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Resíduos gerar energia limpa ou gerar metano

Resíduos: gerar energia limpa ou gerar metano?

O país não precisa escolher entre reciclar, compostar, biodigerir ou recuperar energia. Precisa fazer tudo isso de forma integrada.

O Brasil enfrenta há décadas um desafio estrutural na gestão de resíduos sólidos urbanos. Mais de 40% dos resíduos gerados no país têm destinação inadequada, sendo encaminhados a lixões ou aterros controlados, de acordo com o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2025 (Abrema).

Diante desse quadro, o país não está em condições de recusar soluções: precisa de todas as tecnologias disponíveis, de forma integrada, da reciclagem à recuperação energética.

O artigo “Resíduos: destruir valor ou criar riqueza?”, publicado pelo Valor Econômico em 14 de agosto, traz ao debate público uma discussão necessária. Parte, porém, de uma premissa equivocada ao tratar a recuperação energética de resíduos (Waste-to-Energy), que transforma rejeitos não recicláveis em energia elétrica, como antagonista da reciclagem, da compostagem e, por consequência, da economia circular.

É natural que surjam dúvidas, afinal o Brasil ainda não tem nenhuma usina dessa natureza em funcionamento. Enquanto cerca de 3 mil usinas de recuperação energética (UREs) operam mundo afora, o país começa a construir as suas. A primeira, a URE Barueri (SP), com cerca de 20 MW, deve ser inaugurada em 2027.

A recuperação energética existe há mais de 50 anos e faz parte da economia circular. No Brasil, é prevista na Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010), que estabelece que ela trata somente a fração que não pode ser reutilizada, reciclada ou valorizada biologicamente, evitando sua disposição em aterros.

Afirmar que essas usinas queimam materiais recicláveis é uma narrativa que ignora não apenas como funcionam os sistemas modernos de gestão de resíduos. Mas a própria legislação brasileira.

Nas regiões metropolitanas que vierem a operar essas plantas, a coleta seletiva, a triagem e a recuperação de materiais permanecem obrigatórias. O combustível das usinas não é papelão, metal, vidro ou plástico de alto valor comercial. É somente a fração do rejeito, aquele resíduo que já não possui viabilidade técnica ou econômica para reciclagem.

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O mesmo vale para a fração orgânica. Sempre que houver viabilidade para segregação na origem, compostagem ou biodigestão anaeróbica, essas rotas devem ser estimuladas, inclusive porque resíduos orgânicos têm elevada umidade, o que reduz o poder calorífico e a eficiência energética das usinas. Sob a ótica técnica, compostagem e biodigestão não concorrem com o WtE: elas o complementam.

Esclarecido o que de fato entra nessas usinas, impõe-se a questão central: a alternativa à recuperação energética não é a reciclagem. É o aterro sanitário.

Para ilustrar essa comparação na prática, um estudo do BEIS/Eunomia, no Reino Unido, concluiu que a recuperação energética pode reduzir em cerca de 8,4 vezes as emissões líquidas de gases de efeito estufa em comparação com aterros dotados de captura de biogás.

Sobretudo pela eliminação das emissões fugitivas de metano e pela substituição de geração fóssil. Ou seja, a solução climática mais eficaz não está em capturar o metano depois que ele se forma, mas em evitar que o rejeito seja aterrado.

Há ainda outros benefícios documentados em comparação aos aterros: menor necessidade de novas áreas, redução da contaminação do solo e das águas subterrâneas, geração firme de energia elétrica e vapor industrial e recuperação dos metais das cinzas, que retornam à cadeia de reciclagem.

A experiência internacional tampouco sustenta o antagonismo entre WtE e reciclagem. Alemanha, Dinamarca, Suécia, Áustria e Países Baixos combinam altas taxas de reciclagem com ampla infraestrutura de recuperação energética.

E praticamente eliminaram o envio de resíduos a aterros. A Alemanha opera cerca de 100 UREs, recicla e composta perto de 69% dos resíduos, encaminha 31% à recuperação energética e destina menos de 1% a aterros, segundo o Banco Mundial e a União Europeia.

Também não procede o argumento de inviabilidade econômica. Comparar o custo por quilowatt de uma URE com o de uma usina solar ignora que as duas não fazem a mesma coisa. A URE é infraestrutura de saneamento que gera energia como subproduto, e seu termo de comparação correto é o aterro sanitário, não a placa fotovoltaica.

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Avaliar apenas o custo de construção deixa de fora o que essas usinas evitam em emissões de metano, em contaminação de solo e água e em pressão sobre a saúde pública. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cada R$ 1 investido em saneamento economiza R$ 4 em saúde pública.

Parte das críticas ainda mira incineradores antigos, ignorando a evolução do setor. As plantas modernas operam sob normas rigorosas, com monitoramento contínuo e travas automáticas de operação.

Segundo a Cewep (Confederação Europeia de Waste-to-Energy), respondem por apenas 0,2% das emissões de dioxinas e furanos na Europa, enquanto os veículos automotores respondem por cerca de 35%.

Defender reciclagem, compostagem, biodigestão e a inclusão dos catadores é correto e necessário. São agendas que merecem apoio integral e que a PNRS estabelece como prioritárias, antecedendo qualquer tratamento do rejeito. O que não se sustenta é afirmar que, sozinhas, elas dão conta de tratar todo o resíduo que o país gera.

A recuperação energética possui meta de cerca de 994 MW até 2040 no Plano Nacional de Resíduos Sólidos (Planares) e só pode operar mediante licenciamento ambiental. O contrato de manejo de resíduos da capital paulista, inclusive, prevê outras quatro unidades ao longo da concessão. Descartar uma tecnologia prevista em lei, incorporada ao planejamento federal e adotada em dezenas de países é desconsiderar evidências técnicas e regulatórias.

O país não precisa escolher entre reciclar, compostar, biodigerir ou recuperar energia. Precisa fazer tudo isso de forma integrada, reservando os aterros sanitários apenas aos rejeitos finais inevitáveis. Esse é o modelo adotado pelas economias mais avançadas do mundo. E a diferença prática, para o Brasil, é simples: cada tonelada de rejeito que deixa de virar energia continua a virar metano.

Fonte: Valor 


 

Escritor por:

Yuri Schmitke é Presidente Executivo da Associação Brasileira de Energia de Resíduos (Abren)

 

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