saneamento basico

Cedae projeta investimento de R$ 2 bilhões em saneamento na Barra, Jacarepaguá e Recreio/RJ

Enquanto prefeitura tenta entregar AP4 a Parceria Público-Privada, Cedae planeja investimento em saneamento nas áreas formais e informais

Produzido por: O Globo

A Cedae espera fechar dois acordos que, se cumpridos integralmente, podem acabar com o despejo de esgoto in natura no Complexo Lagunar de Jacarepaguá. O primeiro é para a área formal da região e já está em fase de consulta pública. A companhia pretende destinar R$ 1,7 bilhão para a universalização do acesso ao saneamento básico na Área de Planejamento 4 (AP4), que abrange bairros como Barra, Recreio e Jacarepaguá. O segundo projeto, que diz respeito à área favelizada, teria um custo de R$ 281 milhões e precisaria da colaboração da prefeitura. O problema é que o município tem outros planos: quer tirar da Cedae a responsabilidade pelo saneamento da região e substituí-la por uma Parceria Público-Privada (PPP).

Hoje a cobertura da Cedae na região é de 70% na área formal. O primeiro acordo foi costurado em reuniões com a participação de órgãos estaduais, como a Agência Reguladora de Energia e Saneamento Básico do Estado do Rio de Janeiro (Agenersa) e o Instituto Estadual do Ambiente (Inea), além dos Ministérios Públicos federal e estadual e organizações da sociedade civil. A verba necessária para as obras seria toda da Cedae.

O projeto seria concluído em dez anos. O prazo é visto pelos órgãos como razoável, e o cronograma privilegia as obras de maior impacto ambiental. No primeiro ano, a intenção é investir R$ 167 milhões. O trabalho incluiria, por exemplo, a melhora da coleta de esgoto de Taquara e adjacências, área para a qual está previsto o maior aporte: R$ 300 milhões. A Cidade de Deus, que é considerada parte da área formal da cidade pela companhia, deve receber obras avaliadas em R$ 12 milhões.

Término de obras

Outro ponto do acordo cobre a manutenção da estrutura existente e o término de obras já em andamento na região. Atualmente, há três obras paralisadas. Na Restinga de Itapeba, na Reserva, está a mais atrasada. Com orçamento de R$ 56 milhões, para a construção de um tronco coletor e duas elevatórias, ela ainda não chegou à metade. O atraso se deve ao fato de o Tribunal de Contas do Estado (TCE) ter avaliado que há um superfaturamento de R$ 3 milhões no orçamento. Apesar de não concordar, a Cedae pretende romper o contrato com a empresa escolhida para fazer o serviço e realizar uma nova licitação ainda neste primeiro semestre, conforme recomendação do TCE.

Outra obra importante paralisada fica na Lagoa da Tijuca. Para evitar a poluição do local, a Cedae está construindo um tronco coletor e já instalou uma estação elevatória. As obras estão 87% prontas, mas, por divergências contratuais com a empresa responsável, a concessionária também está cancelando o contrato e pretende abrir uma nova licitação.

Condomínios na mira

Com o avanço do trabalho, os órgãos esperam conseguir convencer os cerca de 140 condomínios da AP4 que ainda não o fizeram a se conectarem com a rede da Cedae. Muitos destes residenciais alegam que já têm redes internas de tratamento e que elas funcionam melhor que a atual estrutura da companhia. A ideia dos órgãos fiscalizadores é começar a multar aqueles que não tratam adequadamente os dejetos, nos casos em que os residenciais continuem se recusando a se conectar à rede da Cedae. Hoje, a fiscalização praticamente inexiste.

O engenheiro ambiental David Zee, vice-presidente da Câmara Comunitária da Barra da Tijuca, participou das discussões e conta que o acordo firmado é fruto de negociações longas e difíceis:

— Agora parece que estamos todos caminhando juntos. Cada um cedeu um pouco e só assim foi possível.

Pela área informal, briga com prefeitura deve continuar

O outro acordo entre a Cedae e o Ministério Público Federal (MPF) está sobre a mesa da empresa, mas envolve o município. Em 2003 a Cedae foi condenada, em uma ação civil pública de 2000 movida pelo MPF, a apresentar um projeto para solucionar o problema de despejo de esgoto das favelas (cerca de 214) da AP4. A empresa então encomendou um estudo ao Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe) da UFRJ.

