A quantidade de esgoto transportada pelo rio Tietê, o principal de São Paulo, caiu 26,7% em um ano na Região Metropolitana — que inclui a capital paulista e 38 cidades do entorno.
O volume baixou de 210 toneladas por dia no ano passado para 154 em 2026 no trecho. Os dados são de um levantamento da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), vinculada à Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil) do governo estadual.
Em dois anos, a redução foi 29,4% — eram de 218 toneladas por dia em 2024. As medições são feitas na barragem da Pequena Central Hidrelétrica (PCH) Edgard de Souza, localizada na saída da Região Metropolitana.
O ponto permite acompanhar a quantidade de matéria orgânica levada pelo Tietê depois que o rio atravessa a área mais urbanizada do estado e segue em direção ao interior.
A Cetesb também registrou uma melhora na qualidade da água no trecho, medida pelo Índice de Qualidade da Água (IQA) — calculado por variáveis como turbidez, oxigênio dissolvido, carbono orgânico total e presença de sólidos.
O principal avanço ocorreu na região da Ponte dos Remédios, situada entre a Zona Oeste de SP e o município de Osasco. Nesse ponto, o IQA subiu de 15 para 23 entre 2024 e 2026 (quanto maior, melhor a qualidade). Isso, porém, significa que a qualidade da água passou de péssima para ruim no trecho.
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Esgoto no Rio Tietê diminuiu 26,7% em um ano na Região Metropolitana de São Paulo, afirma Cetesb
Atualmente, os órgãos de monitoramento classificam a qualidade da água como boa em 11 pontos da Região Metropolitana. A classificação é ruim em 12 pontos. Em dois pontos, a qualidade é péssima. Em outros dois, é regular. Apenas um ponto apresenta qualidade ótima.
Segundo o governo, um dos principais fatores para as melhorias foi a ampliação dos investimentos e das ações de saneamento na bacia do Tietê após a privatização da Sabesp, em julho de 2024.
Desde 2023, mais de 1,5 milhão de domicílios foram conectados à rede de esgoto na bacia do rio. A imensa maioria dessas ligações ocorreu na Região Metropolitana de São Paulo.
— Os investimentos da Sabesp ficavam em torno de 3 a 4 bilhões de reais por ano, agora estão entre 15 e 20 bilhões. A gente sabe que tem um caminho grande para percorrer, mas já consegue enxergar que o investimento está fazendo a diferença — diz Natália Resende, secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do estado.
A melhora, porém, ainda é pouco perceptível para a população (veja abaixo), uma vez que o nível de poluição do Tietê era pior que o do rio Pinheiros, recuperado ao longo dos quatro anos da gestão do ex-governador João Doria (então no PSDB), anterior à de Tarcísio de Freitas.
— Você tinha um rio que estava péssimo, principalmente na Região Metropolitana. Você não vai do péssimo pro ótimo, vai evoluindo. Mas vamos ter um rio com menos odor, uma cor, assim como o Pinheiros, menos escura e presença de fauna em alguns trechos. A gente vai ver isso acontecendo no Tietê até 2029 — completa Natália.
Na frente de desassoreamento, as equipes retiraram mais de 6,5 milhões de metros cúbicos de sedimentos do Tietê desde 2023.
Para dimensionar a gravidade do problema, somente em 2025, as equipes retiraram mais de 2,3 milhões de metros cúbicos de sedimentos dos rios Tietê e Pinheiros.
Esse volume equivale a 192 mil caminhões cheios. Enfileirados, eles percorreriam o trajeto entre São Paulo e Salvador.
Melhora ainda não é perceptível, afirma ONG
Ademais, a Fundação SOS Mata Atlântica monitora a qualidade do Tietê desde a década de 1990, quando começaram os esforços de despoluição. Na edição mais recente do estudo Observando o Tietê, divulgada em 2025, nenhum ponto registrou qualidade ótima.
No estudo, 55 pontos de coleta foram acompanhados mensalmente por grupos de voluntários entre agosto de 2024 e julho de 2025. Desse total, 22 ficam na capital paulista. Os grupos realizaram medições do Índice de Qualidade da Água (IQA) no rio principal e em seus afluentes.
Houve predomínio da condição regular. O resultado representa um avanço em relação a cenários anteriores. No entanto, ainda indica alta vulnerabilidade e restrições severas a qualquer uso da água.
Grande parte da poluição nas bacias a jusante decorre da falta de tratamento de esgoto na Região Metropolitana. Além disso, eventos extremos, barragens, uso de agrotóxicos, fertilizantes e outros poluentes também provocam impactos.
Para Malu Ribeiro, diretora de políticas públicas da SOS Mata Atlântica, a redução da carga orgânica apresentada pela Cetesb deve produzir resultados daqui para frente.
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No entanto, esses efeitos não são percebidos de imediato devido à carga de poluição já existente no rio.
Ela compara a situação à de um paciente que está enfartando. Nesse cenário, o paciente recebe apenas uma dieta com menos gordura, sem passar pelo desentupimento das artérias.
— Há uma grande redução da carga medida em DBO (demanda bioquímica de oxigênio), que é quanto o rio precisaria ter de oxigênio para depurar esse remanescente de esgoto tratado e não tratado que recebe. Mas ainda são toneladas por dia, o que faz com que o rio não tenha a menor condição de autodepuração desses poluentes orgânicos e inorgânicos. Então, para a população, praticamente não houve melhora, porque essa condição ainda não permite vida aquática — ela afirma.
A especialista considera que a meta da universalização do saneamento, prevista pela Sabesp até 2029, precisa ser acelerada e incluir as ocupações informais.
Também cita outras medidas, como a melhoria na tecnologia das estações de tratamento de esgoto para filtrar componentes além da carga orgânica e a necessidade de uma legislação mais restritiva em relação ao lançamento de poluentes.
— Tem essa evolução, mas não é suficiente, não é perceptível, porque o rio já está morto. Deixou de lançar menos poluente, mas não significa que despoluiu, porque ainda está lançando e a condição em que ele estava é muito ruim. O que é mais importante é a percepção da sociedade — completa.
Por fim, de acordo com a Semil, a curva de expansão do saneamento que prevê a universalização em 2029 se encontra atualmente acima da meta prevista.
Fonte: O Globo