saneamento basico

Avaliação da ocorrência de fármacos na água dos mananciais e para consumo humano da região metropolitana de Belo Horizonte

Resumo

A ocorrência de fármacos nos ambientes aquáticos e na água potável tem preocupado a comunidade científica principalmente no que diz respeito aos impactos causados ao meio ambiente e na saúde pública. O presente estudo relata a provável ocorrência de fármacos na água dos mananciais de abastecimento e na água potável da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH).

As amostras foram coletadas em seis Estações de Tratamento de Água (ETAs) da região durante os meses de setembro e outubro de 2016 e analisadas por espectrometria de massas. Os resultados preliminares mostram a provável ocorrência de fármacos antes e após o tratamento, o que pode evidenciar que o tratamento convencional não é eficiente na remoção desse tipo desse tipo de composto.

Introdução

Os fármacos são uma importante ferramenta para a recuperação e manutenção da saúde da população humana e animal. Eles são utilizados para os mais diversos fins e podem ser classificados em diversas categorias, tais como: anti-inflamatórios, antipiréticos, analgésicos, reguladores lipídicos, antibióticos, antidepressivos, agentes quimioterápicos, contraceptivos, entre outros (IKEHATA et al., 2006).

Após a administração, os fármacos são absorvidos, distribuídos, metabolizados e finalmente excretados pelo organismo. Nesse sentido, muitos estudos têm mostrado que somente parte do fármaco é metabolizado pelo organismo, formando os metabólitos. A outra parte permanece inalterada e, portanto farmacologicamente ativa, sendo excretada juntamente com esses metabólitos (KUMMERER e HENNINGER, 2003; FENT et al., 2006). Ao serem excretados, os fármacos passam a compor o esgoto doméstico que é conduzido às Estações de Tratamento de Efluentes (ETEs) ou lançado diretamente nos corpos d’água. Essa é uma das mais importantes rotas de introdução dos fármacos nos ambientes aquáticos.

O monitoramento ambiental dos fármacos ganhou força a partir dos anos 70, quando os primeiros estudos que relacionaram os mesmos a toxicidade aquática, genotoxicidade, distúrbios endócrinos e resistência em bactérias patogênicas foram publicados (HIGNITE e AZARNOFF, 1977). Além desses estudos, ressalta-se a evolução dos métodos analíticos que permitiram a detecção de poluentes emergentes em concentração que variam de ng/L ou μg/L em soluções líquidas como água e efluentes (ORT et al., 2010). Recentemente, a literatura tem apontado a utilização de extração em fase sólida seguida por cromatografia líquida de alta performance acoplada a espectrometria de massa com eletrospray (LC/MS/ESI) e a cromatografia gasosa também acoplada a espectrometria de massa (CG/MS) como técnicas analíticas viáveis para quantificação de fármacos (GROS et al., 2013).

O comportamento dos fármacos no meio ambiente não é bem conhecido. Devido a sua baixa volatilidade, acredita-se que o transporte desses compostos ocorra principalmente pelas matrizes aquosas, mas também pode ocorrer pela cadeia alimentar e por dispersão (BILA et al., 2003). Nas ETEs, os fármacos podem ser parcialmente ou totalmente degradados biologicamente, permanecerem intactos, serem removidos por meio de sorção ao lodo ou por degradação abiótica (TAMBOSI, 2008).

Por não serem totalmente removidos nas ETEs, os fármacos vem sendo encontrados em águas superficiais e na água tratada em concentrações que variam de ng/L a μg/L em diversas partes do mundo (LÓPEZ-SERNA et al., 2013; LÓPEZ-SERNA et al., 2012; CALZA et al, 2013; POSTIGO et al., 2014; HOUTMAN et al., 2014). No contexto do Brasil, os estudos que relatam a ocorrência de fármacos ainda são pontuais e relacionados, principalmente, aos perturbadores endócrinos (TORRES et al., 2015; KUSTER et al., 2009; SODRÉ et al., 2010). Bila et al. (2007) apresentam os estudos realizados no Brasil que investigaram a ocorrência de disruptores endócrinos em matrizes aquosas, principalmente em esgotos domésticos. Nas ETEs investigadas esses compostos foram encontrados na ordem de μg/L.

Muitas cidades no Brasil não possuem sistemas de tratamento de efluentes e os mesmos são lançados diretamente nos corpos d’água. Quando há tratamento, a grande maioria da ETEs adotam o tratamento biológico convencional que, conforme já mencionado, não é suficiente para a remoção de compostos recalcitrantes como os fármacos. Ao serem lançados nos mananciais, os compostos farmacêuticos devem ser removidos nas ETAs para que não sejam distribuídos à população através da água potável. Contudo, assim como os tratamentos convencionais de efluentes, muitos estudos demonstram que o tratamento convencional aplicado nas Estações de Tratamento de Água (ETA) não é capaz de remover os fármacos da água que é distribuída a população (HUERTA-FONTELA et al., 2011).

O tratamento convencional de água consiste em uma combinação de processos físicos e químicos que visam tornar a água própria para o consumo humano. As principais etapas são a coagulação, floculação, decantação, filtração e desinfecção (MOSTAFA et al., 2015). Dependendo do tipo de água disponível para a captação, o tratamento convencional pode sofrer alterações de acordo com o enquadramento das águas doces estabelecido pela Resolução 357 de 2005 do CONAMA (BRASIL, 2005). Na referida norma, as águas doces são classificadas em 5 classes, na qual as águas da classe especial podem ser utilizadas para o abastecimento humano após somente a etapa de desinfecção e as águas da classe III necessitariam de tratamento convencional ou avançado para sua distribuição. As águas pertencentes à classe IV não são indicadas para o consumo humano, mesmo após o tratamento.

Além do enquadramento previsto na legislação, as companhias de saneamento adaptam o tratamento convencional de acordo com sua experiência e necessidade em cada situação. Assim, por exemplo, quando há a possibilidade de formação de flocos de baixa densidade, como no caso de proliferação de algas, os decantadores podem ser substituídos por flotadores, que são mais eficientes na remoção desse tipo de contaminação. Outra variante do processo convencional de tratamento é a filtração direta, que está fortemente condicionada aos parâmetros turbidez, cor verdadeira, sólidos em suspensão, densidade de algas e coliformes na água bruta (DI BERNADO et al., 2003).

Diante desse cenário, o objetivo desse trabalho foi investigar a possível ocorrência de fármacos na água dos mananciais de captação e tratada de três ETAs da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Essa região é a terceira maior aglomeração urbana do Brasil, sendo composta atualmente por 34 municípios e por uma população de cerca de 5 milhões de habitantes (AGÊNCIA RMBH, 2009). Representa em torno de 40% da economia e 25% da população do estado, sendo considerada, portanto, o centro político, financeiro, comercial, educacional e cultural de Minas Gerais.

Autores: Eduarda Oliveira Reis; Ana Flávia Souza Foureaux; Lucilaine Valeria de Sousa Santos; Liséte Celina Lange e Míriam Cristina Santos Amaral.

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