A piora na alavancagem da Aegea, revelada nos resultados da companhia divulgados na madrugada de sábado (11). Após sucessivos atrasos, acendeu um alerta no mercado sobre a sustentabilidade financeira de novos projetos de saneamento.
Para investidores, o principal desafio passa a ser a viabilidade dos próximos leilões. Ao Valor, a diretora de infraestrutura e transição energética do BNDES, Luciana Costa, minimizou, porém, a possibilidade de o episódio afetar novos projetos de concessão ou parcerias público privadas (PPPs).
O BNDES atua como estruturador de projetos de saneamento desde 2016, definindo modelos de concessão e PPPs. O banco também tem papel central no financiamento do setor, que ganhou tração com o novo marco legal, aprovado em 2020.
O banco estruturou, por exemplo, a privatização dos serviços de água e esgoto do Rio, um dos maiores do setor, em 2021. Na ocasião, a Aegea arrematou os blocos 1 e 4, que compreendem parte da capital fluminense e 26 cidades do Estado.
A companhia também está presente em 890 cidades de 15 Estados do país. A alavancagem da empresa aumentou. Ela é representada pela relação entre a dívida líquida e o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês).
Esse indicador saltou de 2,9 vezes ao fim de 2024 para 3,78 vezes ao fim do ano passado.
Segundo Costa, o BNDES mantém, além disso, a previsão de estruturar oito projetos de saneamento em 2026. Entre eles, estão incluídas três PPPs de tratamento de esgoto em Goiás, na Paraíba e no Rio Grande do Norte.
“São oito projetos que estão em fases diferentes, mas têm potencial de gerar R$ 46 bilhões em investimentos e impactar 18 milhões de pessoas.”
A diretora considera o episódio da Aegea como um processo de “amadurecimento contábil” que não representa risco a investimentos futuros.
“Se, por um lado, a revisão de contabilização gera um impacto na credibilidade da empresa, por outro lado, se corrige e não esperamos nenhuma nova surpresa daqui para frente”, disse Costa
BNDES minimiza efeito Aegea sobre projetos
Mas Rodrigo Bertocceli, sócio na Giamundo Neto Advogados, entende que o caso evidenciou o desafio de viabilizar financeiramente a próxima onda de investimentos em um setor alavancado.
Ele diz que os contratos estão cada vez mais complexos, com metas agressivas de universalização e alto investimento inicial, o que pressiona o equilíbrio econômico financeiro desde o início da concessão.
“Os novos projetos chegam em um contexto mais exigente, com custo de capital elevado, maior seletividade de investidores e necessidade crescente de estruturas financeiras mais sofisticadas”, disse.
Segundo Costa, a viabilidade de investimentos em cenário que combina alta demanda e alavancagem depende de instrumentos que “alarguem” o mercado de capitais.
E também de ferramentas que mantenham a continuidade dos projetos em cenários difíceis. O BNDES, disse, tem lançado mão de debêntures faseadas e outros instrumentos:
“O setor caminha para a sustentabilidade financeira de mercado”, afirmou.
A executiva ressaltou que os recursos para financiar o setor têm pouco subsídio, baseando-se no FGTS e em “inovações financeiras” como “project finance”, modelo em que o empréstimo é pago com o recursos gerados pelo projeto.
“Infraestrutura é um setor em que, quando a gente aprova um projeto, ele sai financiado. A receita da concessão tem alto grau de previsibilidade.” Em 2022, o BNDES financiou a Aegea com R$ 19,3 bilhões em um empréstimo pela modalidade de “project finance”.
Por fim, embora a alavancagem da companhia tenha subido, Costa ressaltou que o respeito às obrigações contratuais (“covenants”) e a ausência de aceleração de dívidas garantiram tranquilidade ao banco. O BNDES mantém a Aegea como cliente prioritário, afirmou.
Fonte: Valor