Levantamento analisou a gravimetria de resíduos e identifica gargalos em embalagens multicamadas e poliestireno colorido para reciclagem.
O Brasil gera anualmente mais de 80 milhões de toneladas de resíduos sólidos. No entanto, um abismo separa o descarte doméstico da reciclagem efetiva. Menos de 9% desse total é reaproveitado, segundo dados da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe).
Para agravar o cenário, a startup Yattó – empresa de Economia Circular e Logística Reversa – realizou uma análise técnica inédita e revelou que as cooperativas enfrentam limitações industriais no esforço de coleta. Em média, os catadores descartam novamente 40% do material nos aterros sanitários por falta de viabilidade técnica ou comercial para processá-lo.
O Estudo Técnico de Análise Gravimétrica 2025, conduzido no âmbito do programa Yattó Transforma, mapeou o perfil de embalagens plásticas flexíveis e de poliestireno (PS) que circulam no fluxo de resíduos pós-consumo em cooperativas parceiras. Os dados indicam que a reciclagem brasileira enfrenta um “funil” de complexidade.
Materiais rígidos e transparentes possuem mercado consolidado. Já as embalagens multicamadas (flexíveis) e o PS colorido representam desafios críticos de triagem e valorização.
O Gargalo dos flexíveis e do “Código 7”
Segundo o estudo da startup, as embalagens plásticas flexíveis — comuns em snacks e pet food — dominam o descarte cotidiano devido à sua leveza e praticidade. No entanto, a análise gravimétrica identificou que a maioria dessas embalagens é composta por estruturas multicamadas. Elas são classificadas como “Outros” (Código 7). Essa característica dificulta a separação e reduz drasticamente sua reciclabilidade.
No segmento de alimentos, a representatividade dessas embalagens chegou a 45,77% em uma das cooperativas analisadas. Outro ponto crítico é a ausência de identificação clara da composição polimérica em muitas embalagens, o que compromete a rastreabilidade e a eficiência da triagem manual.
O levantamento também trouxe luz sobre o poliestireno (PS). Embora o PS branco ou transparente, típico de copos e talheres descartáveis, tenha maior aceitação, as embalagens coloridas — frequentes em iogurtes e bebidas lácteas — enfrentam severas restrições de mercado devido à pigmentação. A interação entre a aplicação do material e sua cor é determinante para definir se ele voltará ao ciclo produtivo ou se virará rejeito.
Rastreabilidade contra o Greenwashing
A Yattó, que atua conectando multinacionais como Nestlé, Cargill e Danone diretamente às cooperativas, foca justamente na gestão desse “rejeito” para garantir a conformidade ambiental de seus clientes. Para Alexandre Gallana Jr., CEO da empresa, o mercado precisa de transparência real, não apenas de documentos fiscais.
“A reciclagem no Brasil não pode mais ser baseada em notas fiscais de crédito de logística reversa que não correspondem ao material físico. Nosso estudo mostra que 40% do que é coletado com esforço hercúleo pelas cooperativas volta para o aterro porque a indústria ainda não desenhou soluções para o material complexo. Sem rastreabilidade total, as empresas correm um risco altíssimo de greenwashing involuntário ao reportarem índices de circularidade que não se sustentam na ponta da cadeia”, afirma o CEO.
A startup, por meio do programa Yattó Transforma, paga às cooperativas pelos materiais que antes consideravam “lixo” e que geravam custo de descarte. Ela transforma esses resíduos em novos ativos, como mobiliário para ONGs ou madeira plástica, gerando renda adicional para os catadores e promovendo impacto socioambiental positivo para as marcas.
A estratégia posiciona a Yattó como um elo estratégico diante de novos marcos regulatórios. Um exemplo é a Lei de Incentivo à Reciclagem (LIR). Ela permite a destinação de parte do imposto de renda de empresas para projetos que fomentem a economia circular regional.
“O futuro da economia circular no Brasil depende de transformar o ‘rejeito do rejeito’ em ativo. Na Yattó, nosso papel é justamente dar valor econômico ao que ninguém quer, pagando às cooperativas por materiais complexos e garantindo que eles virem novos produtos. Só há ESG real onde há rastreabilidade física do material, do descarte à nova vida útil”, finaliza Gallana Jr.
Fonte: Ciclo vivo
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