prefeito?
Prefeito de Búzios: Normal, gosto de água.

O prefeito da cidade, que é médico, sabe que a água só estaria própria para consumo se recebesse de volta os sais minerais retirados pelos filtros. Um golinho não tem problema. Problema mesmo é não poder usar a água de reuso no sistema de abastecimento.

“A gente está vendo hoje, com a crise em São Paulo e alguns outros lugares, a necessidade de ter acesso a outras fontes de água e eu acho que isso precisa ser modificado”, diz Carlos Roma Júnior, concessionária de água e esgoto – Prolagos.

Esgoto tratado nos EUA não vai direto para as redes de abastecimento

Segundo especialistas, a legislação brasileira não é clara o suficiente para permitir a ligação direta da água de reuso com as redes de abastecimento.

O que já é uma realidade em países como Cingapura e Namíbia. Nos Estados Unidos, o esgoto tratado não vai direto para as redes de abastecimento, e sim para reservatórios de onde as companhias de abastecimento retiram a água que depois será servida à população. Isso já acontece nos estados da Califórnia e do Texas.

Campinas será a primeira cidade do Brasil a utilizar água de reuso como se faz nos Estados Unidos.

“Existe uma certa brecha de entendimento desse reuso indireto. Que é pegar o efluente, jogar em uma represa e depois pegar”, explica Eduardo Pacheco, engenheiro do Portal Tratamento de Água.

Foram R$ 180 milhões investidos em duas estações. Juntas, têm capacidade para produzir 360 litros de água de reuso por segundo. O suficiente para abastecer uma população de 155 mil pessoas por dia.

A água tratada de esgoto que sai da estação é lançada no rio Capivari no ponto que é o encontro da água de reuso, bem mais limpa, com a água suja do Rio Capivari. Mas isso vai mudar. A partir de 2016, a água de reuso será lançada a 19 quilômetros de distância, rio acima. Uma nova tubulação levará o esgoto tratado até um ponto do rio bem próximo da estação de água que abastece Campinas.

Água de reuso responde por menos de 1% do consumo de água no Brasil

A ideia é reforçar o volume de água do rio Capivari a apenas 400 metros de distância da estação de tratamento. O ponto de captação da estação de tratamento abastece aproximadamente 60 mil moradores de Campinas.

“Nós pegarmos essa água com 90% de grau de pureza, levarmos ela até a nossa captação, ou seja, um pouco antes da nossa captação, ela vai fazer a diluição da água do rio, que vem do nosso rio Capivari, onde nós fazemos a captação. Com isso, há melhora na qualidade e na quantidade. Em melhorando a qualidade, gastaremos muito menos no tratamento da água, pois usaremos menos produtos químicos”, afirma Marco Antônio dos Santos, Soc. de Abastecimento de Água e Saneamento.

O especialista Gesner de Oliveira estima que a água de reuso responde por menos de 1% do consumo de água no Brasil. “Esgoto é visto como algo feio, diferente de água. O que é um mito. Na verdade, é a mesma coisa. Há água de diferentes qualidades e com diferentes propriedades físico-químicas. Por isso que há laboratórios, laboratórios acreditados. Há testes que são realizados antes de, naturalmente, colocar na rede de distribuição pública”, afirma professor da FGV-SP Gesner de Oliveira.

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