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Em Teresina/PI, 69% do esgoto é jogado nos rios sem tratamentos

Como a cobertura de esgotamento sanitário da Capital é de 31%, os rios se tornam o destino final mais comum desses rejeitos

Sem um sistema de coleta e tratamento de esgoto capaz de dar conta de toda demanda urbana de Teresina, já que cobre apenas 31% da Capital, a maior parte desses resíduos acabam tendo os rios Poti e Parnaíba como destino final. Isto acontece porque, nas regiões onde este sistema não foi implantado, o esgoto ou vai para o rio ou é lançado em fossa individual. Em ambos os casos, os prejuízos ao meio ambiente são incalculáveis.

Além de contribuir para o processo de poluição desses mananciais, despejar os resíduos nos rios torna-se um problema cíclico, haja visto que 90% da água que abastece as residências teresinenses são captadas do Rio Parnaíba. Por outro lado, ao armazená-los em fossas, corre-se o risco de contaminação do solo e do lençol freático, além da possibilidade desse resíduo se misturar clandestinamente à rede de drenagem pluvial do município, que também desemboca nestes afluentes – através das chamadas bocas de lobo.

“Onde não há coleta de uma rede pública de esgoto, é necessário fazer seu sistema individual, que não é o mais adequado, mas há normas que regulamentam isso, que é a fossa filtro. Mas, na prática, como vemos isso em Teresina e em outras cidades? Pessoas que não fizeram suas fossas e descartam isso direto nas canaletas do sistema de drenagem e que, em algum momento, vai cair nos rios”, afirma Diego Dal Magro, diretor executivo da Águas de Teresina, empresa responsável pela coleta e tratamento de esgoto na capital piauiense.

Sem o tratamento adequado, o esgoto despejado diretamente nos rios altera o padrão de qualidade destes afluentes. É o que destaca o professor Carlos Ernando, coordenador do Laboratório de Saneamento da Universidade Federal do Piauí (Ufpi).

 “O grande problema que atrapalha a qualidade da água dos rios é o esgoto. Aferimos muito isso pela presença de coliformes fecais, que é um indicativo da poluição causada pelos esgotos, que é o problema que temos em relação à qualidade do Parnaíba e do Poti em Teresina, já que a cidade não tem rede de esgoto sanitário”, reforça o pesquisador, que realiza a coleta e o monitoramento das condições de uso desses rios.

Morando às margens de esgoto a céu aberto, mãe conta que bebê vive doente

Uma grade separa um bebê de 10 meses de um buraco com esgoto. Mas o mal cheiro e as doenças causadas pela falta de saneamento básico não são impedidas nem mesmo por uma parede de concreto.

Lixo, resto de carne de porco, materiais de construção e até cobra morta são jogadas à beira do canal da galeria localizada na Rua Padre Cícero, no Parque Afonso Gil, na zona Sul de Teresina. O bebê citado acima é filho de Fabiana Araújo, de 17 anos, que mora na região há três meses. Ela conta que agora o seu bebê está sempre com febre e problemas respiratórios.

“Eu evito sair para a calçada com o meu filho, a porta fica fechada. Mas o mal cheiro entra. É insuportável. Mas a gente já se acostumou”, relata Fabiana Araújo. A jovem mora na casa com seu filho, a mãe Sebastiana Araújo, de 40 anos, seus dois irmãos e o pai.

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Saúde pública

A família morava no Residencial Torquato Neto, mas, pela distância dos hospitais e do centro da cidade, resolveram se mudar. Sebastiana Araújo conta que não sabia que a casa com aluguel barato sairia tão caro.

“A mulher que arrumou a casa pra mim não disse que era na beira da grota. Nosso medo maior é o período de chuva. Ano passado, no inverno, a casa ao lado desabou. E a situação vai ficar pior porque a água vai subir, o mal cheiro aumenta e ainda tem o risco de a gente pegar dengue”, conta Sebastiana Araújo.

A família pretende sair da casa, mas encontrar um novo local, bem localizado e no valor de R$200, é complicado. Enquanto isso, o bebê de 10 meses vai continuar sem o banho de sol e com as crises respiratórias por algum tempo.

Moradores não contribuem com a limpeza e pioram situação do local

Além da situação da galeria, que é um problema de saúde pública, os moradores do Parque Afonso Gil costumam jogar entulhos e sobras no local, transformando a área em depósito de lixo a céu aberto.

Hoberdania Maria de Lima é natural de Marcolândia (PI), município localizado a 420 km de Teresina, e mora com a família há cerca de 13 anos em frente à galeria do Parque Afonso Gil. Na residência, moram duas crianças, sua mãe e o avô de 87 anos, seu Antônio. Hoberdania é uma das moradoras da comunidade que procura sempre denunciar o descaso e ir em busca de limpeza para o local.

“A gente liga para o CTA [Consórcio Teresina Ambiental – empresa responsável pela limpeza pública] para fazer a limpeza; eles vêm pela manhã, e à noite já está sujo. Matam porco, cobra, jogam resto de construção civil. Vêm pessoas de outros bairros e ruas para jogar as coisas aqui E se a gente quiser que retire para não piorar a situação”, relata Hoberdania.

Segundo a moradora, sua sobrinha, de 2 anos, teve dengue no início do ano. Além da doença, a jovem tem medo da sua casa cair em período de chuva, como já aconteceu com vizinhos.

“Quando chove, a água sobe e já chegou a derrubar uma casa a cerca de um ano. Os donos foram embora antes das chuvas. Mas foi por pouco que não aconteceu uma tragédia. Ano passado, eu fui para Marcolândia quando começou a chover. Minha mãe não quis ir. E este ano não fico aqui também”, fala Hoberdania.

Na noite anterior à entrevista, Hoberdania conta que o seu avô de 87 anos passou a noite tossindo e com febre alta. E de acordo com a neta, o motivo é a situação da galeria.

Fonte: Portal do dia.

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