A solução apresentada exige um investimento de R$ 281 milhões, sendo a maior parte na técnica de tempo seco ( em que o esgoto é barrado antes de ser despejado no curso d’água), que custaria R$ 80 milhões. Segundo os especialistas, apenas com o tempo seco já seriam solucionados 80% do problema. O restante da solução inclui a construção de Unidades de Tratamento de Rios (UTR) para a comunidade de Rio das Pedras e outras mais populosas, similares à que já funciona na Cidade de Deus.

Pelo projeto, apesar do investimento inicial da concessionária, a prefeitura teria que assumir a operação das áreas informais. Isso porque em 2007 foi assinado um Termo Recíproco de Direitos e Obrigações, entre prefeitura, estado e Cedae, segundo o qual caberia ao município a responsabilidade pelo saneamento nas favelas da região. Por isso, a Cedae diz que a encomenda do estudo à Coppe “representa uma postura colaborativa, já que a responsabilidade pelo serviço de esgotamento nas áreas informais cabe ao município”. Os Ministérios Públicos e a empresa tentam, desde o ano passado, fazer com que a prefeitura cumpra o acordo.

PPP

O quadro ficou ainda mais complexo no ano passado, quando o prefeito Marcelo Crivella decidiu lançar uma Parceria Público-Privada (PPP) para tratar do saneamento na região da AP4. A licitação, porém, foi suspensa por uma liminar obtida pela Cedae na Justiça. A empresa sustenta que há um contrato assinado com o governo estadual e a prefeitura em 2007 que lhe permite explorar água e esgoto na região até 2057. Porém, para o prefeito, a implantação de uma PPP resolveria o problema da área a um custo menor.

Nas áreas formais, o trabalho começa a se desenhar. Na segunda-feira passada, foi publicada no Diário Oficial a abertura da consulta pública sobre o projeto, que vai até 11 de abril. Em seguida, virão a assinatura do acordo e as licitações. Mas, com tantas divergências para resolver com a prefeitura, não há certeza de que os planos da Cedae para as áreas informais da AP4 serão implementados.

A intenção dos órgãos que elaboraram a proposta é apresentá-la ao município. Em caso de rejeição, o MP deverá pedir que a prefeitura apresente outra solução. E, se não se chegar a um consenso, o impasse poderá levar a um novo processo na Justiça, já que para o Ministério Público Federal o acordo de 2007 está válido até que haja outro ou a Justiça o anule.

Caso venha a fazer as intervenções na área informal, o governo do estado estuda criar uma tarifa social que teria as mesmas restrições que o Cadastro Único da União. Atualmente o desconto na conta de água é dado pela Cedae se o imóvel está em uma Área de Interesse Social, o que beneficia inclusive pessoas de classe média.

Outro ponto estudado pela concessionária é como fazer a manutenção das estruturas após as obras. Como muitas estações de tempo seco ficariam em áreas de conflito, a intenção é capacitar moradores de comunidades próximas para que eles próprios a realizem.

Procurada para comentar a possibilidade de um acordo com a Cedae e o governo estadual na AP4, a prefeitura se limitou a responder sobre o imbróglio judicial envolvendo a PPP: “O processo está suspenso porque há uma liminar, em vigor, que impede sua continuidade. Estamos avaliando quais providências poderão ser tomadas”.

Fonte: O Globo

Últimas Notícias:
Empresas de saneamento cogitam suspender fluoretação da água com alta no preço do flúor

Empresas de saneamento cogitam suspender fluoretação da água com alta no preço do flúor

Há quatro meses o estreito de Ormuz continua fechado por conta da guerra no Oriente Médio. O aumento consequente no preço do petróleo e o efeito cascata resultante nos diversos produtos que envolvem o recurso na produção levaram a uma disparada no valor de insumos e materiais usados nos setores de infraestrutura, rodovias e saneamento, chegando a até mesmo afetar a qualidade da água que abastece as casas.

Leia mais »
Após crise, Aegea convoca capitalização de até R$ 2,1 bi

Após crise, Aegea convoca capitalização de até R$ 2,1 bi

A Aegea planeja fazer um aumento de capital entre R$ 1,5 bilhão e R$ 2,1 bilhões, como forma de reduzir sua alavancagem financeira, que está próxima dos limites de endividamento da companhia. Além disso, a convocação dos sócios para a capitalização, divulgada na terça-feira (7), ocorreu em meio à crise da empresa junto ao mercado financeiro.

Leia mais »